GATAfunho: Contos e livros num lugar encantado

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Reportagem escritores.online©

A livraria GATAfunho existe há seis anos, mas nasceu editora há cerca de dez. A editora procura “editar livros para todos, para todas as idades, livros sem “rótulos”, nem “livros de instruções”.

A livraria, que veio mais tarde, ganhou o nome da editora. Instalou-se primeiro em Lisboa, começando por ter porta aberta no Chiado, passando depois pelo Bairro Alto e, por fim, encontrando o seu lugar em Oeiras, no Largo 5 de Outubro, onde hoje se situa.

A GATAfunho foi fundada por Ana Paula Faria, mas há cerca de três anos juntou-se-lhe a sua filha Inês Araújo.

Inês Araújo e Ana Paula Faria

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Inês Araújo sempre esteve rodeada de livros, tanto pela parte da mãe, ligada profissionalmente à tradução, quanto pela parte do pai, Carlos Araújo, editor durante muitos anos que esteve na Dom Quixote e foi fundador da Teorema e da Terramar. Por isso, a chegada de Inês à GATAfunho foi quase um processo natural. O curso de Línguas, Literaturas e Culturas na área de Estudos Ingleses, na Faculdade de Letras, veio aproximar ainda mais dos livros a sócia mais nova da GATAfunho.

Recentemente, a livraria deixou de ser uma só para passar a ser uma “livraria dupla” com as portas lado a lado.

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A “livraria dupla”
A GATAfunho, à esquerda e à direita, unida pela Casa da Partilha

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Com o surgimento do novo espaço, este “lugar encantado dos contos e dos livros” divide-se hoje em duas lojas: uma dedicada à literatura para a infância e outra com livros mais direccionados para os adolescentes e adultos. Separa-as – ou melhor, une-as – a Associação Cultural Partilha Narrativa, cuja porta se situa mesmo no meio das duas lojas.

Se não se tomar atenção, a associação passa quase despercebida, devido ao grande gato azul que decora a parede da GATAfunho da esquerda, mas a inscrição na porta do número 12-A, onde se lê “Casa da Partilha” revela a sua presença. Para além da inscrição na porta, também os “Contos no Largo”, uma das actividades dinamizadas por esta associação, que acontecem todos os domingos, às 11h30, no largo, em frente à GATAfunho, lhe dão a relevância e um público tão fiel que já nem precisa de divulgação, porque os clientes da livraria a conhecem bem e comparecem espontaneamente para se deixarem encantar pelos contos que ali se contam.

Do público fiel deste “lugar encantado”, destaca-se uma pequena cliente que frequenta o segundo ano do primeiro ciclo e que, segundo conta Ana Paula Faria, se sentiu muito desiludida quando falaram na escola das instituições e locais importantes de Oeiras e não referiram a GATAfunho. A pequena cliente, estranhando este facto, pensou que se tinha tratado de um erro ou que se tinham esquecido de falar da “entidade GATAfunho”, como a pequena lhe chamou.

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À esquerda, a GATAfunho dedicada à literatura para crianças
Um espaço encantado

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A primeira “metade” da livraria GATAfunho é dedicada à literatura para a infância.

Quando este primeiro espaço abriu, foi logo bem acolhido pela população de Oeiras. As pessoas começaram a aparecer levadas pela curiosidade e foram voltando para ver os livros e para ouvir os contos. Os contos chegaram a juntar cerca de oitenta pessoas em frente da livraria.

Esta parte da livraria é um sítio quase mágico. Desde a decoração aos livros que vende, tudo parece envolvido por uma aura fantástica. A decoração remete para um bosque encantado, pois as paredes e as estantes parecem que ganham vida de tanta cor que se enchem. Tem ainda um cantinho para brincadeiras e para as leituras mais recolhidas dos pequenos leitores que é muito apreciado por estes clientes.

Cantinho das brincadeiras

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Nas estantes podem encontrar-se edições da Edicare, Kalandraka, GATAfunho, Bruaá, Dinalivro, Planeta Tangerina e Orfeu Negro, entre outras. Obras de autores como Lurdes Breda, Rodolfo Castro, Teresa Cortez, Bernardo P. Carvalho, Catarina Sobral e Rute Reimão vivem em alguns dos livros presentes na GATAfunho. Autores e edições estrangeiras de literatura para a infância também se podem encontrar por aqui.

O livro de qualidade para a primeira infância (livros para bebés) é uma das apostas da GATAfunho. Para Ana Paula Faria é importante que o livro para estas faixas etárias tenha um bom projecto gráfico, que seja simples e apelativo em termos da cor e da ilustração e que tenha pouco texto: “Não é necessário que o livro tenha uma mensagem expressa. Os meninos e as meninas são inteligentes… Podem ficar livres para fazerem as suas leituras e tirarem as suas conclusões”.

Inês Araújo acrescenta: “O nosso modo de agir, enquanto livraria, passa por deixar as pessoas, e especialmente as crianças, mexerem nos livros. Aqui, desde sempre tivemos os livros à mão dos miúdos. O facto de não barrarmos esse acesso faz com que as crianças percebam que o objecto livro não é um objecto absoluto, intocável… O livro tem de estar com a criança desde o início para que ela perceba que mesmo sendo um objecto especial e importante, é como outro objecto qualquer que faz parte das nossas vidas… Acho que este processo de a criança ter contacto com os livros desde o início é importante para que mais tarde se interesse pela leitura”.

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À direita, a GATAfunho para todas as idades

Esta “metade” da livraria só abriu há cerca de um mês.

Ana Paula Faria explica: “Eu não diria que é generalista, porque se calhar efectivamente não o é, mas é um espaço de livro ilustrado para todas as idades e de livros em várias línguas (francês, inglês, espanhol, italiano, alemão) … Aqui nota-se, talvez, uma maior presença dos livros que têm mais a ver com literatura”, acrescenta.

A segunda parte da livraria veio com a percepção, por parte das proprietárias, de que as crianças um pouco mais crescidas não se identificavam tanto com o primeiro espaço, devido à estética mais infantil. “Uma das razões por que abrimos este novo espaço, foi querermos apresentá-lo com uma estética diferente e com propostas diferentes, tanto para o jovem adolescente, como para o adulto, apostando mais uma vez nos livros de qualidade”, refere Inês Araújo. A livraria foge aos títulos comerciais que não respeitem o seu critério de qualidade, optando por mostrar alternativas que atentem aos hábitos de leitura e aos gostos dos clientes. Inês Araújo admite que o público adolescente é um pouco mais difícil do que o infantil, pois acaba por se dispersar para outros interesses, como os ecrãs digitais. No entanto, acredita que sejam fases pelas quais as crianças passam e que estas não impedem que mais tarde voltem a interessar-se pela leitura.

Ana Paula Faria duvida que a obrigatoriedade de ler seja uma boa política de incentivo à leitura, pois pode causar o efeito contrário, o de repulsa em relação aos livros. “Deve-se é criar nas crianças o prazer da leitura”, defende.

A exposição dedicada à Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho patente na GATAfunho durante o mês de Abril

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Na loja da direita, a escolha dos livros está mais relacionada com as obras e autores que passaram pelas vidas das duas sócias. Os que estudaram; os que pura e simplesmente gostaram de ler; ou os que foram descobrindo são as opções mais imediatas. Nomes como o de Virginia Woolf ou James Joyce, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Afonso Cruz ou Gonçalo M. Tavares, são alguns dos que se encontram na GATAfunho.

O conto é talvez o género literário que melhor se encaixa num espaço onde se contam tantas histórias, por isso e por ser bastante procurado é muito considerado na GATAfunho.

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Ao centro, a Partilha Narrativa

A Associação Cultural Partilha Narrativa foi fundada pelas duas proprietárias da GATAfunnho, por Rodolfo Castro e Mariana Gonzalez.

Ana Paula Faria explica que a criação da associação surgiu da “necessidade de termos uma actividade mais próxima e mais ao serviço da comunidade e pensámos que a associação seria uma maneira de desenvolver este trabalho, sem confundir o trabalho social que uma associação deve ter com o de uma empresa que, na verdade, tem como fim o lucro e não se pode dar à veleidade de se dedicar a um trabalho social unicamente, infelizmente”.

Rodolfo Castro é escritor e um dos contadores de histórias que marcam presença regular nos “Contos no Largo”. Mariana Gonzalez é quem faz as maravilhosas esculturas presentes nos dois espaços da livraria e é aí funcionária.

Escultura no espaço mais recente da livraria

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Mas a associação não se resume ao trabalho destas quatro pessoas, contando com o trabalho de muitas mais pessoas que estão envolvidas no projecto.

A Partilha Narrativa dedica-se à dinamização de uma série de actividades, em parceria com a livraria, com outras entidades, membros da comunidade ou autonomamente. Para além dos “Contos no Largo” (que não têm como finalidade a divulgação de determinado livro, mas que sejam contadas histórias livremente pelos contadores profissionais, com ou sem recurso a livros), as iniciativas da associação vão dos workshops, às oficinas de teatro ou artes plásticas, às visitas a escolas e de escolas, aos festivais de contos, ao ioga para bebés, entre outras actividades que tenham como fim a divulgação e promoção da cultura e das artes em geral.

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Próximas actividades na GATAfunho:

Durante todo o mês de Abril

Exposição dedicada à Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho, com várias edições e versões dos textos de Lewis Carroll

22 de Abril – Sábado – 16h

Oficina lúdica/artística – Os olhos têm mais sentidos, com Cláudia Almendra – Oficina de pintura

Crianças de 6 anos e famílias

23 de Abril – Domingo –  11h30

Contos em família – Sessão de contos no Largo

28 de Abril – Sexta-feira – 21h30

A Noite do Leitor – Actividade dinamizada por Rodolfo Castro

29 de Abril – Sábado – 11h

Oficina para gente pequena – Em Cantos e Contos, com Joana Aguiar e Marta Lourenço Crianças a partir dos 3 anos e famílias

29 de Abril – Sábado –  16h

Oficina lúdica/artística – Papa Papel, fabrico de pasta de papel

Crianças a partir dos 6 anos e famílias

30 de Abril – Domingo – 11h30

Contos em família – Sessão de contos no Largo

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Morada:

Largo 5 de Outubro, 9 / 10 e 12

Oeiras

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Site: rodopiodeletras.wixsite.com/gatafunho

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