Livraria Campos Trindade: Livros com História

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fotografia de Rodrigo Gatinho

 

Reportagem escritores.online©
Ideias pré-feitas dizem que as livrarias alfarrabistas são locais do passado, em que tudo é velho e fora de moda. Há espaços que provam que essas é que são ideias velhas e fora de moda

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Mito Um

O mito de que as livrarias alfarrabistas são locais escuros, soturnos e de tempos já idos cai por terra quando se entra na Livraria Campos Trindade. Além de um espaço cheio de luz, o brilho das lombadas bem cuidadas dos livros antigos que decoram as estantes apela ao toque e ilumina a loja.

Como se de uma dança de sedução se tratasse, o visitante tende a contornar a mesa central várias vezes e a pousar os olhos em cada um dos livros. Há um banco que os clientes podem usar quando se cansam e precisam de se demorar um pouco mais a apreciar determinada obra. Banco este que é partilhado pelos clientes habituais, conforme cada um dele vai necessitando. Um banco e um cadeirão que se situa junto ao local onde encontramos Bernardo Trindade, actual proprietário e filho de Tarcísio Trindade, fundador da Campos Trindade. Cadeirão onde em tempos se sentou Alexandre O’ Neill , Ruy Cinatti, David Mourão Ferreira, entre outros notáveis escritores para conversas com Tarcísio Trindade.

E clientes habituais é o que não falta à Livraria Campos Trindade…

Segundo Bernardo Trindade, desde os tempos em que se instalaram na Rua do Alecrim, quando ainda nem estantes tinham para os arrumar, que há clientes habituais. Uns vêm todos os dias, outros vêm esporadicamente e há ainda aqueles que vêm do estrangeiro para comprar determinado livro e compor a sua biblioteca pessoal. Personalidades como o historiador inglês Charles Boxer, os bibliófilos José Mindlin e Ruben Borba de Moraes foram clientes da livraria.

A maior parte dos clientes é colecionador. Este tipo de cliente é muito exigente, pois deseja peças muito boas. Infelizmente, essas peças são cada vez mais raras, porque, como explica Bernardo Trindade, “cada vez é mais difícil encontrar bibliotecas virgens, sem que tenham sido mexidas há muito tempo”.

Conta que em tempos com o pai teve a sorte de encontrar uma dessas raridades. A biblioteca dos Condes de São Martinho foi um achado pelo estado de conservação em que se encontravam os livros. “A porta esteve fechada uns cento e tal anos. Quando a abrimos não se via nada, porque estava coberta por teias de aranha compactas. O que parecia uma coisa péssima para os livros foi o que os preservou. Os livros estiveram às escuras todos aqueles anos e as aranhas comeram os bichos que os podiam estragar. Eram livros preciosos sobre a India, o Japão, Atlas do séc. XVI, manuscritos que foram preservados devido à presença das aranhas e à pouca luz. Tenho saudades de entrar numa biblioteca dessas”, acrescenta.

Um espaço cheio de luz

Mito Dois

Mas não só de clientes habituais vive a livraria Campos Trindade. Há também novos clientes que vão surgindo.

Um dos objectivos do livreiro é ter livros acessíveis a todos, por isso criou a “vala comum”, nome dado por Bernardo Trindade ao local onde se encontram os livros mais em conta. Um euro por livro deita por terra o segundo mito que faz dos livros antigos objectos caros e inacessíveis.

A política da casa é “vender cada peça à pessoa certa”, porque na maioria dos casos é um pouco de História que se entrega nas mãos do cliente e se há que satisfazer o cliente, também há que ter a certeza que essa História é bem tratada. “É tentar na medida do possível vender a peça à pessoa que lhe vai dar valor e cuidar dela por, pelo menos, mais uma geração”, explica Bernardo Trindade.

A Livraria Campos Trindade mantém este espírito que já vem de Tarcísio Trindade e é agora preservado pelo seu filho que faz questão de atender aos pedidos dos clientes, procurando as peças que lhe solicitam. Aliás, é essa uma das tarefas que lhe dá mais prazer, procurar aquela obra específica que o cliente deseja. “É o que me dá mais satisfação, quando uma pessoa está anos à procura de uma peça e eu a consigo encontrar. Normalmente, consigo e muitas vezes até ofereço essas peças”, esclarece.

“As pessoas devem sempre ir falar com um profissional antes de venderem uma biblioteca antiga ou uma colecção importante”

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Mito Três

A avaliação e compra de grandes e pequenas bibliotecas, livros raros, espólios, manuscritos, fotografias, postais antigos, pintura portuguesa, pintura estrangeira e antiguidades, bem como as avaliações judiciais e institucionais são outras das especialidades do proprietário da livraria que, para as realizar, tem de se ausentar da loja, deixando avisos cheios de humor aos clientes e que, de tal modo se tornaram um sucesso, que até houve quem os quisesse comprar.

Encontrar um recado na montra a dizer “Fui pescar bruxas para a Ericeira. Reabre segunda”; “Fui apanhar burros ao Granada. Reabre amanhã”; “Está calor. É dia de mergulho no Tejo. Reabre às 17h30” indica aos clientes, numa espécie de código bem-humorado, que Bernardo saiu em trabalho.

Mais um mito abatido. Os alfarrabistas nem sempre são locais desprovidos de humor e boa disposição.

O actual proprietário não herdou do pai apenas o jeito para o atendimento dos clientes, mas também a maior parte do seu conhecimento no que diz respeito ao livro antigo.

Tarcísio Trindade, natural de Alcobaça, onde foi presidente da Câmara durante o Estado Novo, participou activamente no desenvolvimento do concelho, tanto no domínio das obras públicas, quanto no da solidariedade social e da educação.

Homem de muita cultura, foi inclusivamente um poeta promissor, cujo livro Os Meninos e as Quatro Estações, publicado em 1960, mereceu destaque numa das edições da História da Literatura Portuguesa, de António José Saraiva e Óscar Lopes.

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A banda de Alcobaça

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A banda de Alcobaça fez anos

E deu a volta ao mundo.

 

Atrás dela foram em fila

Os garotos de pé descalço e orelhas grandes

A quem não ensinaram a gostar de música

 

Em casa foram zancados pelos pais

E no outro dia foram para a escola

De orelhas pendidas

A tocar flautas de cana rachada.

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Tarcísio Trindade, in Os Meninos e as Quatro Estações

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Mais tarde, após o 25 de Abril, abriu a Campos Trindade, na Rua do Alecrim, em Lisboa, onde aplicou e desenvolveu o seu conhecimento em antiguidades, aprendido com os pais que já negociavam estes artigos em Alcobaça, tornando-se um conceituado especialista na avaliação dos livros antigos por possuir um profundo conhecimento da introdução e difusão da tipografia europeia nos séculos XV e XVI e das bibliotecas públicas e privadas em Portugal e lá fora.

Passaram pelas suas mãos obras como o Tratado de Confissom de 1489 (primeiro livro impresso em língua portuguesa de que há conhecimento); os dois volumes da primeira edição de D. Quixote; a primeira edição de Os Lusíadas; cartas manuscritas de Sá de Miranda, cartas de Fernando Pessoa; todos os livros de Miguel Torga com dedicatória, inclusive os ainda assinados Adolfo Rocha; vários forais, entre tantas outras preciosidades.

Bernardo Trindade | fotografia de Rodrigo Gatinho©

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Bernardo Trindade foi o filho que lhe seguiu as pisadas e, por tanto observar e acompanhar o pai, acabou por se lhe juntar na paixão pelos livros antigos. Estudou História, mas sente que aprendeu mais sobre esta matéria com o pai do que com o curso.

Na profissão, releva a importância da avaliação dos livros antigos e preocupa-o haver quem negoceie sem conhecimentos sobre o real valor das peças, “há pessoas que inadvertidamente põem coisas à venda, em websites ou feiras, que, ou pedem muito dinheiro pelos livros, ou os vendem por preços muito baixos, porque não foram falar com um profissional. As pessoas devem sempre ir falar com um profissional antes de venderem uma biblioteca antiga ou uma colecção importante. A ideia errada do real valor dos livros antigos e do que é raro ou não, fruto das fracas políticas de educação”.

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Mito Quatro

Às vezes, acontecem vendas especiais temáticas na Campos Trindade, como a de Julho do ano passado de cerca de 3.000 livros da biblioteca pessoal de Miguel Esteves Cardoso (MEC) que encheu a livraria de ávidos leitores, ou a de livros de cozinha e gastronomia, ou a de caça que se realizou ontem.

Mais um mito que se abala… Os alfarrabistas não são obrigatoriamente locais onde não acontece nada, parados na História e mortos no tempo, antes pelo contrário, há os que carregam a História consigo, se projectam no tempo e que vão escrevendo mais páginas deste nosso grande livro antigo.

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Morada:

Rua do Alecrim, 44 1200-018 Lisboa

Tel. (+351) 213 471 857

Site: www.livrariacampostrindade.com

Página de Facebook

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2 Comentários

  1. Almas como as dos Trindades não se encontram em quaisquer portas nesse mundo de ganâncias, mas ainda bem que existem, e de suas sensibilidades ficam testemunhas, eu devo debitar-me entre essas. H.

  2. Cacildo Gabado
    | Responder

    Cacildo Gabado.
    A Livraria Campos Trindade é uma mais valia para a cidade de Lisboa. O ” modus operandi ” do seu proprietário Bernardo Trindade herdeiro da sabedoria de Tarcisio Trindade que soube aplicar e desenvolver fazendo deste espaço multicultural, paragem obrigatória a todos os amantes e profissionais da cultura. Percebe-se que o “negócio” não é o maior foco do proprietário desta Livraria, como podem testemunhar clientes e fornecedores, sempre exaltam a maneira correcta, transparente e generosa que tem Bernardo Trindade no tratamento das suas transacções.

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