Poética Edições: Poesia e não só

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Reportagem escritores.online©

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A Poética Edições desceu ao sul, à Livraria Ferin, em Lisboa, para apresentar o último livro de Graça Pires, Fui Quase Todas as Mulheres de Modigliani. Com a Poética, e em sua representação, veio Virgínia do Carmo, sua fundadora e cara que quase se confunde com a da Poética Edições.

O escritores.online foi ao encontro de Virgínia do Carmo para conhecer melhor a editora de Braga. Numa entrevista que se intercalou com a apresentação do livro de Graça Pires, Virgínia do Carmo levantou o véu sobre a editora que é fruto da sua paixão pela poesia.

Virgínia do Carmo, Graça Pires e Catarina Nunes de Almeida
Livraria Ferin

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Informa: “Começou por ser uma editora especializada em poesia, mas hoje temos mais coisas. Às vezes, dizem-me que não posso publicar só poesia, mas, por favor, não me digam que não posso publicar poesia, porque, na verdade, embora tenhamos outras publicações, esta nossa colecção é o carisma da Poética”.

Hoje, ao fim dos quatro anos de existência, a Poética Edições tem já um catálogo composto por autores com vastos e nobres currículos literários e uma variedade de livros maioritariamente de poesia, é certo, mas que abrange o ensaio, o romance, a literatura infanto-juvenil, o teatro.

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Sensibilidade e bom senso

Virgínia do Carmo sempre teve o sonho de vir a ter uma editora.

Formada em Jornalismo, a autora e ex-livreira fundou a Poética Edições, essencialmente, com o coração. A amante de poesia, cujos poetas preferidos são Miguel Torga, A. M. Pires Cabral, Fernando Pessoa, Herberto Hélder, Al Berto e Sophia de Mello Breyner Andersen, entre tantos outros, um dia decidiu embarcar na área da edição.

Já com um vasto conhecimento na venda de livros, mas cansada de lutar pela sobrevivência das duas livrarias que possuiu em Macedo de Cavaleiros, num nordeste transmontano que, para sua tristeza, se foi desertificando cada vez mais pela centralização dos serviços e pela falta de emprego, Virgínia do Carmo informou-se sobre edição e estudou revisão de texto, juntando-lhes uma boa dose de sensibilidade e bom senso para fundar a Poética Edições.

Durante cerca de um ano, dividiu funções entre a sua segunda livraria generalista, a Poética, e a editora que foi ganhando forma. E em Junho de 2013 a Poética Edições vê a luz do dia com a publicação do seu primeiro livro Erros de Cálculo ou Outra Coisa Qualquer, de Miguel Pires Cabral.

“A partir do momento em que percebi que podia fazer isto aos bocadinhos sem investir muito dinheiro, decidi que iria em frente. Na altura, falei com o Miguel (Pires Cabral) que me disse: “Se quiseres edito um livro contigo!”. Ele já tinha editado um livro antes em edição de autor, portanto foi também a estreia dele com uma editora. (Costumo dizer que vou editar sempre todos os livros que ele queira, porque foi o primeiro a acreditar em mim e na Poética e isso é muito importante para mim.) E, assim de repente, tomei a decisão de fazer um livro”, lembra.

No início, a recém-editora foi descobrindo alguns dos autores que viriam a ser editados na Poética através da blogosfera. Gostava do que escreviam e achava que deviam ter o seu lugar no mercado editorial. Foi o caso de Graça Pires que, em 1988, já havia recebido o Prémio Revelação Poesia APE e que Virgínia veio a descobrir através do blogue Ortografia do Olhar.

Hoje, Virgínia do Carmo já não tem tempo para estar ligada à blogosfera, mas assinala este marco como um dos importantes na sua vida e na da Poética.

De facto, a sensibilidade e o bom senso, bem como a convicção de Virgínia de que havia muitos autores que deviam ser publicados e que ainda não o haviam sido, talvez sejam as características que melhor definem a Poética Edições. A editora conta: “Eu parti para a aventura com o meu bom senso, com o meu conhecimento dos livros mais como leitora e como livreira, com o meu espírito crítico para seleccionar aquilo que devia editar ou não e, com toda a humildade, reconheço que as minhas aptidões ao nível da edição não eram muitas. Sempre tive consciência disso. Sempre tive noção do meu lugar, do meu papel, do que podia ou não fazer. Foi um passo pequenino, foi o primeiro passo e correu bem. E depois desse, vieram os outros”. E acrescenta: “Nunca pensei que fosse tão rápido”.

Depois do livro de Miguel Pires Cabral, a Poética editou obras de Rosário Ferreira Alves e Rui Miguel Fragas e foi crescendo progressivamente através da introdução de novos autores no seu catálogo. Dos autores que hoje têm obras publicadas pela Poética, destacam-se Luís Filipe Sarmento, Mário Contumélias, Manuel Veiga, Gisela Gracias Ramos Rosa ou Eufrázio Filipe.

Virgínia do Carmo gosta de usar a palavra “família” para descrever a editora, apesar de haver quem a estranhe: “Eu costumo dizer “Bem-vindo à família Poética!”, porque, de facto, é quase como uma família. Há muita amizade e muita cumplicidade. E cresceu de uma maneira muito bonita”, afirma.

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Poesia por si só

A colecção de poesia da Poética Edições tem um rosto limpo. As capas resumem-se a um fundo colorido, ao nome do autor, título e género literário. Não há ilustrações, não há fotografias na capa, não há biografia do autor nem o seu retrato. Há poesia. Só.

Virgínia do Carmo confirma que esta foi uma opção consciente e propositada. Justifica: “Eu olho para a poesia como um género literário muito nu, que vale por si só. Um poema tem de valer, independentemente de quem o escreveu. Um poema é aquilo, é uma coisa nua, não tem rosto, não tem ninguém por trás… Eu quis que estes livros fossem isso: despidos, despojados, para que cada livro valha por si. É propositado, porque não pode ser isso a vender o livro, é a poesia que tem de convencer o leitor. Não a fotografia da pessoa que o escreveu; não o que está escrito sobre ela; não o que ela já fez ou escreveu anteriormente. Têm de ser os poemas a convencer o leitor”.

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Mercado desequilibrado

A editora reconhece que a poesia se vende essencialmente nos lançamentos e nas apresentações de livros e menos nas livrarias. Assegura: “Cada poeta vai deixando a sua semente, ainda que possa parecer pequenina… Mas não é pequenina, é imensa! A poesia está carregada de humanidade e de emoção e se nós conseguirmos tocar uma pessoa que seja, acho que já valeu a pena. Não é um trabalho inglório, é sempre gratificante”.

Sobre a poesia, aprofunda: “É um género literário que mexe muito com as emoções e com a afectividade, aliás o mundo da poesia move-se muito pelos afectos”.

Tal como a poesia, também Virgínia do Carmo demonstra muita humanidade e emoção, quando se aflige com as editoras que exploram os autores para enriquecerem. Condena que se aproveitem da ingenuidade dos poetas e os façam pagar para publicarem os seus livros, convencendo-os de que os seus textos têm qualidade suficiente para serem editados e afirma: “Isso não se faz, não é ético, não é moral, não está correcto! Aliás, eu não criei uma editora antes, e pensei que ia fazê-lo muito tarde, porque sempre disse que um autor meu nunca ia pagar para editar. Jamais!”.

Para não cair no erro de editar livros sem as qualidades que exige como mínimas e porque acredita que todos os textos têm o seu lugar: uns para serem editados e entrarem no circuito comercial e outros para publicações privadas, para o próprio autor e para o seu círculo familiar e de amigos, acaba por rejeitar muitos manuscritos que lhe enviam. Diz que, desde que criou a editora, tem a preocupação de fazer uma escolha criteriosa dos manuscritos, só editando aquilo que lhe parece realmente bom.

Virgínia do Carmo não olha só para o facto de o livro ser capaz de acrescentar algo de novo a quem o lê, mas também se está bem escrito – critério que lhe parece um pouco em desuso no mercado, pois já encontrou livros até com algumas incorrecções linguísticas. Considera: “Há a forma e o conteúdo e ambos são importantes. A Poética tenta evitar a futilidade. Tanto no romance como na poesia o que é bom é aquilo que surpreende”.

Relativamente ao mercado editorial, a fundadora da Poética adianta: “O nosso mercado editorial está poluído de poesia que não surpreende, que não é nova, que é cheia de lugares comuns, que, sinceramente, é cansativa e que, a meu ver, acaba por não ser poesia. E, no entanto, essa poesia tem leitores. Acho que isso perturba um bocadinho o bom funcionamento do circuito comercial da boa poesia, que está sobrecarregado com coisas que, se calhar, não deviam estar ali e podiam estar noutro sítio”.

Mas se a publicação de alguma poesia lhe desagrada por ser excessiva, também a não publicação de outra poesia a desgosta por ser escassa. “Sim, há livros a mais e há muitos que deviam ser publicados e não são. Há um desequilíbrio”, conclui Virgínia do Carmo.

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Produção Independente

A Poética Edições conta com um serviço que presta a quem pretenda fazer edições pequenas e de autor de uma forma independente. Aqui, a editora apenas tem a função de produzir o livro e não tem responsabilidades sobre ele. Virgínia do Carmo explica que a partir do momento em que o livro está feito, ele é do autor e é este quem toma conta dele. No entanto, esclarece: “Na verdade, não tenho feito muitos, porque quem me aborda quer é a chancela da Poética, não quer fazer um livro pela Produção Independente”.

Além de ter o serviço de Produção Independente, a Poética publicou duas Agendas Poéticas Intemporais. Uma ilustrada por Iolanda Pereira e outra com fotografias de Luís Coelho. Ambas contêm doze poemas de vários autores e, como são intemporais, adaptam-se a qualquer ano civil e são eternas. Tal como a poesia.

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Site: http://poetica-livros.com/loja

Blogue: http://poeticaedicoes.blogspot.pt

Página de Facebook Poética Edições

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4 Comentários

  1. Célia M Cavaco
    | Responder

    O prazer de ter assistido a este lançamento “,Fui quase todas as mulheres de Modigliani”
    O prazer de ter usufruído da boa poesia e de estar entre amigos.

  2. quanto me agrada saber deste evento.
    Poesia de Torga, Sophia, Pessoa, que encantos tantos.

    Obrigada

  3. quanto me agrada saber deste evento.
    Poesia de Torga, Sophia, Pessoa, que encantos tantos.

    Obrigada

  4. Vanda figueira
    | Responder

    Parece-me este um projeto muito interessante. enquanto adepta de poesia, que adoro escrever, irei continuar a
    acompanha-lo.
    Vanda

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