‘Um bom livro é como uma cicatriz que fica falando a vida toda’

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Entrevistas > Daniel Gonçalves

Daniel, quando é que surgiu a sua vontade de escrever poesia e de publicar?

Lembro-me que a poesia aconteceu-me, pela primeira vez, nas aulas de português do nono ano. Mas como li a Odisseia de Homero dois anos antes… talvez tenha sido aí que ela se manifestou como um ser vivente dentro de mim. Publicar só aconteceu após ter ganho o Prémio de Revelação de Poesia da APE, em 1997. O primeiro livro sai em 2000, depois foi fácil e difícil ao mesmo tempo publicar um livro: continua sendo.

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

Normalmente a desgraça iminente do amor é uma fonte de inspiração inesgotável. Findo esse filão resta muito pouco, mas tanto pode ser Antero de Quental como um vulcão. É tudo tão espontâneo e misterioso que nunca se sabe o que aí vem. Talvez, acima de tudo, também possa ser a excitação de me meter com as palavras.

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?

Creio que a inevitabilidade da nossa mortalidade seja a temática mais interessante. Aparece sob muitas formas. Tenho, todavia, três livros com temáticas muito circunscritas: um, publicado, sobre a lírica da banda islandesa Sigur Rós, e outros dois, inéditos ainda, sobre Antero de Quental e sobre a catástrofe de um desastre natural, cujos pormenores não posso revelar por agora.

Que aspetos destacaria relativamente à sua mais recente obra; “Papéis Secundários (pequenas ficções)”?

Esta obra demorou a fazer mais do que todas as outras obras juntas. Foi um trabalho cansativo, no bom sentido, sobre a arte que nos inspira, neste caso a arte literária e musical. São, por assim dizer, palimpsestos muito pessoais. Uso uma frase, um verso ou um refrão de outro autor, que vão de Camões, passando por Catulo ou Victor Hugo, U2, Nick Cave ou Morrissey. É um caldo de coisas roubadas. Mas muito minhas, pequenas ficções do poeta da ilha pequena.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritor?

Ter ganho o prémio de poesia da APE e depois uns quantos outros. Todos os prémios ajudaram-me a não desistir, e foram acontecendo nos espaços necessários. Nunca me trouxeram mais nada, apenas alento pessoal, e mais amigos. Os amigos que a poesia nos dá são a coisa mais maravilhosa que existe.

O que é, para si, um bom livro? 

Um bom livro é como uma cicatriz que fica falando a vida toda. Não importa o tamanho, o género, o tema. Se ele nos fica cá dentro é bom. Por isso é que Camões é bom, fica em toda a gente e em qualquer época. O Memorial do Convento é bom todos os dias e assim será pelos anos que virão. Não podemos dizer o mesmo de tantos outros, por isso mesmo, porque não ficam dentro de nós.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

Um bom escritor inventa a língua com que sonhamos. Um bom escritor é aquele que nunca há-de saber que o é, porque passa a vida a tentar superar-se. Mas também pode ser um bom escritor e apenas ter escrito uma linha admirável, como o Castello de Moraes “a névoa é o perdão do sol às coisas imperfeitas”.

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

Tantos e tão poucos. Saramago, Álvaro de Campos, Bashô, Camões, Eugénio de Andrade, Eça de Queirós e Herberto Helder. Recomendaria, claro, o Memorial do Convento, a Poesia de Álvaro de Campos, A Poesia Toda de Herberto Hélder, o Elogio da Sombra da Junichiro Tanizaki, a Odisseia de Homero, as Metamorfoses de Ovídio e, porque não, as crónicas do Ricardo Araújo Pereira, porque para escrever-se bem, também é preciso saber interpretar o nosso mundo, rindo dele: ridendo castigat mores.

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