Um dia com… a escritora Filipa Martins

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Reportagem escritores.online©

Filipa Martins é escritora desde cedo. Escreveu o primeiro livro com apenas vinte e dois anos. Elogio do Passeio Público foi escrito em cerca de três meses, enquanto ainda frequentava o curso de Jornalismo, e resultou na atribuição do Prémio Revelação, em 2004, na categoria de ficção, pela Associação Portuguesa de Escritores (APE).

Além de escritora, Filipa Martins trabalha em comunicação, colabora como jornalista freelancer com as revistas Ler, Notícias Magazine e Evasões e iniciou recentemente o trabalho como argumentista de uma série histórica para a RTP sobre o universo cultural e político dos jornais dos anos 60 que conta a história de ­­três mulheres – Natália Correia, Snu Abecassis e Maria Armanda Falcão (Vera Lagoa).

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Livros

A escritora no Largo do Carmo

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A escritora de trinta e três anos conta já com três livros publicados e um percurso notável no mundo da escrita. Elogio do Passeio Público, Quanta Terra e Mustang Branco são os três “filhos” que gerou, estando o quarto com “parto” marcado para o início de 2018. Tal como uma mãe, escolher um deles como preferido parece-lhe impossível: “Todos os livros foram especiais à sua maneira”.

Da escrita à publicação de Elogio do Passeio Público passaram-se quatro anos e só em 2008 é que o livro é editado. A demora provocou-lhe um certo desencantamento, por isso sentiu necessidade de escrever logo o segundo livro, Quanta Terra, que chegou às livrarias no ano seguinte, tentando deste modo uma forma de desbloqueamento: “A publicação é aquilo que um escritor pretende e no caso do meu primeiro livro levou anos. Portanto, achei que era importante escrever rapidamente para apagar essa sensação menos boa relacionada com a escrita”, explica a escritora.

O terceiro livro, Mustang Branco, foi “muito pensado” e só veio a ser publicado em 2014. A autora justifica os quase cinco anos que separam a publicação dos seus dois últimos livros: “Preciso muito de querer escrever uma história. Acho que nunca serei uma escritora de publicar todos os anos… Primeiro, preciso de comprar tempo para escrever (trabalhar, pagar contas, etc…) e depois não considero que tenha sempre uma grande história para ser contada. Acho que devo esse respeito aos leitores, tenho que ter a certeza de que aquilo que publico é efectivamente bom”.

Sobre o quarto livro, que chegará em breve às livrarias, Filipa Martins adianta que surgiu de uma viagem a Itália. “Muitas vezes, as ideias nascem em viagens… Porque é um ambiente estranho, em que olhamos com mais atenção para as coisas que não conhecemos e somos tocados pela estranheza do desconhecido; e porque dá disponibilidade mental. Com o facto de estarmos longe, ganhamos uma certa impunidade… Acho que nos sentimos menos responsáveis, desresponsabilizamo-nos do dia-a-dia, e isso permite ter mais tempo mental para criar histórias”.

O protagonista deste novo livro é inspirado numa pessoa que a autora conheceu na sua viagem a Itália. A personagem principal é um escritor italiano de cinquenta anos, homossexual, que vive uma crise no seu casamento com um matemático de origens galegas e que é convidado a escrever uma biografia de um familiar do marido. O livro é escrito a três tempos: a vida do biografado, a realidade do protagonista e da sua relação e, através da escrita da história do biografado, a história que vai escrevendo sobre a sua relação.

“É um livro que existe muito à volta do conceito de memória, mas aqui o postulado é inverso àquele que consideramos como válido, porque o que está no livro não é tanto lembrar, é mais esquecer. Ou seja, como é que devemos esquecer para conseguir viver. Isto é trabalhado do ponto de vista filosófico – porque é que devemos esquecer determinados momentos da nossa vida para seguir em frente, quase como se os pudéssemos aspirar ou deitar fora – e é trabalhado do ponto de vista científico— de que forma é que podemos interferir no cérebro humano para apagar determinadas memórias que são traumatizantes e paralisantes, que funcionam quase como uma doença, para que uma pessoa consiga ser funcional ”, conta Filipa Martins.

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Do Largo do Carmo à Underdogs Art Store

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Na manhã que antecedeu a partida para a sua próxima viagem, Filipa Martins levou o escritores.online a dois locais de que gosta e frequenta – o Largo do Carmo e a Underdogs Art Store.

O Largo do Carmo porque reúne a História do país. “Acho interessante, numa única praça, termos a história de um país: desde as lutas com os Castelhanos, até ao 25 de Abril… Até à ideia preconizada por D. Dinis da necessidade de criar uma geração de ouro intelectual e ligada às ciências em Portugal. A Universidade de Coimbra começou aqui e só depois é que foi transferida para Coimbra”.

No fundo, o Carmo guarda uma grande parte da memória de um país e faz todo o sentido visitá-lo na companhia de uma das escritoras portuguesas que trabalha a memória nos seus escritos. “Há aquela ideia de que os autores estão sempre a escrever sobre o mesmo tema, não é? Eu tenho a sensação que estou sempre a escrever sobre a memória, porque o meu primeiro livro foi uma fantasia sobre o Estado Novo (a memória de um povo); o segundo foi sobre a altura dos Descobrimentos, apesar de ser uma novela; no terceiro, a memória era também tratada de uma forma muito precisa (uma mulher que era de alguma forma condicionada por memórias do passado e em que foi necessário voltar a esse território para se libertar); e este livro é uma apologia do esquecimento. Portanto, parece que ando sempre à volta da memória”, esclarece a escritora.

E Fernando Pessoa que morou num quarto alugado no Carmo… “Acho extraordinária a capacidade de escrita de Pessoa. O facto de ainda desconhecermos tanta coisa e, ainda assim, aquilo que conhecemos ter tanta qualidade. Vejo-o como um escritor com partes muito difíceis. Acho sempre surpreendente alguém escrever tanto e tão bem. Dos heterónimos, gosto mais de Ricardo Reis, é mais cerebral, acho que é isso que me agrada nele… Gosto também de algumas coisas que Fernando Pessoa assinou em nome próprio. É uma certa esperança para qualquer escritor olhar para um dos maiores poetas da nação e perceber que ele, durante a vida, nunca foi publicado em português. Eu, se calhar tenho uma certa paixão por estas histórias um pouco mais trágicas de pessoas que escrevem por necessidade… Porque efectivamente Pessoa teve várias profissões, era um génio e não conseguiu ser reconhecido pelos pares no seu tempo com o grau de genialidade que agora lhe conferimos”.

Filipa Martins indica Mário de Carvalho e Mario Vargas Llosa como referências: “Gosto de escritores que burilam os textos, não é no sentido barroco, que não gosto, mas naquele em que as frases são quase uma equação matemática, não são uma pintura. Acho que ambos têm isso”.

Para as personagens procura essencialmente a autenticidade: “No final, tenho que acreditar que aquela pessoa existiu mesmo. Cheguei à conclusão que não gosto de heróis, gosto de pessoas imperfeitas, exactamente por isso, para parecerem reais. Depois há um problema, as pessoas normalmente procuram evasão nos livros e eu dou-lhes uma chapada de realidade. Os meus livros são para sentir pensando”.

Sente que na nova experiência como argumentista o factor de autenticidade das personagens se acentua: “Aquilo que eu já fazia de forma mais inconsciente nos livros, acontece de forma muito mais consciente nos argumentos e mais do que isso, busco-o. Na ficção para televisão, mais do que na ficção literária, há uma grande preocupação na verosimilhança. Se no livro, principalmente se estivermos a escrever na primeira pessoa, tem que se ter a humildade de nos anularmos para conseguirmos tornar aquele narrador credível, na escrita de argumentos esse processo de alteridade tem de ser ainda mais exacerbado e temos que ser ainda mais humildes”.

A escritora foi conquistando uma certa disciplina para escrever. Se no início escrevia em pijama, em situações de desorganização e quase caos, hoje escreve todos os dias, por vezes ainda antes das oito da manhã e à noite durante cerca de duas horas. Confessa que na parte de finalização do livro, quando já percebeu para onde o livro evoluiu, precisa de quinze dias, um mês, de reclusão total em território imersivo para o conseguir acabar, mas que hoje já não consegue escrever em pijama e que precisa de tomar banho, lavar os dentes e tomar o pequeno-almoço antes de se sentar para escrever.

A Underdogs Art Store é um dos locais onde gosta de dar largas à escrita, porque é agradável e de frente para o rio, além de admirar o movimento underdogs, projecto, cujo rosto mais visível é o de Vhils­­­, que hoje é uma referência da arte urbana portuguesa.

A Underdogs foi um projecto criado em 2010 e consolidado na sua forma actual em 2013. É uma plataforma cultural que pretende criar espaço no cenário da arte contemporânea para artistas ligados às novas linguagens da cultura gráfica e visual de inspiração urbana. Está dividida em dois espaços: Underdogs Gallery e Underdogs Art Store.

A Underdogs Art Store, local escolhido por Filipa Martins para este dia, situa-se no Cais do Sodré e é a combinação de um centro de arte com uma residência artística que dispõe de cafetaria e loja.

A escritora refere que “a rapidez com que as coisas acontecem beneficia os artistas. No tempo do Pessoa as novas tendências demoravam mais tempo a serem aceites e a serem incorporadas pela sociedade. Há quem veja nisto um problema, que haja uma certa comercialização e estandardização da arte ao ponto de os artistas deixarem de ser disruptivos, porque passam a ser assimilados pela cultura. O movimento underdogs é bastante paradigmático nesse sentido. Juntou uma série de artistas que não eram reconhecidos nas galerias e não tinham o seu lugar na chamada cultura de elite”.

Quando lhe perguntamos se se sente underdog na cultura actual, Filipa Martins responde que não e explica: “Gosto deste tipo de coragem e acho interessante que eles tenham compreendido que através da criação de uma umbrella e da identificação de uma espécie de porta-voz, acho que o Vhils foi essa voz, chamavam a atenção e no fundo houve uma requalificação da ideia de arte urbana. Quando entrei naquele espaço, comecei a olhar para a nossa História e a verdade é que na cultura e na arte houve sempre underdogs e que normalmente têm a ver com estes inícios de movimentos que quebram as coisas que estão instituídas. A mim dizem-me que escrevo de uma forma pós-modernista, vá-se lá saber o que isso seja… Mas tenho consciência de que o meu tipo de escrita é uma mistura, se calhar com umas raízes de uma literatura poética, que é uma literatura portuguesa, com umas pinceladas mais anglo-saxónicas e isso cria um objecto literário que para muitas pessoas ainda é estranho”.

Filipa Martins na Underdogs Art Store

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