Um dia com… o escritor João Pedro Martins

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Reportagem escritores.online©

João Pedro Martins viveu em Povos até aos doze anos. Sente que foi ali que se começou a formar enquanto pessoa. A escrita apareceu-lhe cedo na vida, aos oito, nove anos. Começou por poemas que dedicava a alguém. Primeiro à mãe, que é quem hoje tem tudo aquilo que escreveu, pois o escritor não guarda aquilo que vai fazendo. Foi vocalista num conjunto musical por volta dos dez anos, de cujas letras era também o autor.

Na adolescência, teve uma grande paixão por Fernando Pessoa. Ouvia Vivaldi e Chopin, o que era estranho para a idade, mas isso nunca o fez sentir-se excluído na escola. Relacionava-se bem com toda a gente e os colegas até lhe encomendavam poemas. Era nos testes de Português que dava asas à imaginação, cuja parte da escrita mais livre retorcia, fugindo à matéria, mas excedendo-se em criatividade e conseguindo boas notas à disciplina.

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Senhor da Boa Morte e o encontro com o passado

Explorar caminhos e trilhos na infância e adolescência levou João Pedro Martins muitas vezes ao monte do Senhor da Boa Morte, em Povos. Lá do alto, vê-se o rio, a terra onde morava, a ponte Marechal Carmona, Vila Franca de Xira e a Lezíria. Lá do alto, todos os horizontes se fazem longínquos.

Agora já não é como há cerca de quarenta anos, em que só o rio dividia a paisagem urbana da rural. Hoje, são também as barreiras acústicas da auto-estrada que partem a paisagem em dois pedaços de beleza tão distintos. Mas o horizonte permanece visível ao longe, na linha que liga as terras lezírias ao céu, e a beleza mantém-se imensa, variada, quase oposta.

No Monte do Senhor da Boa Morte, local aonde o escritor vila-franquense levou o escritores.online, João Pedro Martins reencontrou um pouco do seu passado. Recordou o tempo em que fez os primeiros amigos; em que aprendeu a jogar à bola; em que palmilhava a região e a explorava em aventuras próprias daquela época em que se andava mais a pé e havia muito menos carros.

É um sítio onde gosta sempre de voltar, nem que seja só para ver a paisagem, apesar de o entristecer encontrá-lo desprezado, um pouco abandonado até. Sente que a riqueza cultural do local merecia que fosse mais acarinhado e aproveitado.

Durante a sua carreira de cerca de trinta anos como jornalista, o escritor passou pela imprensa escrita, pela rádio, pela televisão. Recebeu o Troféu Excelência 2014, em reconhecimento ao valor artístico, da Literarte – Associação de Escritores e Artistas, que fraternalmente congrega artistas de diversas vertentes e entidades culturais do Brasil e do Mundo e é Membro Honorário do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora.

A profissão de jornalista levou-o a Macau e a terras de África, onde recolheu vivências que vai transportando para os seus livros.

De regresso à sua terra natal, trouxe o coração cheio de experiências de outros lugares. Viveu alguns anos em Salvaterra de Magos, antes de se fixar em Vila Franca de Xira, o que lhe cortou com as rotinas de outros tempos nesta cidade.

Directa ou indirectamente, na sua escrita há sempre um pouco de África. N’ A Celebração do Rei Lagarto (2013), a passagem de uma personagem pela África do Sul é um marco importante; no livro Amor, meu Grande Amor (2012) a história poderia ter tido lugar no continente africano; no Céu Negro (2008), Moçambique tem um papel importante no enredo.

Hoje tem que se valer mais das memórias, já que a rotina diária não lhe dá tanto acesso a cheiros, imagens e sons variados para incluir nas histórias. “Com a minha ocupação sempre no mesmo local, não acontece com a mesma regularidade que acontecia quando estava na rádio. Havia muitas saídas para aqui ou para ali, até mesmo para o continente africano, onde ia muitas vezes pelo facto de estar na RDP África, e onde tive a oportunidade de escutar os sons, sentir os cheiros por onde fui passando, absorvendo-os… Hoje, ainda me posso fazer valer de algumas memórias daquilo que vivi e transpô-las para a escrita”.

A paixão pela música também se faz notar na escrita de João Pedro Martins. As Portas ou a Morte de um Mito (2003), o seu primeiro livro reescrito dez anos mais tarde sob o título A Celebração do Rei Lagarto, nasceu-lhe muito antes da data de publicação. Tinha perto de vinte anos e gerou-se a partir de uma fantasia em torno da morte de Jim Morrison, vocalista da banda The Doors. A história saiu-lhe de uma forma quase primária, o que mais tarde se revelou na necessidade de o reescrever de uma maneira mais elaborada, que fizesse mais sentido, n’ A Celebração do Rei Lagarto. Chegou a desejar que o primeiro livro As Portas ou a Morte de um Mito desaparecesse, mas muitos anos depois de ser publicado, houve quem lhe aparecesse com um exemplar para o autografar e também o encontrou traduzido para inglês na Internet.

Há romance e poesia nos livros que escreve. Sobre a poesia editada em Pedras Soltas (2014), avisa os leitores: “Para que os entendidos e bem talhados para este género de escrita não sintam estas “Pedras Soltas” como verdadeiras e cruéis pedradas na arte de poetizar, ouso e acho por bem avisar que o que por aqui se pode ler não é mais do que uma forma de me expressar, pura e simples, sem arranjos nem claves de sol, apenas porque me apeteceu e assim foram saindo para o papel tais emoções e sentimentos, sem me preocupar minimamente com a métrica poética e as rimas correctas, pois não sendo este o meu campo não seria possível fazê-lo adequadamente”.

Na apresentação deste seu último livro, o poema “Voar” de Pedras Soltas foi musicado e interpretado pelo músico santomense Tonecas Prazeres. Mais tarde, o músico inclui-o no seu disco, onde o interpretou juntamente com Luís Represas.

Há também o Portugal recôndito, como por exemplo, numa aldeia da Beira Baixa em A Promessa (2010). Os usos e costumes que caracterizam as gentes de um Portugal mais rural são ali tão visíveis que chegaram a dizer-lhe que conheciam as personagens da história totalmente inventadas por si.

As personagens vêm-lhe geralmente de uma mistura de várias pessoas reais. Outras nem tanto. Podem apenas ser uma figura que cria a partir de uma pessoa conhecida, cujo perfil molda como lhe apetece. Sorri de agrado, quando diz: “Ser escritor tem esta coisa fantástica e mágica de podermos criar a pessoa que gostaríamos de conhecer ou até a que gostaríamos de ser… Incluindo criar uma pessoa abominável”.

Até ao momento são sete livros editados e a convivência com a permanente “escrita avulsa” das ideias que lhe fervilham no espírito a toda a hora, que detém no papel ou no telemóvel nos intervalos que a actual actividade profissional permite. Guarda-as para mais tarde as passar para o computador que vai enchendo de ficheiros Word que depois irá trabalhar. Tem pena de não ter mais tempo para escrever, mas alimenta a esperança de um dia se conseguir dedicar mais à escrita.

É de uma forma natural que lhe costumam surgir as ideias para os livros. Uma conversa que ouviu, uma frase, uma notícia, ou um acontecimento podem ser o ponto de partida para um enredo. “Sinceramente foram raras as vezes em que tentei criar alguma coisa que me levasse a escrever. As coisas acontecem com muita naturalidade, normalmente sem planear. Quase todas as histórias têm um fundo real ou, pelo menos, partem daí. Depois tudo à volta pode ser fantasia, e geralmente é. (…) Eu não consigo dissociar aquilo que vivo daquilo que escrevo”.

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Contar a Lezíria

Escreve várias histórias ao mesmo tempo, mas a que tem em mãos presentemente, a que se tem dedicado mais, mas que está ainda numa fase inicial, além de África, terá a Lezíria e Macau dentro. Por isso, e talvez por Macau ser pouco acessível, escolheu esta mesma Lezíria como o segundo local a visitar neste dia de céu meio encoberto em que se encontrou com o escritores.online.

Quando parte para uma história, começa por escolher um título e só depois se dedica ao enredo: “Normalmente escolho o título quando começo a escrever. Não sei porquê… Ou então, quando estou naquela fase em que estou a pensar no que é que vou fazer, ainda na fase de pesquisa, surge-me ali uma ideia para título que às vezes se mantém até ao final. Tem sido quase sempre assim”. O que possivelmente será o seu próximo livro já tem um título provisório: “Regresso à Lezíria”. Não será um romance, mas talvez um conto alargado.

João Pedro Martins, devido a ter trabalhado muitos anos na rádio e de se ter habituado a viver rodeado de música, bem como o facto de ter três filhos, aprendeu a viver com algum barulho. “Não se pode mandar toda a gente embora de casa ou então sair para ir para a beira-mar sozinho, como eu até gostava de fazer, e passar lá uns meses a escrever sem barulho”. A capacidade de se concentrar sem silêncio absoluto, permite-lhe escrever sem ter as condições ideais. Estar isolado parece-lhe ser o mais importante, mas não é condição essencial.

No processo de escrita, todos os livros que leu lhe são importantes, sem que tenha uma “bíblia onde vá beber” sempre que precisa de inspiração. “Há métodos de escrita de alguns escritores que eu gosto de seguir. De uma forma natural até, não o faço de propósito… Nesse aspecto, sou muito queirosiano… Nunca me passou pela cabeça ser um Saramago ou um seu discípulo. Na metodologia, na forma de escrita, não nas histórias em si… E gosto muito da língua portuguesa tal como a aprendi e tento preservá-la. Seguindo os conselhos de José Eduardo Agualusa, de quem sou bastante amigo há muitos anos, que também mantém esse perfil, e que um dia me disse: «Queiroz até morrer!». E ainda bem”.

http://escritores.online/escritor/joao-pedro-martins

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