Os seios de Ofélia

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“Esperava por ela todas as manhãs. Esperava que ela viesse receber o sol nos cabelos claros, com os seus olhos verdes que encantavam, com o seu peito arrebatador. Era a mais feminina de todas as paisagens que eu podia sonhar, escondido, sempre escondido, na sombra da minha janela rasteira.”

Por: João Morgado

Conheci a Ofélia, tinha ainda os seios pequenos.

Aliás, minto… conheço-a ainda do tempo em que não tinha seios. Do tempo em que vinha para a janela brincar com a tigela de loiça e os seus olhos vinham até mim, reflectidos nas imensas bolas de sabão.

Os olhos eram verdes, o sorriso branco como a pele do seu peito nu. A sua felicidade cabia juntamente com o arco-íris nas bolinhas rutilantes que ela soprava lá do alto.

Muitas vezes vinham cair e respingar o peitoril da minha janela, de onde eu a observava escondido. Depois, era capaz de jurar que as bolinhas de sabão lhe entraram dentro da pele e o leque de cores se lhe abriu na carne – foi quando lhe nasceram os seios. Acreditem em mim, eram as flores mais puras que existiam, pequenas flores de carne macia e pele de luar onde despontavam dois carpelos escuros.

Eu – sempre escondido -, ficava maravilhado a olhá-la da janela. Mas um dia, a mãe agarrou-a por um braço e obrigou-a a vestir uma blusa azul.

“Compõe-ta rapariga”, gritou. Esse foi o último dia em que vi os seios da Ofélia. As suas flores ficaram escondidas para todo o sempre na estufa opaca das suas roupas. Compreenderão, que foi um dos dias mais tristes da minha vida.

Os meus olhos moravam no rés-do-chão e o seu peito no altivo primeiro andar do prédio em frente. A sua janela abria-se quando havia sol de Inverno, mas era na Primavera que Ofélia poisava ali para a ver o riscar aberto das andorinhas. E eu, cá do fundo – escondido – sempre maravilhado a ver o seu peito a crescer. Eu, cá do fundo, a sonhar com os seus decotes, em que ano após ano os seios lhe cresciam. Recordo-me perfeitamente quando um risco lhe dividiu o peito, e os seios enovelados de mulher ganharam sombreado e se tornaram volumosos como plantas viçosas – pareciam querer extravasar das roupas justas de adolescente.

Esperava por ela todas as manhãs. Esperava que ela viesse receber o sol nos cabelos claros, com os seus olhos verdes que encantavam, com o seu peito arrebatador. Era a mais feminina de todas as paisagens que eu podia sonhar, escondido, sempre escondido, na sombra da minha janela rasteira.

E eu via como os outros rapazes passavam e repassavam debaixo do seu parapeito, como lhe atiravam pedrinhas aos vidros para que viesse enfeitiçá-los também com a sua perfeição. Via como lhe cantavam serenatas desafinadas – digo eu -, mas que tanto pareciam encantá-la!

E os seus peitos cresciam e cresciam. Demasiado até, disse eu um dia de mim para mim. Luzidios, cheios como a dimensão do meu silêncio, transbordavam em sensualidade como se tivessem pedido emprestados os contornos do mundo.

Uma tarde o pai arrancou-a à força da janela. “Desgraçada, és a vergonha da família…!”, gritou.

Ela ainda deitou a mão à grade da floreira, mas a força bruta do pai acabou por arrastá-la com ele por entre um bofetão e outro. Ouviram-se então gritos e choros e a sombra de braços no ar no recorte luminoso da janela.

Nessa noite não acordaram as estrelas nem se entreabriu o quarto minguante da lua. Foi tempo de um só choro. Um choro que eu não ouvia, mas pressentia para além dos cortinados de renda que resguardavam a intimidade da casa de Ofélia. E sem saber porquê, chorei também por saber que ela chorava e sofri as dores que ela sofria mesmo desconhecendo os seus tormentos. Adivinhei-os mais tarde, quando a vi a transbordar amor do peito e do ventre, abençoada pelo espírito da criação. Linda!

Eu olhava-a com pudor cá do fundo dos meus olhos baixos, e via o seu peito vaidoso de mãe solteira a alimentar de ternura a sua cria. Acho que o arco-íris ainda estava dentro das suas flores de carne macia e pele de luar, onde despontavam dois carpelos escuros – o seu bebé crescia cheio de cores, de sorrisos brancos, de olhos verdes como os da mãe. Não tinha um traço do pai – digo eu, que nunca o conheci.

Os peitos de Ofélia alimentaram sonhos, desejos. Alimentaram o futuro de uma criança. Depois, como numa vénia respeitosa, descansaram, abateram-se como o restolho depois do temporal, como se as rutilantes bolas de sabão tivessem rebentado dentro dela como outrora rebentavam no meu peitoril.

Tornou-se então uma mulher triste e só, a olhar o infinito desde a sua janela. Sei-o eu que dia-a-dia olhava para ela, como quem olha uma virgem na sua prece. Só o filho que crescia em seu redor lhe roubava um sorriso de vez em quando, um sorriso que com o tempo, era cada vez menos rasgado, menos branco. E um dia, veio o batom para disfarçar o sorriso sem brilho, o blush para disfarçar a falta de cor, e um colar enorme para dar ao peito a altivez que perdera. Já não tinha vaidade dos seios entretanto consumidos pela idade, secos pela falta de beijos, mortos pela falta de carícias.

Já não é a jovem Ofélia que eu conheci do tempo em que não tinha seios. Hoje morre de calores mesmo quando não há sol, mesmo quando é o Inverno a soprar-lhe o rosto. Sente-se afrontada. O seu peito é grande mas amargurado.

Veste de negro por morte da mãe, que sempre a mandava compor, e por morte do pai, aquele que um dia lhe deu uns bofetões no meio da sua vergonha. Veste de negro porque é a cor que rima com solidão, é a cor da ausência de um filho emigrado lá bem longe, porque para ela tudo é longe e o fim-do-mundo começa no fundo da sua rua. Tem um colar novo sobre o peito e um olhar perdido no infinito, longe, muito longe.

Eu espero que um dia o seu olhar desça ao rés-do-chão rasteiro dos meus olhos, suave como o respirar de quem dorme, e respingue o meu peitoril como as bolas de sabão que me traziam o reflexo dos seus olhos verdes. Quem sabe eu tenha a coragem de lhe mostrar os meus olhos pardos e envelhecidos, de lhe mostrar o meu sorriso furtivo, e de lhe gritar cá de baixo: “Amo-te!”

Sim, gritar-lhe que a amo, mesmo que os seus seios tenham caído de tristeza e se tenham apagado sem que lhes tenha conhecido o cheiro ou o sabor. Que a amo, eu que continuo nos baixios do meu acanhamento, a olhar o castelo altaneiro do seu peito, de coração apaixonado, na prisão da minha cadeira de rodas…

©João Morgado

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16 Comentários

  1. Severino Moreira
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    Excelente texto em que a prosa nitidamente se veste de poesia, e esta se deslumbra com os seios aqui maravilhosamente contados …

  2. Maria do Céu Vaz
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    Um texto fantástico, como sempre, do nosso talentoso João Morgado.
    Parabéns e um abraço albicastrense amigo.

  3. Maravilhoso!. Um belíssimo texto poético.
    Os meus parabéns

  4. Olga Maria Carvalho Santos Fonseca
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    Lindo. Simplesmente lindo. Um conto (?) magistralmente narrado, onde é por demais evidente a sensibilidade poética do autor. Um hino à beleza feminina, mesmo que toldada pela brutalidade de um quotidiano miserável…. Mais belo ainda, porque mesmo perdendo o viço e a exuberância aqueles que foram botões de rosa transmutados em rosas escandalosamente belas, a ternura do narrador não deixa de transbordar por um peito menos belo, porquanto fora generosamente fonte de vida. Lindo.

  5. Dulce Gabriel
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    Oh meu Amigo, que gosto viajar nas tuas palavras.

  6. Lilia Tavares
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    Querido amigo João, continuas a sentir por dentro da pele a alegria, o desassossego, a solidão feminina. E a fazer destes sentires palavras.
    Lindo, este conto. Verde. Envolto em esperança como bolas de sabão que querem viver para sempre nos olhos de uma mulher e que só um homem de afectos atentos quer acariciar nas suas mãos..
    Beijo.

  7. Maria Jesus Valente Oliveira
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    Que lindo muito lindo mesmo amigo. Como te fui encontrar aqui onde semanalmente leio escritores desconhecidos para mim. Hoje possp partilhar e dizer:este escritor eu conheço bem pessoalmente. É uma satisfação imensa lê-lo.

  8. Maria Helena Moreno
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    Um maravilhoso texto com sabor a poesia!!!

  9. Jorge Ferreira
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    Comentar óbvio é mais um excelente texto do João Morgado

  10. Cris Netto
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    Maravilhoso!!!!!! Como sempre… admiro muito teu trabalho!

  11. Elizabete Almeida
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    Como é bom acabar o dia a ler em jeito de poesia, em jeito de sabedoria…
    é um verdadeiro prazer conhecer a tua escrita e conhecer te, sabendo que depois de todos estes anos continuas exactamente o mesmo homem, honesto e humilde.

    Parabéns por mais este magnifico trabalho!

  12. mariam
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    Muito. Parabéns renovados! 🙂

  13. Dulce Sotto Mayor
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    Um belo texto cheio fe doçura e sensibilidade… Goste. Parabéns.
    Abraço

  14. Regina Correia
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    A poesia desprende-se, em pérolas, de teus dedos, querido João Morgado, porque todos os rios da alma aí desaguam.
    É uma prosa ondulante, mas firme.
    Harmoniosa.
    Aveludada.

    Nessa bela “dimensão do silêncio”.

    Um abraço poético e amigo.

  15. conceicaolima
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    Conto?Narrativa? O que importa , se é a Poesia que se instala em nós, que nos agarra e nos impregna? Obrigada, João Morgado, por tão bem saberes usar as palavras e, sobretudo , seres capaz de as pintares como poucos!! !Gostei desses olhos “pardos” que sempre olharam ” de baixo”,, mas que amaram mais do que quem olha” de cima”…Obrigada!
    Sou tua fá…Tu sabes disso,!! 🙂 Um abração enorme, meu amigo!Obrigada pela tua partilha!

  16. Jacquea
    | Responder

    Expectacular !!!
    Muito bem escrito, como sempre,
    Mistura do ficcionismos com laivos biográficos.
    Bela prosa João….
    Abração

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