Ama-me, Alfredo

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“…não há lá grande coisa no céu. Já olhaste para cima? Só existem nuvens, estrelas e o sol e, vamos lá ser honestos, acho que não dá muito jeito ir viver para lá: o sol é quente, as nuvens instáveis e as estrelas pontiagudas.”

Por: Tiago R. Santos

“Pai, o que é que aconteceu à Avó?”

“Ela morreu, filho.”

“O que é que é isso? Morrer?”

“Quer dizer que ela não vai estar mais connosco. Que já não aparece no Natal nem no teu dia de aniversário nem vai passar horas ao telefone com a tua mãe. Quer dizer que ela agora está a descansar. É isso que quer dizer.”

“Ah, já percebi. Foi para o céu.”

Ele agora não diz nada. Quer mesmo que tenha sido uma conclusão do miúdo porque, se foi uma pergunta, então ele está lixado, não há hipótese deste diálogo acabar bem. Pode ser que o breve silêncio seja uma transição para outro assunto. Talvez o puto pergunte porque é que o céu é azul, nem que seja por simples associação de ideias. Não que ele saiba a resposta. Porque raio é o céu azul? E que diferença é que isso faz? Miúdos e as suas perguntas, meu. Olha para o telemóvel, nenhuma chamada perdida ou mensagem recebida, apenas ele e o filho e uma conversa que só pode dar merda e ainda por cima a mulher nunca mais se livra daquele abraço porque há pessoas que estão convencidas que as frases feitas funcionam como antídoto para a dor e a morte.

“Pai.”

“Sim, filho?”

“A avó está no céu, certo?”

Fodeu. Mantém-te calado. Já percebeste que isto é importante, certo? Mas estou aqui e vamos ultrapassar isto. Narrador e Personagem, lado a lado, prontos para responder às grandes questões existenciais.  Ou não responder, neste caso. Porque o que é que sabemos? Porra nenhuma.

“Pai”

Não digas nada. Nem uma palavra.

“Está no céu, a avó?”

“Quer dizer…”

Estás a falar, palavras estão a sair da tua boca, não foi isso que combinámos.

“…não há lá grande coisa no céu. Já olhaste para cima? Só existem nuvens, estrelas e o sol e, vamos lá ser honestos, acho que não dá muito jeito ir viver para lá: o sol é quente, as nuvens instáveis e as estrelas pontiagudas.”

“Então onde é que ela está?”

“Em lado nenhum.”

Oh caralho, a sério? Vais por aí? Agora é o rapaz que não responde. Dá para a perceber que a sua pequena mente está a processar o que acabou de ouvir. Que algumas sinapses se iluminaram e ligações precoces foram estabelecidas e há ali qualquer coisa que não está a fazer sentido, que precisa ser esclarecida. Não, meu caro, isto não vai ficar por aqui, há uma fila de abraços que engolem a tua mulher durante tantos e tantos minutos e és neste momento o guardião da verdade e aqui vem ela, a pergunta, a merda da pergunta.

“Mas como é que não se está em lado nenhum?”

“É um bocado como quando dormes. Morrer é dormir sem sonhos. Não estás em lado nenhum. É apenas um lugar escuro onde não há tempo.”

Ele está a chorar?

“Estás a chorar?”

“E eu?”

“E tu o quê?”

“Também vou morrer?”

Pausa.

“Acho que é melhor ires perguntar à tua mãe.”

“Também vou morrer, pai?”

O que é que ele ia dizer? Que não? Para depois o miúdo atar um lençol ao pescoço e saltar do quarto andar como se fosse o Super Homem? Ou colocar o dedo cheio de cuspo nas fichas eléctricas?

“Vais. Mas, se tudo correr bem, só quando fores muito velhinho. Como a tua avó.”

Meu, pai do ano. Bela resposta. É isso mesmo. Não, espera, não é. A parte final é boa, segura, daquelas que estão escritas nos livros dos pediatras e dos psicólogos. O início? Nem por isso.

“Mas… E se tudo correr mal? Posso morrer amanhã? Há hipótese de morrer amanhã?”

“Antes de mais, parabéns pela construção frásica e pelo vocabulário. Não é por nada que a tua professora recomendou que saltasses um ano. Voltando à tua questão, sim, podes. Mas não é provável. É possível mas não é provável, percebes?”

Ele não percebeu, até porque tinha só sete anos e mesmo alguns adultos têm dificuldades em perceber a distinção entre os dois conceitos. Passou o ano seguinte a ser acompanhado por um especialista: acordava todos os dias apavorado, recusava-se a estar afastado da mãe e dizia ao pai, a toda a hora, que o amava muito, achando sempre que essas seriam as últimas palavras que iriam trocar. O que irritava muito o pai, naturalmente, provocando danos irreversíveis na relação.

Anos mais tarde, o miúdo que já não era um miúdo foi ao São Carlos assistir à “La Traviata”. Quer dizer, era na verdade uma transmissão em deferido de uma encenação no Teatro alla Scala, dirigida por uma celebrizada realizadora de cinema e com os fatos e vestidos desenhados por um icónico estilista. Ele, o agora adulto, recusava-se a passar a sua roupa a ferro e não o fez para o evento, até porque não conseguia descodificar o sentido de se vestir com roupa elegante e engomada só para ir ver televisão. A sala estava meio vazia (ou meio cheia, se forem esse tipo de pessoa) porque era noite de futebol e rapidamente o tédio se instalou: ópera nunca foi a cena dele, só lá estava para tentar impressionar uma pessoa, e nem sequer percebeu metade na narrativa, ficando com a sensação de que era a história entre dois cantores que se separam porque ela insiste em vender os cavalos e o sogro exclama que aquilo é uma desonra e ele fica lixado porque ela vai a uma festa com um barão, sabendo que estava tísica e que morreria em breve nos braços de Alfredo, o protagonista, sem que o seu amor tivesse sido consumado. Foi um tremendo sucesso e pessoas choraram de comoção perante tamanha tragédia e a música absoluta de Verdi e aplaudiram os intérpretes que não estavam apenas a milhares de quilómetros de distância; viviam também numa linha temporal diferente, alguns estariam agora com toda a probabilidade a jantar em alguma tasca italiana; outros a aconchegar os filhos que se deitam, dando-lhes um beijo na testa e mentindo-lhes com promessas de uma vida segura e eterna.

E o adulto voltou a sentir-se miúdo, recordou-se daquela conversa que teve lugar enquanto a avó estava dentro daquela caixa e a mãe era vítima de todos aqueles abraços.

“Gostaste?”

Pergunta feita pela pessoa que não era assim tão impressionável e com quem ele nunca teria qualquer hipótese.

“Lembro-me, quando era miúdo, que o meu pai me disse que era possível que eu morresse sempre amanhã.”

“O que é que isso tem a ver com La Traviata?”

Ele queria dizer-lhe que em nada estava relacionado e que em tudo estava relacionado; que não é preciso ser tísico para saber que estamos sempre a segundos de entrar naquele lugar escuro onde não há tempo, mas isso seria uma péssima conversa de engate e ele preferiu mudar de assunto e perguntar porque raio é que alguém ficaria chateado só porque a pessoa amada vendeu os cavalos mas ela também não sabia a resposta e ficaram em silêncio enquanto todos os restantes espectadores continuavam a bater palmas ao palco que se tinha transformado num gigante ecrã de televisão.

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©Tiago R. Santos

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11 Comentários

  1. Cina Fraga
    | Responder

    Belíssimo <3

    • Tiago R. Santos
      | Responder

      Muito obrigado!

  2. Maria Isabel Loureiro
    | Responder

    Maravilhosa crónica! Uma imaginação fantástica! Os meus parabéns!

    • Tiago R. Santos
      | Responder

      Obrigado pelos elogios, Maria.

  3. Maria China
    | Responder

    Adorei! Com conteúdo, num linguagem terra a terra, dinâmica e ligeiramente “irónica”.

    • Tiago R. Santos
      | Responder

      Muito obrigado!

  4. Maria Victória Ataíde
    | Responder

    Tema muito interessante mas deveria ser mais sintético.

    • Tiago R. Santos
      | Responder

      Agradeço a observação, Maria.

  5. Helena Osório
    | Responder

    Adorável!

    • Tiago R. Santos
      | Responder

      Obrigado!

  6. Zelmar
    | Responder

    Muito boa, quase comestível! Gosto de perguntas infantis e respostas tontas de adultos… Excelente!

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