O Amor é Para os Parvos

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Ano: 2011 | Editora: Quetzal

Numa solitária viagem ao passado, conversando com o espectro de uma mulher que continua a habitar o seu quarto, um homem revisita as memórias de uma antiga paixão, tornada impossível pelas próprias contradições que o amor encerra e pelos estranhos labirintos que a loucura do narrador arquiteta. Um monólogo íntimo e perturbador, que fala das palavras que nunca foram ditas e dos laços que são precisos desfazer para que a morte deixe de causar temor.

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Há amores assim: confusos, ‘doentios’, possessivos…a outra face da moeda! A linha ténue entre um querer desmedido e um desprendimento vitimizado. O passado que persegue e o futuro que assusta: sem presente, sem presentes.
Gosto de pensar que a redenção existe, que é possível abandonar fantasmas, aniquilar traumas, esvaziar a memória e (re)começar. Gosto de pensar que, um dia, pousamos a cabeça nos joelhos de alguém, muito quietos e que o afagar de cabelos, naquele momento, dá sentido a tudo o resto.
“Sabem estes amantes que todo o tempo do mundo é mais tempo do que a eternidade? Que ao dizerem «para sempre» não exprimem mais do que a fugacidade de um fósforo que já principiou a arder?” – Quanto tempo demoraremos a dar importância ao tempo? Ou a ignorá-lo? Ou a reinventá-lo? Quanto tempo teremos para perceber que o tempo tem a ‘teoria da relatividade’ no seu ADN? Quanto?

Continuamos a não permitir que a felicidade seja o mote dos nossos dias, como se ser-se demasiado feliz (é possível ser-se demasiado feliz?) fosse um agoiro da desventura que se segue. Somos moldados de forma a acreditar que a vida é uma montanha russa de emoções e que os píncaros de alegria, quando o carrocel está no alto, rapidamente se transformarão em lágrimas, numa descida alucinada e abrupta. A autovitimização é o resultado de uma educação que nos leva a crer que (só) assim conseguiremos atingir os objetivos, o tal “choradinho” português, o tal “quem não chora, não mama”… “Porque permitiste que fôssemos longe demais? Quantas vezes jurei não te merecer?”, um doentio não querer que se quer muito.

“Uma família destroçada não tem conserto, ainda que o tempo tenha a virtude de ajudar a sarar as chagas que ficam” e, por isso, somos todos alucinados, feridos, marcados. A normalidade não existe: em nenhuma pessoa, em nenhuma família, em nenhuma sociedade: aí está um conceito sobrevalorizado! Somos guiados por padrões, valores, direitos e deveres, leis…e consciência, para fugir da anarquia que habita em cada um de nós, para calar o lado selvagem, para esconder a face mais cruel e (a maior parte das vezes) resulta. Seguimos, normais, com as cicatrizes, as mazelas, as comichões…afinal “há tanta gente que consegue e que chega a convencer-se de que é real a paz familiar que pacientemente arquitectaram”.

Viver (também) é crescer, amadurecer, mudar – se assim tiver que ser! Reinventar e reagrupar as mil personagens que habitam em cada um de nós. “Simplesmente querias-me melhor do que sou e ninguém escolhe ser melhor ou pior. É-se e pronto”, mas o que se é (e pronto) hoje não é a pessoa que fomos nem a pessoa que seremos: é com essa dádiva de transformação que, com unhas e dentes, nos devemos lambuzar: acho que só assim faz sentido: embriagarmo-nos “com ilusão de que somos capazes de mudar o mundo”, porque não? Comecemos pelo “nosso” mundo, por nós, pelos que nos rodeiam e talvez o mundo se transforme num lugar melhor.

E se o que “dói não é o fim, mas os caminhos que lá conduzem”, tenhamos, naquilo que conseguimos controlar, a sapiência de escolher os melhores caminhos, saibamos dar uma oportunidade à vida, antes que “a morte nos resgate da dor e nos redima de todos os males”, para que, ao chegar, haja mais do que sofrimento, agonia e desilusão.

Que o “piú grande amore del mondo” nos torne parvos


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