Luísa Fortes da Cunha e o segredo da escrita saudável

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Reportagem escritores.online©

Num dos dias de muito calor que invadiram este mês de Junho, o escritores.online foi ao encontro da escritora Luísa Fortes da Cunha a Carnaxide, localidade onde é professora de Educação Física e responsável pela equitação adaptada da escola em que lecciona. A Escola Secundária Camilo Castelo Branco é pioneira por integrar esta disciplina no desporto escolar.

O local escolhido para este dia foi a Hípica de Oeiras, onde a escritora leva os seus alunos, todas as semanas, para praticarem a modalidade.

Após uma visita aos cavalos que fazem as delícias dos alunos, foi encontrado o sítio ideal para se falar de livros e de escrita: um pequeno alpendre agradável, e à sombra, onde se sentia o ar saudável do campo e a música ambiente era protagonizada pelo relinchar dos cavalos e pelo canto dos pássaros.

Num ambiente propício à conversa, Luísa Fortes da Cunha foi saciando a natural curiosidade que se nutre por uma das autoras cujo sucesso dos livros publicados é notório. São dezasseis livros da colecção Teodora e um novo que promove a alimentação saudável.

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Da ficção infanto-juvenil à alimentação saudável

Luísa Fortes da Cunha é a autora dos livros da colecção Teodora. Recentemente publicou um livro diferente dos da fada do anel mágico, em co-autoria com Raquel Fortes, Crianças Saudáveis, Famílias Felizes, que reúne dicas essenciais e dezenas de receitas para uma alimentação saudável.

Pode parecer que não há qualquer ligação entre os dois diferentes tipos de obras de Luísa Fortes da Cunha – um que é de ficção infanto-juvenil e o outro, cuja classificação temática poderá estar na educação e família ou na gastronomia – mas, na verdade, há.

Luísa Fortes da Cunha é professora de Educação Física, mestre em Gestão da Formação Desportiva e pós-graduada em Educação Especial. A experiência de um trabalho de cerca de trinta anos com crianças e jovens, deu-lhe a percepção de que, ano após ano, a obesidade infantil tem vindo a aumentar. Por isso, depois de alimentar saudavelmente o imaginário dos jovens, com as aventuras da Teodora, achou que estava na altura de também contribuir para que estes fizessem uma melhor alimentação que lhes permitisse ter mais saúde e melhor condição física.

Assim, deixou a Teodora a descansar das suas aventuras e partiu para este livro diferente daquilo a que acostumou os seus leitores, com o qual pretende ajudar as famílias a aderirem a um regime alimentar mais saudável.

A escritora conta como o problema da alimentação foi chegando até si: “Deparo-me com miúdos que não tomam o pequeno-almoço em casa e chegam à escola sem esta refeição; que vêm para as aulas cheios de sono; que não estão concentrados porque não comeram e que, quando vão comer, a primeira coisa que fazem é sair da escola, ir ao café mais próximo e comprar um triângulo de pizza, uma sanduiche com carnes processadas ou com muita gordura ou maionese… Pacotes de batatas fritas são aos montes. O que verificamos durante anos é que a mobilidade nas aulas vai sendo cada vez menor e os miúdos cansam-se muito por causa da obesidade”.

Por acreditar que “a saúde dos filhos começa na mesa dos pais”, há cerca de dois anos criou o blogue My Casual Brunch que tem como objectivo juntar várias sugestões para uma alimentação saudável, desde os pequenos-almoços preparados na véspera, os famosos overnight oats, a alternativas saudáveis para pratos comuns como, por exemplo, as pataniscas que, em vez de fritas, são cozinhadas no forno.

O convite de Raquel Fortes, que tem um blogue sobre a mesma temática e exercício físico chamado It´s Up to You, para ingressar no workshop Style Up Your Food, permitiu que Luísa Fortes da Cunha aperfeiçoasse as fotografias com que apresenta as receitas no seu blogue e juntou as duas bloggers que se lançaram em novos workshops em conjunto.

O sucesso do blogue My Casual Brunch interessou a editora Lua de Papel que contactou a escritora e esta, que estava a dinamizar os workshops Refeições Saudáveis, Famílias Felizes com Raquel Fortes, considerou que só fazia sentido escrever o livro em parceria com Raquel e acabou por a convidar para a co-autoria do mesmo. E assim nasceu este último livro Crianças Saudáveis, Famílias Felizes que, na recente Feira do Livro de Lisboa, atingiu o top de vendas da editora Lua de Papel, sendo o livro mais vendido após as primeiras 48 horas da feira e o segundo mais vendido do conjunto das dezassete editoras da Leya.

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Teodora e os segredos da sua criadora

Luísa Fortes da Cunha anda no mundo da escrita há já quinze anos e foram as aventuras de Teodora que a notabilizaram. O primeiro livro da colecção, Teodora e o Segredo da Esfinge, entrou na segunda edição três meses após ter sido publicado.

Houve quem comparasse Teodora a Harry Potter. A autora lembra: “Efectivamente houve uma comparação entre os dois, talvez por serem duas personagens mágicas. Um por ser rapaz e outra por ser rapariga. Na altura, não existia uma personagem mágica feminina e, portanto, quando ela aparece havia dois ou três livros do Harry Potter e houve um jornalista que fez essa comparação porque a Teodora era o lado feminino do feiticeiro inglês. Mas eles são muito diferentes! As histórias do Harry Potter vão intrincar numa magia mais negra, mais escura com tudo aquilo que sabemos sobre a magia negra, enquanto a Teodora não, ela é o mais claro que há, é mais divertida, não tem nada dessa magia. É evidente que há personagens más, mas nunca passamos pelo lado escuro da magia. É essa a diferença. Mas também há outra, o Harry Potter é um rapaz tipicamente inglês colocado dentro de um colégio interno, por isso é um miúdo que está de acordo com a educação inglesa, enquanto a Teodora é fruto das nossas lendas e tradições. E também das celtas, porque nós temos aqui uma mistura das lendas portuguesas com as celtas e a Teodora é um bocadinho esse produto”.

A personagem aparece depois de Luísa Fortes da Cunha ter lido livros sobre contos tradicionais portugueses, entre eles, um livro de Teófilo Braga que falava de uma princesa Teodora que não se sabia quem era. A princesa tinha uma aura de mistério à sua volta e era muito meiga, bonita e inteligente e foram estas três qualidades que inspiraram a autora para a criação da sua Teodora. “Depois dei-lhe o ar de aventureira. Muitas coisas de que eu gostava quando tinha a idade da Teodora, uns catorze ou quinze anos, atribui à personagem. Ou seja, dei-lhe as minhas características. Ela tem muito de mim, não há dúvida nenhuma. Quando estou a escrever as histórias da Teodora, ponho-me no papel dela, vivo intensamente os perigos que ela vive, vivo as partes agradáveis, vivo mesmo dentro das histórias”, confessa a escritora.

Mas a ideia de escrever o primeiro livro partiu das histórias que Luísa contava aos filhos antes de dormir e que, após algumas pesquisas sobre o mundo das fadas e dos duendes que a encantaram, se foram tornando maiores e impossíveis de se contar inteiras numa só noite. O fascínio pelas lendas e tradições portuguesas e a inspiração que veio das obras de José Leite Vasconcelos contribuíram para que as aventuras de Teodora fossem ricas em portugalidade.

O anel mágico da heroína foi inspirado na superstição portuguesa de que os anéis dão protecção às mulheres que os usam. “Aproveitei essa superstição para colocar um anel na Teodora. Só que o anel da Teodora está um bocadinho mais alavancado, para além de a proteger, tem propriedades mágicas”, explica a autora.

As histórias da Teodora são muito investigadas e estudadas antes de chegaram às mãos dos seus leitores, pois reúnem a magia, as lendas e noções de História em cada uma delas.

O primeiro livro foi muito pensado antes até de ser escrito: “Eu andei a maturar a ideia durante um ano, a pensar nas personagens, a pensar em que tipo de história é que queria fazer, onde é que se ia desenrolar a trama e o que é que eu queria fazer com ela. E só ao fim de um ano é que comecei a escrever. Levei mais um ano a escrevê-la e depois foram mais uns meses para publicar. Por acaso, não tive dificuldade em editar, não foi nada difícil, por incrível que pareça. O primeiro livro, desde o ter pensado até chegar às livrarias, levou três anos”, esclarece.

No mínimo, a escritora leva cinco meses de investigação antes de escrever cada um destes livros, porque, conforme explica: “A base da Teodora é muito real e eu quero ser o mais credível e o mais verdadeira possível, porque os miúdos são muito exigentes. Se nós fizermos alguma coisa de errado, eles são os primeiros a apontarem-nos o dedo e a dizer que não está correcto. Nós temos que ter muito cuidado nesta realização. Por isso, eu demoro algum tempo a investigar” e adianta sobre as noções de História que vai dando aos seus leitores: “Eu quero ser pedagógica, mas não quero ser aborrecida. Eles acabam por receber informação de uma forma muito lúdica, sem darem por isso. Vão lendo a história e aquilo aparece assim, como quem não quer a coisa, no meio da aventura”.

As histórias partem de um cenário português que a autora considera mágico como Foz Côa, a Serra da Estrela, Conimbriga ou o Cabo da Roca, aos quais faz a ligação a um espaço no estrangeiro e introduz factos históricos.

As visitas a vários países do mundo, através do Instituto Camões e das coordenações da Língua Portuguesa nesses locais, também deram matéria à escritora para os seus livros. Por exemplo, a última história Teodora e o Misterioso Barco de Mogno tem muito do que lhe contaram nas escolas que visitou em Melbourne, Camberra e Sidney sobre a descoberta da Austrália.

A teoria sobre o mistério da caravela da armada de Cristóvão de Mendonça que desapareceu e que pode estar escondida por debaixo das dunas em Warnambool, perto de Melbourne, bem como o relato sobre os artefactos que foram encontrados relacionados com os portugueses e a possibilidade de a teoria, que defende que James Cook foi o primeiro europeu a chegar à Austrália, estar errada suscitaram o interesse da autora ao ponto de esta os investigar e posteriormente os incluir nesta aventura de Teodora.

Talvez pelas características peculiares destes livros que fomentam a leitura e ensinam de uma forma lúdica os seus jovens leitores, o Plano Nacional de Leitura (PNL) tenha recomendado o livro Teodora e a Pedra de Âmbar para leitura autónoma de alunos do 6º ano.

Mas não é só o PNL que recomenda esta leitura, os alunos também a apreciam bastante e, quando a escritora utiliza os livros nas suas aulas de Língua e Comunicação, destinadas a alunos com currículos específicos – onde faz a leitura de capítulos, o reconto da história e, posteriormente, fichas de gramática e interpretação – são tão bem recebidos que o entusiamo e a vontade de assistir à próxima aula crescem, porque querem muito saber o resto da história.

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O prazer da escrita

Luísa Fortes da Cunha não consegue definir que tipo de literatura gosta mais de escrever. Entre a ficção e o trabalho na área da alimentação saudável não há uma escolha. Sente que é tão estimulante um trabalho quanto o outro, porque se entrega da mesma forma a cada um deles. “Quando me lanço num projecto, lanço-me a fundo nesse projecto, vou até ao fim e dou tudo de mim. É um prazer escrever e dedicar-me a isto”, esclarece.

Conciliar a escrita com a profissão de professora não é fácil, por isso vai escrevendo nos bocadinhos que tem livres e apontando as ideias que lhe vão surgindo no Ipad ou no caderninho que traz sempre consigo. É nos fins-de-semana ou nas interrupções lectivas que junta esses apontamentos no computador e que dá forma às histórias. Fá-lo essencialmente em casa, mas especialmente, no Inverno, gosta de ir até a uma das praias mais próximas e ficar no carro, em frente ao mar, a escrever.

Neste momento, tem vários projectos em mãos, mas ainda não sabe qual deles será o próximo a materializar-se em livro. Poderá ser uma continuação na área da alimentação saudável ou um de ficção para jovens adultos ou até mais um infanto-juvenil.

“Tenho várias ideias que estão no computador, várias histórias juvenis para fazer. Queria começar uma coisa nova. Ou irei para um projecto desses ou para um projecto para jovens adultos. Tenho dois ou três romances escritos que ainda não tiveram a possibilidade de ver a luz do dia, porque ainda não me decidi e achei que ainda não estavam em condições para os colocar cá para fora. Ou faço um novo ou vou dar a volta aos três que tenho na gaveta. Neste momento, eu e Raquel já temos mais ideias para um novo projecto que tem a ver com alimentação saudável e não sei se será esse o primeiro a sair. Não faço a mínima ideia, mas algum vai sair. Quando? Se calhar na próxima Feira do Livro estaremos aqui a falar outra vez sobre o novo livro”, sugere a autora.

Quem sabe o próximo livro não nascerá num dia bem diferente deste em que nos encontrou, num Inverno frio e de frente para o mar?

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2 Comentários

  1. O prazer da escrita; o gosto pelos cavalos.
    Excelente combinação.
    Gostei muito da tipologia de entrevista.

    • Luísa Fortes da Cunha
      | Responder

      Muito obrigada pelo comentário Maria José Areal.

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