Autobiografia Imaginária: Astur-Mirandês

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“Tenho dúvidas se verdadeiramente as línguas escondem ou revelam o que as pessoas são. Por maior amor que possa encontrar pelas línguas, julgo que aquilo que somos é, afinal, independente da expressão.”

Por: Valter Hugo Mãe

A morte de Amadeu Ferreira não desampara a terna causa das terras de Miranda mas está como um vazio ao centro de todas as coisas. Por isso mesmo, frequentemente as conversas começam ou seguem com os seus livros, citações que se fazem para que ele ainda seja um interlocutor, cuidadoso guardador da cultura daquelas montanhas e um dos seus mais aturados definidores. Assim, quero também começar por citar o belíssimo Velheç/Velhice, último livro de Amadeu Ferreira, madura forma de ver o mundo: “Apenas há uma maneira de deixar de andar à volta: sair daqui./ Solo hai ua maneira de deixar d’andar al redror: salir deiqui.”

Falar de uma língua astur-mirandesa (desse grande espetro leonês) é dado a todo o tipo de paternalismos, uma espécie de tom piedoso pode sentir-se nas melhores intenções. No entanto, é certo que as línguas não importam pela quantidade de gente que as fala, importam pelo brio com que descortinam ideias e sentimentos, o modo como enriquecem quem as entende, porque o tamanho das expressões parece muito simbolizar o tamanho das gentes. Assim, manter o mirandês, e desde logo saber e estudar a irmandade com o asturiano, poderá urgir para não se perder um determinado universo mental.

Tenho dúvidas se verdadeiramente as línguas escondem ou revelam o que as pessoas são. Por maior amor que possa encontrar pelas línguas, julgo que aquilo que somos é, afinal, independente da expressão. Dizê-lo pode explicitar e motivar, mas não estou seguro que a palavra adentre por absoluto o âmago da identidade humana. Tendo a pensar que as palavras nos rondam, e tantas vezes nos iludem para um arrebatamento impressionante, mas não nos são. Quem não fala ou não entende, ainda assim não se destitui de ser gente. O que somos é largamente sem vocábulo. A fúria das línguas e de todas as literaturas está sempre na utopia de encontrar um verbo que exponha toda a verdade velada, mas ser-se pessoa implica um espaço de subjetividade, e até de transcendência, que nunca se esgotará ou se auscultará por completo.

Dito isto, o que me fascina na possibilidade de um astur-mirandês tem que ver com a minha declarada paixão por quanto as palavras nos iludem. Não seria escritor sem padecer desta obstinada maneira de prestar atenção a como se dizem coisas, as coisas. Citado pelo grande Xuan Bello, Bernardo Atxaga, que escreve em basco, defende que a literatura basca, como a asturiana, será tanto melhor quanto seja boa para toda a gente, colocando como imperiosa a universalidade da arte literária e desmistificando o susto de se escrever numa língua “menorizada” (por oposição à ideia de se tratarem de línguas menores). Xuan Bello é muito claro defendendo que os escritores devem libertar-se de um certo preconceito de claustrofobia das línguas menos faladas. O esplendor da literatura solicita que o texto exista na expressão mais genuína de um autor, e assim encontrará sempre o seu caminho para o mundo, assim mesmo poderá garantir a sua vocação universal.

De certa maneira, o escritor das línguas periféricas tem de curar-se do sentimento de estar em contradição. Não pode colocar-se como contradito porque o que escreve não deve sucumbir à presença de outras línguas, eventualmente mais faladas, promovidas, populares ou compulsivas.

O que se anseia ver, como já se viu com a certa geração de ouro de Xuan Bello nas Astúrias, é o surgimento de uma literatura esplendorosa de Miranda do Douro, eu diria que na esteira do que já deixou Amadeu Ferreira, onde a língua não está para ser de guerra contra o mundo mas para ser manifestação do esplendor que o mundo também contém. Para lá do comum, para lá de toda a vulgarização, o exercício da língua de Miranda não se quer como modo de encerrar mas como modo de potenciar e de libertar.

Com organização da autarquia e da Associaçon de Lhéngua I Cultura Mirandesa, correram as II Jornadas Amadeu Ferreira. O que mais se torna inesquecível deste evento é a alegria de se encontrarem asturianos e mirandeses como amigos que se apartaram de terras mas que se reconhecem por coração.

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© Valter Hugo Mãe, em “Jornal de Letras”, 2016

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