Galileu: Uma livraria com alma resistente

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Reportagem escritores.online©

A Livraria Galileu é, segundo os dados disponíveis no site da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), uma das cinco livrarias existentes em Cascais.

Em tempos, foi a única, pois foi a primeira a nascer aqui a 22 Dezembro de 1972.

Caroline Tyssen, que chegou à Galileu cerca de um ano e meio depois, a 14 de Maio de 1974, diz que a profissão de livreira veio por coincidência. “Estava à procura de emprego no domínio do turismo e encontrei uma amiga na estação de comboios que me disse: “Vai ali à livraria, de onde acabei de sair, que eles precisam de uma pessoa”. Eu vim para arranjar um trabalho por uns tempos. E fiquei”. Acrescenta: “Se fiquei foi porque gostei”.

Apesar de preferir não ser fotografada, alegando que a alma da livraria está à vista e que basta olhar em volta para a sentir, Caroline é o rosto da Galileu. Na verdade, a alma da livraria sente-se, mas Caroline faz, sem dúvida, parte dela.

A livreira de origem belga lembra que foi Duarte Nuno Oliveira, fundador da livraria, que vinha da Livrelco – Cooperativa Livreira de Universitários, quem deu esta “alma resistente” à Galileu: “A Livrelco era uma cooperativa e uma livraria que vendia muitos livros proibidos. Quando o Nuno (Duarte Nuno Oliveira) começou a Galileu também vendeu aqui alguns, como Sartre, por exemplo, e outros. Aqui não teve problemas, mas na Livrelco receio que tenha tido.”

Caroline aprendeu as artes livreiras pela mão de Duarte Nuno Oliveira e faz questão de manter viva a mesma “alma” com que o espaço foi criado.

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Quarenta e quatro anos de Galileu

De facto, a Galileu tem uma aura própria que se reflecte em cada estante, cada recanto, cada livro. É fácil perceber-se esta história de resistência de uma casa com quarenta e quatro anos de vida pelo ambiente que ali se vive.

A cave cheira a livros, o que faz as delícias dos amantes destes objectos, porque se sente que se podia ficar ali o dia inteiro a folheá-los e a saborear todo o conhecimento, fantasia, sonhos e verdades que trazem dentro.

Também Galileu, que deu o nome ao espaço, foi um resistente e terá sido talvez por isso que a livraria ganhou o seu nome. Caroline Tyssen conta: “Esta livraria foi feita por gente de esquerda. Eram muitos e era gente que queria modificar um bocado as ideias políticas em Portugal. Era uma livraria para fazer resistência. Na altura, havia uma amiga deles que já morreu, que perguntou ao Nuno: “Por que é que não se chama Galileu?” Toda a gente concordou e ficou Galileu”.

Há citações de escritores nas prateleiras que separam os livros, pequenos apontamentos literários ou artísticos em cada esquina que Caroline vai acrescentando, alterando e decorando sempre que refaz as montras ou modifica o espaço para receber um novo livro ou colecção.

Nota-se que a livreira traz na bagagem muitos anos de leituras pela forma quase familiar como fala dos livros e seus autores e pela atenção com que atende os clientes, tentando chegar ao que pretendem.

Durante este quase meio século de existência a livraria foi resistindo às intempéries do mercado, Caroline afirma que a sobrevivência do negócio tem sido conseguida com muito trabalho.

Lembra: “A livraria sempre teve problemas. Nós estamos em Cascais. Em 76/77, os nossos clientes que compravam livros de arte foram todos para o Brasil. Tivemos que agarrar nos nossos saquinhos e ir vender para as faculdades. Não tínhamos carro, apanhávamos o comboio. Levávamos os livros e íamos para a Universidade Clássica, para a Faculdade de Direito e para a de Letras, e estávamos ali um dia inteiro a tentar vender livros. E vendíamos bem. E depois voltávamos para casa. Fizemos isso durante uns quatro ou cinco anos. A única hipótese era sair daqui e ir vender para outro sítio. E resultou. Depois vieram os anos de ouro, em que estava tudo cheio de dinheiro e vendeu-se bem. Depois voltaram alguns anos de crise e vendia-se menos.”

A livraria vende livros antigos, usados e novos. Estes últimos em menos quantidade do que antes. “Estamos cada vez com menos livros novos porque não conseguimos. Neste momento estamos a vender o stock. Um stock muito grande, são quarenta e tal anos de stock”.

Mas os livros novos ainda se vêem por ali. O último livro de Cristina Carvalho, Rebeldia, é apresentado como a “escolha Galileu” e está em destaque na montra e no centro de uma mesa, junto ao livro e ao filme Histórias & Segredos de Paula Rego e ao livro A defesa do Poeta, de Natália Correia.

Autores como Teolinda Gersão, Ana Margarida de Carvalho, Licínia Quitério, José Saramago ou António Lobo Antunes preenchem estantes na Galileu. Por outro lado, há também preciosidades como as colecções Iniciação, de Agostinho da Silva ou a Biblioteca Cosmos, de Bento de Jesus Caraça. Esta última completa.

Talvez por Cascais ter uma forte afluência de turistas, encontram-se também na Galileu, para além de livros em português e nas línguas mais internacionais, livros noutras línguas como a holandesa.

Caroline Tyssen revela que a Galileu tinha uma clientela que lia muito e que sente que agora essa clientela não se renova, acrescentando: “Lê-se cada vez menos. Dizem que se lê mais, mas não sei… Duvido que as pessoas leiam no digital como se lê nos livros. Portanto tem que se fazer uma nova clientela, não sei como. Não se esqueça que nestes últimos anos editaram-se alguns livros sem interesse. Essa geração fez-se desses livros”.

Por outro lado, afirma que continua a ter bons clientes e defende: “É preciso ver que esta crise também passa por algumas famílias terem menos dinheiro, atenção! Não é só não comprar o livro porque não se lê. É não comprar o livro porque o dinheiro não chega. Estes últimos anos foram muito difíceis para as famílias portuguesas. As pessoas passaram a fazer contas aos bens essenciais e, claro, quem comprava muito passou a comprar muito menos. Isso não quer dizer que tenham deixado de ler, porque eu conheço muitas pessoas que passaram a ir a bibliotecas públicas. Isso é um bom sinal”.

No que se refere aos livros antigos, a livreira informa: “Repare, nós compramos livros antigos e vemos muitas vezes que as pessoas não sabem o que é que hão-de fazer com as bibliotecas. Levamos trinta anos a comprá-los e víamos problemas familiares porque todos queriam ficar com a biblioteca. Hoje vemos exactamente o contrário, querem é desfazer-se primeiro da biblioteca para ver se os livros vão todos para a rua depressa e bem. Dizem que é por causa do espaço, mas não é, claro que não é. Portanto, mudou tudo em trinta anos”.

Conta, inclusive, que numa conversa com um leiloeiro percebeu que há muitos livros a serem retirados de praça: “É muito mau sinal quando um livro é retirado de praça, porque é retirado pelo preço mínimo. Se ele me diz isso, é porque o livro deixou de ter interesse. Eles (os leiloeiros) é que sabem, é que sentem a temperatura do mercado. Ora, lembro-me de ir a um leilão onde era tudo a espicaçar o mesmo livro. Nós e os particulares, estava tudo ali num frenesim. Hoje metade do leilão é retirado de praça. Isso quer dizer alguma coisa”.

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“Ler modifica as pessoas”

No entanto, não acredita que vá deixar de haver livros, afirmando que “o papel nunca vai acabar”, mas sente que a sociedade se modificou muito. “A vida é cá fora. As pessoas têm dificuldade em isolar-se para ler. Ler é estar sozinho. Não se pode estar a ler com vinte pessoas na sala, ou duas ou três, ou com a televisão acesa. As pessoas querem é barulho e rua. As pessoas não estão para isso, dá muito trabalho. E é perigoso, porque ler modifica as pessoas”.

Lê-se no site da livraria: “Hoje confrontada com um mercado dominado por Golias sediados nas grandes superfícies, a Galileu continua a perseguir o sonho que lhe deu vida: uma livraria – generalista embora – orientada para aquele nicho de mercado que prefere a qualidade e a raridade à espuma passageira do best seller. Ao que Caroline acrescenta que esse é um nicho muito pequeno e que é preciso aumentá-lo.

Faz notar que a geração de agora é diferente, que os livros às vezes se esquecem e que uma das funções da Galileu é fazer lembrar às pessoas que o livro é actual. “Estou a falar-lhe de um Rodrigues Miguéis ou de um Rómulo de Carvalho… Esses livros estão actuais, são temas actuais. O que é diferente é que ninguém os pede. Foram substituídos por outro tipo de autores, foram retirados dos programas escolares… Uma vez retirados dos programas escolares, esquecem-se, não é? Agora, felizmente voltam. Por exemplo, o Contos do Gin-Tonic foi reposto há uns cinco ou seis anos”.

Quanto aos best sellers, a livreira afirma: “O best seller tem muito que se lhe diga… Um best seller é aquilo que se vende mais. Uma pessoa que ganha um Nobel automaticamente se torna um best seller. Quer dizer que o livro que se vende bem, não quer dizer que o livro é lido. As pessoas têm um mau sentido de best seller. O Harry Potter é um best seller e é um excelente livro! Portanto, esta coisa do best seller tem que ser um bocadinho mais pensada, porque nem sempre é assim tão negativo”. E observa: “Vai-me dizer que quando se vende muito não quer dizer que seja de qualidade, mas eu tenho vendido bastante muitos autores com grande qualidade, mas se vão ser lidos já não sei. Não sei se as pessoas lêem muito… Se lessem, modificavam-se um bocadinho. É impossível não se modificarem com a leitura”.

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E a alma da Galileu, qual é?

“A alma é vender livros que nós achamos que não é a espuma de todos os dias… É continuar a teimar em boas traduções, em autores que lemos e de que gostamos e que tentamos passar aos clientes”, esclarece Caroline que já vendeu muitos livros só pelo entusiasmo com que contagiou os clientes, como foi o caso de Djamila, de Tchinguiz Aitmatov, que vendeu cinquenta livros numa semana ou d’ O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago, que vendeu cento e cinquenta livros num mês pela força do seu entusiasmo.

E o que poderá manter aberta durante tantos anos uma livraria “orientada para aquele nicho de mercado que prefere a qualidade e a raridade à espuma passageira do best seller”?

Decerto a formação dos livreiros, o seu entusiasmo e, sobretudo, uma alma resistente.

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Morada:

Av. Valbom nº 24 A  2750 – 585 Cascais

Site: http://www.livrariagalileu.pt/

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10 Comentários

  1. Luis Bento
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    Excelente entrevista. Infelizmente é assim, os tempos mudam, nem sempre para melhor, e o livro começa a ficar confinado a um nicho, cada vez menor, de gente interessada na leitura. Pode ser que mude…

  2. Fantástica…. Percebemos que há gente de corpo inteiro e se dedica assim, àquilo que gosta.
    Tenho uma especial atenção para quem mistura livros “usados e novos” em boa convivência. Sinto o cheiro dos livros e… aroma de rosas e erva cidreira.
    Tenho uma amiga que está vivendo uma história semelhante… (lúmière na cidade do Porto)
    Bem haja, Carolina

  3. Paulo Rato
    | Responder

    Só uma achega, em abono da verdade de uma história que não é pequena. Quando fundou a “Galileu”, o Nuno – como sempre o tratei, porque assim se apresentava -, o melhor livreiro que conheci, com uma memória fabulosa e contactos por todo o lado, o que permitia que conseguisse quase todos os livros que lhe pedíamos, nós, os clientes-amigos, não vinha da Livrelco. Resolvera sair da cooperativa universitária, quando umas criaturas do MRPP conseguiram chegar à sua Direcção e começaram a interferir na escolha dos livros: proibiram, p.e., que vendesse livros do Herberto Helder, porque “era burguês” (ou era a poesia que sofria disso, ou lá o que fosse, não me lembro da exacta expressão da imbecilidade). Foi o próprio Nuno que se me lamentou da boçalidade que lhe tocara pela porta, ainda antes de tomar a decisão de sair. Felizmente, a oposição democrática unitária tinha, entretanto (a seguir às eleições de 1969), organizado uma cooperativa cultural, essencialmente livreira, chamada DEVIR. E foi aí que o Nuno, em voluntária fuga de uma nova censura, tão idiota como a do regime, mas claramente mais deslocada e – para alguns distraídos – inesperada, encontrou o lugar apropriado para continuar a sua missão (mais que profissão). Mais tarde, a PIDE fechou praticamente todas as cooperativas e associações culturais (não me recordo se lhe escapou alguma), incluindo a DEVIR e, naturalmente, a Livrelco (a estupidez não os imunizou). Foi por essa altura que o Nuno partiu para a aventura da Galileu, Também não consigo precisar (já lá vão muitos anos e aqueles foram assaz agitados) se depois do encerramento, se ainda antes. E, infelizmente, morando longe e com muitas ocupações – quer durante o frenesi do PREC, quer depois -, poucas vezes (e só nos primeiros tempos) pude visitar a Galileu.

  4. João Pereira
    | Responder

    Fico-lhe inteiramente grato pela sua entrevista na medida em que veio confirmar as minhas suspeitas em relação aos livros. Contudo, eu sou companheiro de uma pessoa que publicou três livros nos últimos 4 anos e brevemente sairá o quarto, Os seus livros, infanto-juvenis, têm tido um enorme sucesso junto da comunidade local, pais, crianças e jovens e das localidades proximas onde, a pedido das escolas, a autora se tem deslocado. Portanto, pensado na sua entrevista, eu acrescentaria que, como em quase tudo, a aposta tem que ser, sobretudo, nas crianças e nos jovens suscitando-lhe o hábito de ler.
    Obrigado.

  5. Caroline Tyssen
    | Responder

    Claro que sim João Pereira,é por aí que temos de ir.
    Em breve,quando puder comprar livros novos estarei atenta a essa autora sua amiga.
    Obrigada

  6. Caroline Tyssen
    | Responder

    Caro Paulo Rato
    Muito obrigada pela sua informação.Estou a escrever as memórias da Galileu antes que a minha falhe.
    Tudo o que puder ser dito sobre o Nuno (antes da Galileu) completa o retrato.
    Por exemplo memórias da Quadrante.
    Obrigada

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