Um dia com… o escritor Luís Carmelo

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Reportagem escritores.online©

Numa tarde em que o sol foi intercalando com os pingos da chuva, fomos ao encontro do escritor Luís Carmelo na Praça Luís de Camões, em Lisboa.

A coincidência de nos depararmos com dois Luíses escritores na mesma praça, deixou de ser um mero acaso para parecer mais uma fatalidade. Não uma fatalidade no sentido da desgraça, mas no sentido de um destino inevitável, em que numa só praça se reúne uma imensidão de cultura dividida quase em duas partes iguais.

Uma das partes, que fez História, homenageada no bronze e na pedra, nas estátuas de Luís de Camões no topo de um pedestal rodeando por outros oito vultos das letras e das ciências portuguesas; a outra parte, na pele do escritor Luís Carmelo, em carne e osso, que conhece os meandros da escrita em vários géneros e que continua a fazer História na literatura portuguesa.

Luís Carmelo, com toda a sabedoria de quem já publicou mais de cinquenta livros e escreveu cerca de oitenta, tem a poesia como o “único eixo contínuo” do seu percurso, apesar de não a publicar com a assiduidade dos romances ou dos ensaios e a considerar “uma espécie de linha de ponta”.

“Se houve coisa que eu nunca abandonei foi a poesia. Enquanto o romance abandonei, quando tive de fazer a tese de doutoramento; ou o ensaio, quando tive de fazer outras coisas; a poesia é como as cidades, é paralela, só que nunca mais tive o ímpeto de publicar, porque para mim a poesia é uma espécie de linha de ponta”, conta o escritor já na “Mymosa” – com “y”, como os frequentadores com ligação à Abysmo, aos quais pertence, escrevem o nome do Restaurante Mimosa do Camões, que se situa na mesma rua, mesmo ali ao lado, e que é um local de encontros e conversas.

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Meandros da escrita

Luís Carmelo começou a escrever no início dos nos anos oitenta e publicou o seu primeiro livro de poesia Fio de Prumo em 1981 e o primeiro romance Entre o Eco do Espelho, em 86.

No percurso literário que tem traçado, além da pouca poesia que publicou da muita que escreveu, encontram-se inúmeros romances, ensaios, manuais, alguns dramas e até uma colectânea de contos. Sobre esta última, entre os golos de água que vai bebericando, confessa: “Até me arrependo de ter publicado isso. O conto é um género dificílimo e tenho demasiado respeito por ele… De facto, não é a minha praia”.

Luís Carmelo começou a escrever na Holanda, país onde se doutorou em Semiótica, porque ali encontrou “o vagar interior para criar uma arte que exige fôlego” e “essa espécie de culto dos interiores, quer físico, quer mental” que lhe permitiu sentar e escrever.

Na verdade, não precisa de locais ideais para escrever, apesar de o preferir fazer em casa. O silêncio e uma certa solidão bastam-lhe para dar largas à escrita.

Enquanto a televisão da Mymosa vai dando a conhecer os passos do Papa Francisco em Fátima, Luís Carmelo, alheio à santidade que nos visita, fala-nos da forma como vive a sua literatura: “Para iniciar um projecto tem de haver uma iminência… O ponto de partida é um conjunto de palavras, de sonoridades, de respiração que ali se junta. (…) É como fazer uma pinta num espaço em branco… O espaço em branco já não igual e a tendência é fazer uma segunda pinta, mas havendo a segunda pinta já há uma recta que não consegue estar quieta e tem que se propagar no espaço”.

As personagens e os temas também lhe nascem assim: “Escrevo uma frase e essa frase é como a tal pintinha no espaço branco, gera outra e a certa altura está o personagem, ou o pé do personagem, depois tem que aparecer a mão, aparece uma casa, uma situação, por exemplo, alguém que morreu e, pronto, já está tematizado”. E remata: “O meu ponto de partida já não é o tema há muito tempo. O ponto de partida é um sopro, é algo que eu fui levado a dizer”.

Geralmente tem três ou quatro livros em andamento que vai deixando em pousio e intercalando os trabalhos a que volta quando lhe apetece. Não os trabalha ao mesmo tempo, mas mantém-nos em paralelo, “prontos a entrar e sair em tempos diferentes”.

Nos mais de trinta anos de escrita, passou por três fases distintas, que categoriza apenas para simplificar a nossa compreensão.

Na primeira, que abarca cinco romances e que se situa entre os anos oitenta e final de noventa, até ao romance A Falha (que posteriormente adaptou como argumento para a longa metragem homónima de João Mário Grilo, de 2002), aos quais chama “romances de iniciação”, foi talvez a sua fase da procura e da descoberta, pois experimentou as coisas mais variadas.

O escritor explica que aqui fez experiências “ao nível da trama, da importância ou não da história, ao nível de tentar ser muito experimental ou muito clássico, de tentar perceber como se dominam os materiais”. Considera que, em suma, teve um conjunto de cinco romances em que andou à procura de uma expressão adequada para a sua ficção. E no fim, à procura de uma voz.

Na segunda fase, que se estende desde os finais dos anos noventa até 2007, quando sentiu que encontrou a tal voz, tentou exercitá-la “em direcções um pouco tradicionais no que diz respeito à história do romance”. O autor elucida: “Ganho uma voz e exercito essa voz, esse modelo e esse método dentro da tradição que eu reconheço como a tradição do romance”.

Sobre a terceira fase, que começou já nesta década, Luís Carmelo expõe: “É uma fase em que eu desmonto o conceito tradicional do romance, mantendo a legibilidade, mantendo a mão dada com o leitor (uma coisa que me aflige é um dia deixar de ter a mão dada ao leitor) e, no fundo, em que tento fazer da escrita um mundo em si. Não um mundo que reflecte outros mundos, não um mundo que tem a preocupação de reflectir o mundo em que vivemos, ou de o representar, mas um mundo que tenta criar os seus próprios cenários. É um romance em que deixa de haver uma geografia referencial, que se passa num espaço próprio e que deixa de ser escravo do tempo do vivido. Tem um tempo ciclópico que não se preocupa com a duração. O espaço e o tempo são remodelados exactamente porque o romance tenta criar um espaço e um tempo seus, um mundo que é o seu. Ou seja, passei a encarar a literatura mais como um jogo, mais lúdica, com menos sofrimento, com mais gozo até. É a fase em que estou agora e da qual a trilogia que publiquei recentemente talvez seja o melhor exemplo”.

A trilogia de que fala é a Trilogia de Sísifo que começa em Gnaisse, estende-se para Por Mão Própria e termina em Sísifo.

Segundo ao autor, Gnaisse é um romance sobre a paixão, Por Mão Própria sobre a perda e Sísifo sobre a relação entre a realização e a possibilidade: “O que há de comum nestes três livros é a voz que conta aquilo que se passa e que é, ao mesmo tempo, a voz que irradia dos personagens. Sísifo é o único dos três que tem um ponto de partida literário”, já que é inspirado no texto que Petrarca escreveu após subir a pé o Monte Ventoso, no qual faz um balanço da própria vida e demonstra um pensamento tanto moderno quanto medieval.

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Cidades imaginárias

Num mundo paralelo à literatura, Luís Carmelo desenha cidades inventadas, as tais cidades que nos contou que mantém num compartimento à parte, junto ao da poesia: “É como se eu tivesse um globo que inventei com continentes e com cidades. Não tem nenhuma relação com o real vivido. Eu podia dizer como os românticos diziam, baseado na Poiésis: É uma linguagem que se conta a si própria sem ter a preocupação em referenciar-se em nada”.

Lembra-se de estar em reuniões ou a preparar textos e ir fazendo quadradinhos que se juntavam e formavam praças e ruas. Depois passou para cartolinas e começou a fazer cidades intencionalmente. “Deixou de ser um acaso para algo que eu quis começar a fazer com uma certa dimensão plástica e imaginária. Passou a ser um mundo”, refere.

Convencido por João Paulo Cotrim, editor da Abysmo, chegou a fazer uma exposição com algumas destas cidades imaginárias, apesar do certo pudor que sentiu em mostrar os desenhos por os sentir como algo mais íntimo, até do que o seu mundo literário.

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Livros não publicados

Sobre os cerca de trinta livros que não publicou, o escritor justifica: “A razão de escrever não é editar, a causa primeira de escrever é dar forma à expressão interior. É irmos à procura de algo fora de nós que nos reflecte interiormente. A escrita começa muito antes de se pensar em publicar, quer na história colectiva, quer na história individual, toda a gente escreve. Editar é um factor social. Tem que se perceber se faz sentido ou não publicar. Pode haver textos muito bons, que tenham características tais, que não tenham necessidade de ser publicados. Sou contra aquela teoria segundo a qual um texto não existe se não for mostrado a outro, que é uma teoria literária que aparece várias vezes replicada. Um texto existe com o próprio ou com um núcleo pequeno sem precisar de ser editado”. E acrescenta: “Faz-me um bocado impressão aquela compulsão para editar”.

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A consagração do livro

No entanto, compreende que a ideia de livro remeta para a ideia de sagrado.

Referindo o seu ensaio Genealogias da Cultura que também reflecte acerca desta questão, argumenta: “Se olharmos para a cultura judaico-cristã percebemos que antes de existir o livro como objecto, há uma cultura do livro que se forma. Tem a ver com as revelações, com a criação da ideia do livro judaico que depois encarna nesse grande código que é a Bíblia. Percebe-se que na Idade Média havia uma diferença muito grande entre “o livro” e “os livros”. Lemos O Nome da Rosa e percebemos que o livro pertence aos iniciados, aos que o conseguem descodificar, e o resto é um bocado herético. No mundo moderno, quando a imaginação se liberta dos grandes códigos totalizantes que tentam explicar tudo, o livro generaliza-se e passa a fazer parte, a partir do Romantismo, da redenção do eu. E é dessa ideia que as pessoas hoje são muito escravas, numa sociedade em que, de algum modo, a superação do livro o torna ainda mais ligado a esta tradução do sagrado. Como pode tudo acontecer, haver aquele objecto livro é quase uma excepção a esta multitude digital hipnótica em que nós vivemos”.

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Do ensino académico para a escrita criativa

O escritor leccionou Semiótica ao longo de mais de vinte anos e, no final de 2007, decidiu criar a Escola de Escrita Criativa Online, hoje EC.ON – Escola de Escritas, que lhe dá felicidade por estar a fazer aquilo de que gosta e por ser livre e ter tempo para a sua própria escrita.

Teve o primeiro contacto com a noção de escrita criativa na Holanda, nos anos oitenta, através de um colega americano que trabalhava na área da creative writing.

Quando voltou a Portugal criou a cadeira de escrita criativa nos sítios por onde foi passando. Na Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), nos cursos de Ciências da Comunicação e no IADE, nas licenciaturas e nos mestrados em Design, porque acreditava que eram “laboratórios expressivos fundamentais para exercitar a tradução das ideias e da racionalidade e daquilo que, muitas vezes, é o inefável, traduzir o indizível, a poética”.

Rejeita a ideia, um pouco pejorativa, dos países do sul da Europa, em relação à escrita criativa e desmonta os dois grandes preconceitos que a sustentam: “O primeiro é que ninguém ensina ninguém a criar. Isso é óbvio! Quem ataca a noção de creative writing é por aqui que começa… Não há nenhum curso que ensine isso, como, na segunda questão, ninguém ensina ninguém a ser escritor. Também não há nenhum curso que ensine isso”.

Contrapõe esta maledicência, explicando: “Os laboratórios de escrita sempre foram, para mim, formas de exercitar a mente e as capacidades expressivas, inventivas… É evidente que não há um texto perfeito, absoluto, mas há técnicas e ferramentas que podem ser exercitadas para fornecer metodologias que potenciem a eficácia desse caminho. (…) A escrita não é apenas a escrita. É um móbil expressivo que faz com que a pessoa se aperceba de si própria fora de si. É sobretudo um modo de criar uma corrente de ar entre aquilo que é o nosso mundo interior e a sua tradução. Perturbamos a nossa corrente de ar normal, acomodada, entre aquilo que se processa dentro de nós e sua tradução para exterior. Não é só o caso da escrita, é o caso da relação entre o eu e o outro”. E é isso que acaba por fazer nos cursos que lecciona, intercalando funções de professor de expressão e de literatura, com as funções de um psicanalista. Acabou por criar uma área de cursos, o Auto- Conhecimento, que trabalha narrativas autobiográficas, por notar que era uma tendência que verificava em muitos formandos.

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Desenlace

Na fase de escrita em que se encontra Luís Carmelo, o leitor ganhou um papel mais activo, já que o autor faz questão de lhe dar espaço para actuar sobre aquilo que lê: “Descobri uma espécie de ingenuidade que me permite ter um domínio dos materiais que acho que é muito maior do que era dantes. Sou mais elíptico, do pequeno traço e de deixar um espaço muito aberto para quem lê, e de não o tentar fechar, e de não o tornar demasiadamente profuso e cheio de explicativos”, assume. “Quanto menos fechado estiver o desenlace, quanto mais ambíguo e enigmático for, melhor é, porque permite ao leitor interpretar as suas vias plurais”, conclui.

Quase a conversa terminada e prontos para seguir caminho em direcção à Cossul, local escolhido pelo escritor para visitarmos neste dia, onde iria ser inaugurada a livraria e onde se realizam regularmente lançamentos de livros, os pingos da chuva voltam a invadir as ruas de Lisboa e deixam o desenlace deste “Um dia com… o escritor Luís Carmelo” em aberto.

Com a visita ao segundo local adiada para um tempo que não sabemos precisar, também aqui, deixamos ao leitor o espaço necessário para que tenha o seu papel interventivo nesta acção. Também aqui, permitimos que o interprete com a liberdade que é intrínseca a quem lê.

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Um comentário

  1. Uf… Todo um mundo por descobrir.
    Não li nada deste senhor, Mas ao que me oferece dizer, por via desta entrevista, lá terei que o fazer.

    Obrigada pelo vosso trabalho de informação.

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