Pó dos Livros: A livraria de bairro

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Reportagem escritores.online©

Num país como Portugal, em que as grandes superfícies foram ganhando espaço no panorama do comércio livreiro, ainda há livrarias que prestam um serviço personalizado em que o cliente é atendido e aconselhado por livreiros experientes que, para além dos anos de experiência na área, têm um vasto conhecimento literário para poderem melhor servir os gostos de quem atendem. É o caso da Pó dos Livros, uma livraria de bairro, independente e alternativa, em que os livreiros não são apenas vendedores de livros, mas especialistas na arte de ler.

Aquele livro

No número 58-A da Avenida de Duque d’Ávila, em Lisboa, a Pó dos Livros não é um grão de poeira em plena avenida, mas um lugar onde se encontra aquele livro que se procura há anos, um da edição especial que tem aquele pormenor que a faz única, aquela obra cuja dedicatória ou autógrafo a distingue de todas as outras, o tal livro que se quer muito ler.

Jaime Bulhosa e Isabel Nogueira são os sócios-gerentes desta livraria de bairro que prima pela diferença das grandes superfícies. O escritores.online falou com Jaime Bulhosa para tentar conhecer melhor a Pó dos Livros que nasceu há dez anos e que vende livros novos, usados e antigos e cuja decoração vintage reporta para a origem das coisas, dos livros e da cultura literária sem, porém, parecer desactualizada.

Se, por vezes, é difícil encontrar um clássico ou um livro de uma pequena editora, a Pó dos Livros aposta numa oferta variada e não olha só ao lucro e à venda imediata, mas à permanência das obras que passaram pelo crivo do tempo e que ficaram pela sua qualidade e importância literária. Por isso, encontrar o livro que o cliente procura é uma missão que aqui se leva a sério.

“Uma das mais-valias da Pó dos Livros é que nós fazemos aquele trabalho que mais ninguém quer fazer, porque dá muito trabalho e pouco dinheiro, que é tentar encontrar aquele livro que pode custar cinco euros”, explica Jaime Bulhosa. E conta: “Não sei qual foi o livro mais difícil de encontrar, mas de vez em quando ligamos a um cliente, passados três anos, e dizemos “Encontrámos o seu livro!”. Encontrar o livro raro, às vezes, é uma questão de sorte. Quando um cliente nos pede um livro que é raro, nós dizemos que vamos tentar arranjar, mas que não sabemos quanto tempo vai demorar”.

Conforme o livreiro explica, os livros raros nem sempre são os mais antigos, mas aqueles cuja peculiaridade os torna únicos. “Por exemplo, uma vez um cliente pediu-me a primeira edição do livro Poesias Completas, de Machado de Assis, que tem uma gralha (a palavra “cegara” ficou “cagara”) e o Machado de Assis, quando soube disso, não quis ficar com o livro assim, então a gralha foi corrigida à mão e a edição retirada do mercado. Portanto, este livro tornou-se raríssimo. É este livro que as pessoas querem, é este com o erro e corrigido à mão. O livro tornou-se valioso pela gralha e é extremamente difícil de arranjar, quase impossível… E é isso que é engraçado nos livros raros. As pessoas pensam que é a antiguidade que dá valor aos livros, não, de todo não é, às vezes são as pequenas coisas, uma dedicatória, um erro, uma encadernação de um livreiro antigo… Isso é que torna o livro valioso. Claro que quanto menos edição, mais raro é, mas o que torna o livro realmente especial são as coisas especiais”.

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“Os livros com pó são os livros que resistiram ao tempo…”

O nome “Pó dos Livros” espelha esta livraria que valoriza os livros que permanecem e que não desaparecem com o passar do tempo.

Jaime Bulhosa, quando estava a ler A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, lembrou-se de uma conversa da sua infância com o seu pai, em que este lhe justificou o facto de comprar muitos livros velhos e com pó com a frase “os livros com pó são os livros que resistiram ao tempo, por isso os considero importantes” e achou que “Pó dos Livros” seria o nome ideal para a sua livraria que também valoriza a permanência das obras literárias.

O livreiro – que tem um longo percurso profissional ligado aos livros, pois vem de uma família de editores e livreiros, já passou por casas como a Bertrand e a Valentim de Carvalho, foi um dos fundadores da Bulhosa Livreiros e esteve ligado à criação da editora Tinta-da-China –  em 2007 sentiu a necessidade de criar uma livraria independente que não estivesse ligada aos grandes grupos e que fosse uma alternativa às grandes cadeias. Foi essencialmente o gosto que o levou a embarcar neste negócio que cada vez tem mais concorrência, pois além de outras distracções como a televisão, as pessoas também têm hoje o mundo digital fortemente dentro das suas vidas.

Apesar de o mundo virtual ter ganhado tanto espaço, Jaime Bulhosa não acredita que o livro vá desaparecer. Talvez o mercado livreiro deixe de ter a dimensão que tem, ou que já teve outrora, mas o livro não, não irá desaparecer, porque ler em papel é diferente de ler no digital. Ressalva: “Determinado tipo de livros… Uma coisa é falarmos de um livro de ficção, ensaio, teatro ou poesia, que gostamos de ler na praia e que podemos deixar cair, que não se parte, que não tem pilhas… Esse livro vai sobreviver, porque nós gostamos de o ler em papel e ainda não há nada que substitua isso. Agora, os livros técnicos, aqueles a que nós temos acesso mais rapidamente na Internet, não sei se vão sobreviver da mesma forma… Claro que haverá sempre, mas muito reduzidos. Não inventaram, nem acho que vão inventar tão cedo uma coisa que substitua o livro em papel. (…) E depois há coisas que retornam, como por exemplo o que aconteceu com o vinil na música… Acho que o livro pode ter uma queda, mas que depois vai recuperar”.

Foi a experiência, o gosto pelos livros, mas também a paixão pela leitura que fez o livreiro arriscar neste projecto de uma livraria de bairro: “A coisa que eu mais gosto de fazer é de ler. Eu sou livreiro e não sou editor porque como livreiro posso ler o que quero, leio aquilo que me apetece, não sou condicionado por nada e tenho acesso a milhares de livros. Como editor já não teria tempo para ler o que quero. O editor tem que ler aquilo que edita, está condicionado aos manuscritos que lhe mandam ou às coisas que escolhe. Ser livreiro é ser mais livre enquanto leitor”.

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A arte de ser livreiro

Quanto às características que distinguem a Pó dos Livros das outras livrarias, Jaime Bulhosa refere: “Eu acho que o que nos distingue da maior parte das outras, não de todas, porque existem algumas livrarias com esta característica, é ser livreiro. Ser verdadeiramente um livreiro. Um livreiro no sentido de saber o que está a vender, conhecer a cadeia do livro, como se faz, como chega… Um livreiro é um expert. Tem que saber o que está a vender e para saber o que está a vender tem que ter gosto pela leitura. Um livreiro é aquela pessoa que sabe de livros e que pode aconselhar as suas leituras aos outros. A partir de um exemplo, o livreiro oferece muito mais escolhas e esse é o seu papel, não é ficar só por aquilo que o cliente quer, mas mostrar a diversidade. (…) Uns livros estão ligados aos outros. E isso tem a ver com a tertúlia que se cria com um cliente que é próximo. Isso não se faz com um cliente que compra por impulso ou porque viu o livro na televisão. Faz-se com aquele nos chega aqui e diz “Diga-me lá o que é que eu posso ler” e aí nós já sabemos quais são os gostos dele e torna-se mais fácil”.

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Um local especial e alternativo

É esta proximidade com os clientes que faz desta livraria um local especial e alternativo, pois como diz o livreiro: “Além de uma livraria independente, somos uma livraria de bairro, em que conhecemos os nossos clientes. É uma relação já quase de vizinhos. Nós sabemos os nomes dos clientes e eles sabem os nossos… Portanto é um negócio mesmo de bairro e de proximidade”.

Os livros mais vendidos na Pó dos Livros são os clássicos. “Claro que vendemos os best seller do momento, mas não é esse o nosso cliente. O nosso cliente é exigente, é um cliente que sabe o que quer”, revela Jaime Bulhosa. O cliente habitual da livraria é aquele que tanto compra um livro novo, como um usado ou um antigo e que volta com frequência e a quem os livreiros reconhecem a cara e os gostos.

Há um cuidado especial na selecção dos livros que ocupam a secção infantil e juvenil, “tanto em termos da qualidade gráfica como pedagógica”, porque é “quase sempre nestas faixas etárias que se ganha o apetite, ou não, pela leitura”, pode ler-se no blogue da livraria.

De facto, a selecção dos livros que aqui se vendem não é descurada, porque, como Jaime Bulhosa explica, “Uma livraria não pode comprar todos os livros, porque saem em Portugal cerca de 15 mil livros por ano e se eu tivesse todos os livros, teria que construir uma livraria nova todos os anos. Portanto, nós temos que ser selectivos e escolhemos com base naquilo que é o nosso gosto ou naquilo que nós achamos que é o gosto do nosso cliente”.

E privilegia-se as editoras de qualidade que, segundo o livreiro, são aquelas que têm critério naquilo que editam, que apostam em novos autores e num catálogo com significado e diversidade.

Sobre as editoras que considera de qualidade, acrescenta: “Um novo autor leva tempo a conquistar o público. Sabemos que ao apostar num novo autor, em princípio, vamos perder dinheiro, mas mais tarde podemos colher os frutos disso. É importante apostarmos em novas ideias, tendo noção de que não é bom para o negócio, mas que é bom para o futuro em termos culturais. Não podemos só editar aquilo que vende à partida. Não adiantamos nada para a divulgação da cultura se nos cingirmos àquilo que é fácil. Importa também arriscar em coisas novas, em coisas que lemos e descobrimos que são importantes e que devemos transmitir aos outros. Uma editora de qualidade é aquela que não se cinge só aos resultados da venda do livro, mas sim à criação de um catálogo com significado, com importância, com diversidade”.

O livreiro considera que a oferta tem melhorado nos últimos anos, que a qualidade dos livros que se publicam está melhor, porque as editoras já se aperceberam que nem só a literatura light vende e, por isso, já vão buscar livros que, há muito tempo, estavam esgotados e também já começaram a apostar em novos autores. Lembra que antes a oferta era muito uniformizada e pensa que hoje é um pouco mais variada, apesar de se editar menos, o que também considera positivo.

Já encontrou alguns livros que preferia não ter encontrado, por isso é também selectivo naquilo que lê e prefere aqueles livros que já tenham passado pelo teste do tempo, os chamados clássicos. “As pessoas têm que ter noção de quantos livros se editam. No mundo, editam-se cerca de um milhão de livros por ano e cerca de três milhões de manuscritos não são editados. Na vida, se formos um grande leitor, no máximo conseguimos ler cinco mil livros. Se formos um leitor daqueles que estão sempre a ler. Portanto, quando pensamos que só num ano se edita um milhão de livros, é um desperdício, porque não vamos ter tempo para ler isso tudo”.

Na Pó dos Livros realizam-se, regularmente, eventos ligados aos livros e à cultura. Nesta altura menos, depois da Feira do Livro e com a entrada no Verão, mas além de lá se poder encontrar “aquele livro”, também se poderá participar em lançamentos, tertúlias ou outras actividades culturais, porque o livro não tem só pó, tem toda uma panóplia de sabedoria que lhe é afecta.

Blogue: livrariapodoslivros.blogspot.pt

Loja Vintage: podoslivrosvintage.blogspot.pt

Facebook: www.facebook.com/podoslivros

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5 Comentários

  1. Que lindo… dá até uma ternura no coração.
    Bem.haja quem é capaz de se sustentar assim.

  2. Luís Filipe Marcão
    | Responder

    Parabéns pelo trabalho e pela persistência num mundo em que é difícil sobreviver.

  3. Bebiana Gonçalves
    | Responder

    Muito elucidativo. Não vivo em Lisboa, mas fiquei muito interessada em lá ir.

  4. João Pereira
    | Responder

    Obrigado, obrigado, obrigado. Mil vezes obrigado. Gosto de ler coisas simples, sobretudo, livros infanto-jevenis, com boas mensagens de forma a suscitarem nos jovens o gosto pela leitura.

  5. Graça Martins
    | Responder

    Adoro. Quando vou a Lisboa dou um salto a esse espaço tão acolhedor.

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