JOANINA

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“Sumi-me por umas ruas estreitas, fui escorregando no tempo, fui alcançando a memória. E ao virar de uma esquina, já no alto, no profundo, uma cidade a correr tonalidades de verde em garantidos repousos, o rio ao fundo, tranquilíssimo, e o hálito do calor que se vai desvanecendo ali na tarde que chega. No terreiro, um edifício. No edifício, a porta entreaberta. Entrei por essa porta entreaberta.”

Por: Cristina Carvalho

Sempre que um comboio pára em cima duma ponte e por debaixo dessa ponte existe a água, fica-se como que suspenso entre o céu e a terra.

No meio, a água. E por essa água de um rio, neste caso de um certo rio Mondego, não consigo evitar perder-me, ou conter-me sem abraço, encontrar-me ali parada, a balançar na carruagem a caminho de Coimbra, os olhos a percorrer este leito esverdeado, ninho de passarada, de medos e esperas sem fim. O comboio parou. E aqui estou eu muito sossegada, já me passaram as quatro estações, já olhei, já esfriei, já me foi noite e já me foi dia.

Espero. Ao segundo solavanco o comboio, subtilmente, avança, mas é como se continuasse parado de tão suave, tão imperceptível movimento. Deixou de estar parado. E agora, depois da água, depois da vida, do lado esquerdo, Coimbra existe.

Cheguei numa tarde muito quente. Por volta das três, a cidade está quase adormecida sob essa estrela de fogo que num alto só de altura, num vislumbre e em tremura, faz com que a vida se atrase. Desci do comboio e parei a olhar à volta. Não conheço aqui nada nem ninguém. Sou uma visitante. No fim da linha atravesso, no fim da linha vislumbro, para já, um bom começo. Quero ir lá ao fundo, lá ao cimo, conhecer de perto essa miragem de pedra, desaparecer-me na História onde avanço e onde recuo trezentos anos seguidos.

Sumi-me por umas ruas estreitas, fui escorregando no tempo, fui alcançando a memória. E ao virar de uma esquina, já no alto, no profundo, uma cidade a correr tonalidades de verde em garantidos repousos, o rio ao fundo, tranquilíssimo, e o hálito do calor que se vai desvanecendo ali na tarde que chega.

No terreiro, um edifício. No edifício, a porta entreaberta. Entrei por essa porta entreaberta.

Percorri, silenciosamente as notas de música que ia ouvindo no interior deste interior, cada livro, cada tecla, cada passo, cada som, e ouvi vozes e senti os espíritos dos incontáveis artistas que aqui trabalharam, que aqui se criaram e viveram e amaram e sofreram, dezenas e dezenas de artistas e artesãos que, numa atitude conjunta fizeram brilhar num firmamento magnânimo a mais extraordinária biblioteca universitária do mundo: a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra.

Admirei a frescura do interior, o esmagamento barroco, as chinoiseries que ornamentam as laterais das altíssimas estantes de carvalho carregadas de preciosidades encadernadas; apreciei o engenho da dissimulação das escadas de madeira em aberturas discretas ao comprimento das próprias estantes, desci às masmorras, perdi-me nas masmorras, sofri, pensei e pasmei nas masmorras. E caminhei por estreitíssimos, secretos e escuros corredores; desci pelo abismo dos degraus, equilibrei-me nalgum musgo das paredes, aspirei a humidade de outros tempos. Elevei-me ao maravilhoso quando percorri com passos curtos os varandins que bordam todo um espaço aéreo, circundante.

Mas duas reais surpresas prenderam a minha mais certeira atenção e é por elas que escrevo esta crónica: mesas e morcegos.

Seis sumptuosas mesas de leitura estão espalhadas por todo o espaço da biblioteca. Cada uma tem, pelo menos, quatro metros!

Quando o dia chega ao fim e não há mais visitantes, nem turistas nem estudantes, as mesas são tapadas por amplas e largas composições de peles curtidas e unidas para o efeito. Nos séculos XVIII e XIX, eram peles de urso, vindas doutras paragens, cosidas umas às outras de forma a compor um vastíssimo manto protector dessa madeira preciosa em que as mesas foram concebidas. É que os dejectos das colónias de morcegos que habitam e se alimentam ali, na realíssima Joanina, dão cabo de tudo!

No alto das alturas das paredes inteiramente decoradas por estantes com milhares e milhares de riquíssimas lombadas de pele e oiro e prata e mais que se não sabe, estes magníficos livros, quase todos dedicados a uma só matéria – a religiosa – escapam à voracidade dos insectos comedores de papel unicamente por via desses feiíssimos mamíferos: os úteis morcegos. No alto das alturas, estando eu no varandim, pude apreciar sem olhar à sua função, os secretos esconderijos destes animais especiais que durante a noite, ao arrepio das preciosidades presentes, esvoaçam tranquilamente rentes aos belos livros, poisam nos belos livros, chafurdam e pastam por ali, comendo todos os insectos que por sua vez, se não fossem comidos, comiam as tenras folhas do antiquíssimo papel. Comem e dejectam. Dejectam porque comem. E por isso, as seis enormes e maravilhosas mesas de leitura têm de ser tapadas todas as noites de todos os dias porque todas as noites de todos os dias os morcegos se alimentam.

Saí. Saí tarde. Saí ao pôr-do-sol desse dia tão quente e percebi a aproximação da noite em mais um dia da vida. Saudei, mentalmente, esta “casa de livros”, construída, decorada e vivida durante onze intensos anos. Saudei, mentalmente, as dezenas de Antónios, Manueis, Carlos e Luíses que foram seus bronzistas, latoeiros, vidraceiros, pedreiros e marceneiros. Saudei, mentalmente, uma das jóias mais valiosas que Portugal tem para mostrar e para dedicar ao mundo inteiro. A Biblioteca Joanina.

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©Cristina Carvalho

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15 Comentários

  1. Dina Tomaz
    | Responder

    Texto muito rico em descrição e belo nas palavras mais simples. Gostei muito.

    • Cristina Carvalho
      | Responder

      Muuto obrigada, Dina Tomaz.

      Cristina Carvalho

  2. Bela prosa – as «casas dos livros» – todas, bem o merecem.

  3. Memórias tecidas em toada poética.
    Coimbra, Mondego, ponte e comboio… tudo para ser franqueada a entrada pela memória adentro, no encontro do livro, da mais que emblemática Biblioteca Joanina (e seus morcegos).
    Belíssimo texto.
    Obrigada e parabéns

  4. Cristina Carvalho
    | Responder

    Agradeço os comentários!

    Cristina Carvalho

  5. Glicia Willingshofer
    | Responder

    Que texto lindo !!! Emocionando em terras distantes . Saquarema, Rio de Janeiro, Brasil

    • Cristina Carvalho
      | Responder

      Agradeço a sua opinião. Glicia!

    • Cristina Carvalho
      | Responder

      Obrigada, Regina!

  6. Regina Jerónimo
    | Responder

    Crónica muito bem escrita, respeitando todos os requisitos a que tem direito. Numa palavra apenas – deslumbrante!

  7. Helena Rosinha
    | Responder

    Maravilhoso o modo como me levou a viajar até à Joanina. E quando cheguei, quase não queria entrar, desgostosa por antever que, alcançado o objectivo, terminaria a magia do momento. Mas, entrei e o encanto deu lugar à curiosidade pelos detalhes “técnicos”, tão interessantes quanto úteis. Gostei muito.

  8. Encontro pela vez primeira “as crónicas ” de Cristina Carvalho.Ás primeiras linhas não dei muita atenção,mas na continuação da leitura ,senti-me também a entrar por aquela porta semi-.aberta que em tempos me atrevi a transpor também.Tudo tão real que só no fim me apercebi que estando ali,não estava,de tão real é a maneira como Cristina descreve na crónica . a Biblioteca Joanina.
    Para além da partilha,agradeço a singeleza com que o faz.

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  9. Cristina Carvalho
    | Responder

    Muito obrigada pelas apreciações!

    Cristina Carvalho

  10. Fernandino Lopes
    | Responder

    Parabéns Cristina,
    As suas palavras transportam as pessoas e oferecem-lhes os lugares, os momentos, as sensações, as imagens – o rio, a cidade, os lugares, o voar dos morcegos, o folhear dos livros, o burburinho silencioso das vivências na Biblioteca Joanina.
    Muito obrigado.
    Fernandino Lopes

  11. Alice Rios
    | Responder

    Crónica saborosa, cheia de ritmo poético.
    Parabéns, Cristina Carvalho!
    A sua escrita é tão visual que me senti levada pela mão, nesta mesma visita à Biblioteca Joanina.- sem dúvida uma das maravilhas de Portugal, conservada em recomendável recato, e com muito orgulho, sem espalhafato.
    Obrigada por estas emoções..

  12. Maria Vitória de Sousa
    | Responder

    Tanto que me ensinou esta crónica, Além disso despertou-me o desejo de viajar até Coimbra e visitar a biblioteca em que os morcegos cuidam dos livros.
    A minha gratidão.
    MVitória de Sousa

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