Tinta da China: Uma editora independente em Portugal e além-mar

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Reportagem escritores.online©

O sótão da casa de Bárbara Bulhosa foi a “sala de partos” da Edições Tinta da China, pois foi ali que nasceu e foi trabalhado, durante um ano, o projecto idealizado pela editora.

Em 2004, Bárbara Bulhosa, acabada de sair da Bulhosa Livreiros, onde era responsável pelas importações e pelos recursos humanos, queria continuar a trabalhar com livros. Primeiro, pensou numa livraria, só depois veio a optar por uma editora.

Bárbara Bulhosa

Fez uma pós-graduação em Técnicas Editoriais na Faculdade de Letras já a pensar num projecto do género. Convidou Inês, ex-colega de faculdade, que era excelente a Português e tinha estado a coordenar as edições dos livros escolares da Texto Editora, a juntar-se-lhe neste desafio de criar um projecto de raiz. Inês Hugon aceitou e resolveram juntar os subsídios de desemprego, que utilizaram através do apoio do Estado de incentivo à criação do próprio emprego, para fundar uma editora.

Com o projecto aprovado, compraram o material necessário para a nova actividade e, em Novembro de 2005, a Edições Tinta da China nasce com a sua primeira publicação, O Pequeno Livro do Grande Terramoto, de Rui Tavares.

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Marca Amarela, Preto no Branco, Tinta da China

A Tinta da China poderia ter sido uma marca amarela ou preto no branco… Mas não foi. A terceira opção para o nome da editora, sugerida por Jaime Bulhosa, ex-marido de Bárbara, foi a que efectivamente vingou.

“Marca Amarela”, o primeiro nome que surgiu, foi inspirado na marca amarela dos livros de Blake & Mortimer. “Preto no Branco” seguiu-se-lhe pela ideia da impressão. Estes nomes acabaram por ser postos de lado por já existirem empresas de entretenimento com designações idênticas.

Tinta da China ficou, porque Bárbara Bulhosa achou que não valia a pena pensar em mais nomes e por acreditar que as marcas são as empresas que as fazem.

“Claro que depois de o nome ficar, tem muito a ver com aquilo que fazemos e já tínhamos razões para o escolher. A tinta-da-china não sai, era utilizada antigamente e é utilizada hoje, há técnicas que a imitam… No fundo, isso também está relacionado com o nosso conceito de livro, que é um objecto muito cuidado. Investimos muito nos materiais e no design. Quem olha para um livro da Tinta da China consegue ter reminiscências do passado, sabendo que o livro é novo. Portanto, Tinta da China faz sentido dentro deste conceito”, explica a editora.

As capas dos livros da Tinta da China são já um factor de distinção da editora e que se destacam quando expostas nas livrarias.

“A Vera Tavares, que faz as capas, lê os livros todos. É muito diferente ela decidir uma capa pelo meu briefing ou por ter lido o livro. Quando nos propõe uma capa, encontra sempre coisas que às vezes até nem tínhamos notado… O olhar dela enquanto criadora e artista é fundamental. Isso tem a ver com trabalho e com exigência nossa…”, faz notar a editora.

A revisão e a tradução são factores de qualidade que a Tinta da China não descura. Segundo a editora, são feitas mais revisões aos textos do que as que normalmente se costumam fazer, para as quais têm um olho muito clínico e assegura: “A nossa exigência vai desde o início, desde que estamos a trabalhar o manuscrito, até à promoção do livro”.

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Quase doze anos de independência

O valor da independência é muito estimado na editora.

Segundo Bárbara Bulhosa, essa independência tem sido conseguida pelo trabalho e empenho de quem aqui trabalha: “Essencialmente o que distingue a Tinta da China são as pessoas que aqui trabalham. É isso que faz com que nós consigamos estar, há praticamente doze anos, independentes, sem estarmos endividados e sem um sócio capitalista. E isso tem a ver com o facto de nenhum de nós querer perder a qualidade de vida que tem aqui dentro, o bom ambiente de trabalho, a confiança que temos uns nos outros e também a ambição de cada um querer fazer mais e melhor”, acrescentando que esse é também um preço muito pessoal, porque não se consegue manter uma empresa como esta “sem uma dedicação absolutamente obsessiva”.

Quanto à independência no mercado, refere: “Francamente acho que o mercado já esteve pior… Acho que estão a surgir mais grupos, mais editoras independentes, mais editoras marginais. Está a haver mais variedade e risco. A qualidade média das edições melhorou muito nos últimos dez anos e a Tinta da China não se pode queixar de ser independente. É até uma vantagem que temos neste momento. Há dois grupos grandes e depois há um espaço que eles abrem… Se se mantiver um projecto com qualidade, consistente, com vendas, com leitores, ele vai conseguir ocupar esse espaço de uma forma mais eficaz do que se fossemos cinquenta editoras grandes. Assim, dá para nos distinguirmos”.

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Livros e autores

Os livros de crónicas de Ricardo Araújo Pereira estão no top de vendas da Tinta da China

 

Os livros de crónicas de Ricardo Araújo Pereira (RAP) são o top de vendas da Tinta da China, tendo a Boca do Inferno a encabeçá-lo com 65 mil exemplares vendidos.

O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, que também tem tido uma boa aceitação por parte dos leitores, vem logo a seguir aos livros do RAP e já vendeu cerca de 20 mil exemplares. Depois, lado a lado, seguem-se-lhes Diamantes de Sangue, de Rafael Marques e A Pequena História do Mundo, de E.H. Gombrich.

A Tinta da China tem apostado na edição de vários géneros literários. A colecção Ficção de Língua Portuguesa comporta obras – além dos romances de Dulce Maria Cardoso – de Alexandra Lucas Coelho, Paulo Varela Gomes ou Mário de Carvalho; na colecção Literatura de Viagens podem encontrar-se obras de Jan Morris, Mark Twain, Henry Miller, Annemarie Schwarzenbach, Agatha Christie, Eduardo Pitta ou de Alexandra Lucas Coelho; na Literatura de Humor, Charles Dickens, Ivan Gontcharov e Denis Diderot são alguns dos autores; a Colecção Poesia, que é coordenada por Pedro Mexia, também publicado na Tinta da China, reúne obras como Joquéi, de Matilde Campilho, Exemplos, de João Vário, ou Cinza, de Rosa Araújo, entre outros.

Há também a Colecção Pessoa, a Colecção Sá-Carneiro e a Colecção Cantos Redondos, entre outras colecções que abarcam livros de autores portugueses e estrangeiros. Esta última junta obras de não-ficção.

Sobre a escolha dos livros a publicar, Bárbara Bulhosa expõe: “Quando nós aceitamos um livro, no caso sou eu que escolho os livros que são publicados na editora, a primeira coisa que penso é como vou comunicar esse livro. Eu só aceito um projecto e só o trabalho se eu tiver uma chave para o comunicar, porque se só achar que é um livro muito bom, mas que eu não vou conseguir que ele chegue aos seus leitores, não o publico”.

A qualidade do texto, ou perceber que é possível trabalhá-lo, bem como a originalidade de uma ideia são factores que contam muito no momento de aceitar publicar um livro: “Acho que é importante determinado tipo de ideias serem divulgadas. Se estiver a falar de ficção, têm que ser romances que, de alguma forma, nos abalem, ou seja, não me interessa muito publicar por publicar ou publicar coisas mornas, tem que haver ali ou uma originalidade ou uma ideia. Quando estou a ler o livro, tenho que me sentir emocionada ou confrontada ou achar mesmo que, para além de mim, pelo menos mil pessoas vão querer ler esse livro. Não é o meu gosto pessoal, não é gosto dos meus amigos. Não! É achar que faz sentido estar a abater árvores para publicar aquele livro!”.

A editora admite que há casos em que publica textos essencialmente pela sua pertinência política ou social. O livro do angolano Rafael Marques Diamantes de Sangue, que lhe valeu um processo apenas pelo facto de o publicar, foi um desses casos em que a editora sentiu que era necessário dar a conhecer aquela história em que os direitos humanos são tão violados. “É uma investigação rigorosíssima. Não publicar é que acho que seria uma grande irresponsabilidade”, afirma.

O diário de Luaty Beirão Sou Eu Mais Livre, Então – Diário de um preso político angolano foi outro desses casos, embora diferente do livro de Rafael Marques, por ser escrito na primeira pessoa e relatar a sua experiência enquanto preso político. “Eu propus ao Luaty que me desse o diário dele, porque acho que é muito importante nós termos o relato do que é ser preso político em 2015 numa democracia. Pelo menos num país reconhecido como uma democracia pelos outros países, que é aquilo que me interessa, em termos de mundo global”, conta a editora.

Os temas da actualidade, que toquem em pontos que afectam a sociedade, são considerados por Bárbara Bulhosa. Recentemente, a Tinta da China publicou O Lugar Escuro – Uma história de senilidade e loucura, de Heloisa Seixas, sobre a doença de Alzheimer que atingiu a mãe. Brevemente serão publicados outros dois livros que respeitam esses critérios, tanto o da actualidade como o de questões sociais. Um será sobre a vida das mulheres na prisão, o outro, sobre a violação e a sua história ao longo dos tempos.

Também o Condor – O plano secreto das ditaduras sul-americanas, de João Pina – cuja exposição dos trabalhos do fotógrafo da Operação Condor, está patente no Torreão Poente da Praça do Comércio, em Lisboa, até 18 de Julho – é considerado, por Bárbara Bulhosa, um livro político e de interesse público, apesar de ser igualmente um livro de arte.

Este livro de João Pina é “um tributo à memória das vítimas da Operação Condor, plano militar secreto instituído em 1975 por seis países latino-americanos, governados por ditaduras militares de extrema-direita, para eliminar a oposição política. Esta operação resultou na morte de cerca de 60 mil pessoas”. Neste livro, João Pina documentou o que restou da época do Condor na Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai.

Fotografia e banda desenhada nas Edições Tinta da China

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Tinta da China Brasil

Em 2012, a Tinta da China viajou para o Brasil e por lá foi crescendo.

Neste país, a falta de livros de autores portugueses editados em português de Portugal, bem como, em Portugal, a falta de livros de autores brasileiros, editados na língua original, sem adaptações, revelou-se um campo em que a Tinta da China podia trabalhar.

“Publiquei a Dulce Maria Cardoso, a Alexandra Lucas Coelho, o Ricardo Araújo Pereira. Depois o João Pina, o Daniel Blaufuks, o Pedro Rosa Mendes, mas no ano passado comecei a publicar grandes escritores portugueses, porque percebi que não existiam aí”, informa a editora.

Antero de Quental, Herberto Hélder, Eduardo Lourenço e Agustina Bessa-Luís são autores que chegaram às livrarias brasileiras com a marca de Tinta da China. Fernando Pessoa e Rafael Bordalo Pinheiro também foram ali publicados.

Da aventura em terras de Vera Cruz, Bárbara Bulhosa resume: “Neste momento, estamos destacados nas montras, os Poemas Completos do Herberto Hélder (que estava indisponível no Brasil e, portanto sou eu que estou a publicar tudo) foi considerado o melhor livro do ano, entre dez, pelo Jornal O Globo e pela Folha de S. Paulo”.

Este ano, Luaty Beirão marcará presença na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), onde já em 2016, Ricardo Araújo Pereira havia conquistado os leitores brasileiros com uma Mixódia de Temáticas e o lançamento do livro A doença, o sofrimento e a morte entram num bar editado pela Tinta da China Brasil.

Flip 2016 – “Mixórdia de temáticas”, com Ricardo Araújo Pereira e Tati Bernardi. Ouvir na íntegra aqui: https://www.youtube.com/watch?v=NnuKskPQgdc

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A intenção da Tinta da China é continuar a trazer autores brasileiros para Portugal, “sem mexer numa linha” em termos de adaptações e levar autores portugueses para o Brasil da mesma forma. O fascínio pela língua nas suas várias vertentes e a possibilidade de disponibilizar aos leitores as obras de escritores de expressão portuguesa na sua forma de escrita original e sem alterar a essência destas com adaptações é um caminho que a Tinta da China tem trilhado e que pretende continuar a trilhar. “Isso faz com que haja uma maior aproximação”, afirma a editora.

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Revista Granta

A revista Granta vai no nono número

 

A revista semestral Granta, dirigida por Carlos Vaz Marques, é um projecto que a Tinta da China agarrou, apesar dos riscos que se apresentavam em 2013 (data em que foi lançado o primeiro número), por se tratar de uma revista literária.

Hoje é considerado, por Bárbara Bulhosa, um projecto vencedor: “Temos uma revista em que publicamos todo o tipo de autores. Vários já foram traduzidos e publicados na revista inglesa e o Valério (Romão) já foi publicado na revista sueca. (…) A tiragem da Granta são cinco mil exemplares. Claro que o primeiro número vendou mais, vendeu uns 8 mil. Só assinantes, que se têm mantido, temos mais de mil. Fora isso, em cada número, costumamos vender à volta dos cinco mil exemplares. Umas vezes mais, outras menos. Isto é óbvio que justifica o projecto, quer dizer que a revista é lida e que as pessoas gostam”.

A editora conta: “Quando comecei com a Granta, primeiro, só avancei para este projecto porque o Carlos Vaz Marques me disse que aceitava dirigir a revista, senão seria impossível; depois, quando negociei os primeiros direitos da Granta, falei com a “Granta- mãe” e disse que íamos fazer uma tiragem de mil e quinhentos exemplares e só iria assinar o contrato por quatro números, porque tinha muito medo…. E foi incrível, porque começámos a reeditar… De repente tinha os ingleses a dizerem-me que era a Granta com mais sucesso no mundo, para além da inglesa, claro, que tem tiragens de 17 mil. Tornou-se, de facto, um fenómeno e não foi um fenómeno efémero. Passados quatro anos de termos a revista, acho que é um projecto consistente”.

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Site: www.tintadachina.pt

Página de Facebook Edições Tinta-da-China

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Um comentário

  1. Juliana Ribeiro
    | Responder

    Um grande exemplo de editora, de modelo de negócio e de talento, que enriquecem o mercado editorial mundial. A matéria conta de forma encantadora a cronologia de um sucesso plantado e cultivado com muita coragem, capricho, ousadia e bom gosto. Bárbara Bulhosa e Inês Hugon são artistas, e cercam-se de seus pares porque não poderiam fazer diferente. Nasceram para criarem casas para tantas palavras, acalentadas entre as belas capas de seus livros cuidadosamente lapidados para os leitores igualmente ousados e preparados para aceitarem seus desafios de avanço intelectual, humano, e espiritual, para aqueles que enxergam além dos textos e entram também no campo das sensações. Acho que dizer mais poder ‘denunciar” o quanto gosto da missão desta equipe….será que fui clara? Só sei que seu efeito é definitivo, por onde passam! Parabéns!

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