‘Não há métrica para medir livros e leituras’

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Entrevistas > Luís Quintais

Luís, quando é que surgiu a sua vontade de escrever poesia e de publicar?

Penso que comecei a escrever na minha adolescência. Não sei precisar quando. A grande motivação esteve e está na leitura. Há aí uma interpelação. A escrita é uma resposta. Era já um grande leitor. Continuo a ver-me como um leitor. Publicar só apareceu mais tarde. Publiquei o meu primeiro livro com 27 anos. Antes houve uns cadernos. Uma coisa muito artesanal que contém alguns poemas em que me revejo ainda hoje. Nunca sabemos muito bem por que publicamos. Porque estamos condenados à interpelação, provavelmente.

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

Não sei precisar. Varia muito. Seja como for, a resposta anterior já contém alguns elementos esclarecedores. Respondo ao que leio. Como diz uma canção dos The Smiths, «Handsome devil», há mais coisas na vida do que livros, mas não muitas mais («There’s more to life than books, you know / But not much more»). É certo que mais coisas há, e dessas também fiz coisas. A poesia é uma resposta, em todo caso. Quase sempre uma resposta tardia. Tudo o que importa vem after the fact. Daí também a sensibilidade melancólica que está presente em toda a minha escrita.

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?

A melancolia, disse. Uma sensibilidade melancólica atravessa todos os meus livros. A poesia é a constatação do fim ou, talvez, de um princípio em condição de remorso. A génese da modernidade poética na qual me fui contextualizando está aí também.

Que aspetos destacaria relativamente à sua mais recente obra; “A Noite Imóvel”?

É um livro muito complexo. Feito por camadas. Começa com o vazio (o «mu» japonês) e acaba com um poema político em fragmentos. É um livro confessional, de onde não se ausenta um certo horror metafísico em relação à existência.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritor?

Destaco dois. A publicação da minha obra reunida em 2015. Vinte anos de poesia e um título, Arrancar penas a um canto de cisne. A publicação de O vidro (Glas) na sua tradução alemã pela Aphaia Verlag.

O que é, para si, um bom livro?

Um bom livro é aquele que muda radicalmente o nosso modo de interrogar o mundo. Que livros o fazem ainda? Não sei. Poucos o fazem certamente. E cada leitor é mudado de acordo com a sua diferença e sensibilidade. Não há métrica para medir livros e leituras. E também não há estrelas, como aquelas que abundam insidiosamente nos hebdomadários do hábito e do cansaço.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

Os melhores escritores são sempre os melhores leitores. Escrever é ler. Ler com infinita precisão e atenção o que foi escrito e o que ainda não foi escrito.

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

Sem ordem de preferência ou de importância, aí vão sete:

Wallace Stevens, Collected poems

T.S.Eliot, The complete poems and plays

Weldon Kees, Collected poems

Fernando Pessoa/Bernardo Soares, O livro do desassossego

Ludwig Wittgenstein, Investigações filosóficas

Claude Lévi-Srauss, Tristes tropiques

Jorge de Sena, Sinais de fogo

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Um comentário

  1. O que dizer? Como dizer?
    Comunhão… quase.

    O livro do desassossego… sim ( F. Pessoa)
    Sinais do fogo… também. J de Sena)

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