Fábrica das Palavras: A “fabricar” leitores desde 2014

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Reportagem escritores.online©

Depois do arroz, as palavras

Junto ao Tejo, do outro lado da linha do comboio que tem sido quase uma fronteira entre a cidade de Vila Franca de Xira e o rio, onde, outrora, fora a Fábrica de Moagem e Descasque de Arroz, emergiu a imponência das palavras, numa biblioteca que se une à cidade por uma ponte aérea e se dá pelo nome de Fábrica das Palavras.

Um edifício a apontar para o céu

Vista a partir da escultura de homenagem a Álvaro Guerra da autoria do artista plástico e cartoonista António

O projecto para a construção de uma “fábrica de palavras” no lugar de uma de “descasque de arroz”, surge no seguimento do programa de requalificação da zona ribeirinha da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira que visa aproximar a população do Tejo.

Quando se iniciou a construção do caminho ribeirinho entre Vila Franca e Alhandra, já a antiga fábrica estava abandonada e degradada e “constituía um vazio urbano que afastava as pessoas do rio e que, por outro lado, criava problemas de insalubridade e questões de segurança bastante complicadas”, explica Fernando Paulo Ferreira, vice-presidente e vereador do pelouro da Educação e Cultura da Câmara Municipal. Acrescentando que o objetivo é sempre que possível, e à medida que se vai avançando na qualificação da frente ribeirinha, juntar-lhe espaços verdes e apontamentos culturais que animem e tragam mais actividade e mais pessoas para estas zonas.

No entanto, a Biblioteca Municipal de Vila Franca de Xira não nasceu aqui à beira-rio. Nasceu Biblioteca Museu Municipal Dr. Vidal Baptista, em 1947, e passou por outras instalações como as do Largo da Câmara, e as da Rua do Curral e só em Setembro de 2014 se instala no presente edifício, uma obra de Miguel Arruda Arquitectos Associados distinguida, em 2016, pela plataforma internacional Iconic World na categoria de “Arquitetura” dos Iconic Awards.

Piso 0 e entrada do edifício
Estantes que permitem um acesso directo aos livros

A Fábrica das Palavras que já foi cenário de anúncios publicitários e referência em revistas (como a britânica Blueprint ou a italiana L’Arca) e websites especializados em arquitectura, como o Archdaily, é constituída por sete pisos que recebem os leitores e lhes proporcionam diferentes experiências dentro de um único edifício, sempre com vista para o exterior:

Piso 0: Átrio e Sala Polivalente

Piso 1: Galeria e Zona de Consulta de Periódicos

Piso 2: Secção Infantil/Juvenil

Piso 3: Secção de Adultos/Audiovisuais

Piso 4: Secção de Adultos/Consulta Geral

Piso 5: Áreas de Trabalho Técnico-Administrativo

Piso 6: Depósito de Difusão Documental; Áreas de trabalho Técnico – Administrativo.

A cafetaria, que inicialmente esteve localizada no primeiro piso e hoje, numa fase de transição, se encontra resumida a uma máquina de alimentos, descerá já no próximo mês de Abril, ou Maio, para o piso 0 de forma a que o serviço ganhe uma maior dimensão e uma esplanada. Fernando Paulo Ferreira explica que “a ideia é que ela possa funcionar mesmo fora dos horários habituais da biblioteca, de modo a ser um espaço de convívio mais independente e mais permanente”.

À medida que se vai subindo na Fábrica das Palavras para mais próximo do céu, o vislumbre de diferentes perspectivas da paisagem sobre o rio e a Lezíria, de um lado, e sobre a cidade, do outro, acompanha as leituras e actividades dos seus visitantes e funcionários, como se estes estivessem fora de quatro paredes, ou a paisagem dentro delas.

As palavras dos livros que ocupam as estantes, a música, o teatro, as exposições, os workshops e as palestras ganham uma outra dimensão quando agraciadas pela contemplação do vagar ou da fúria das águas do rio, quando no céu se vêem os pássaros, quando as nuvens se movem ou o comboio passa ao lado da biblioteca.

Ana Cristina Silva, escritora vila-franquense e frequentadora da biblioteca municipal desde sempre, descreve a sua experiência como utente deste espaço: “O edifico é lindo, cheio de luz. Mas além disso, a biblioteca é um espaço dinâmico para os seus utilizadores e com uma excelente política de aquisições. Na minha qualidade de escritora tenho-me deslocado a várias bibliotecas e muitas delas não têm essa política. E acho isso excelente, nesta biblioteca temos acesso a novidades e nunca muito tempo depois de serem publicadas. Além disso, os leitores podem fazer sugestões que são geralmente aceites.”

Isabel Santos, funcionária da Biblioteca Municipal

E acrescenta: “Tenho encontrado sempre material de suporte para quase todos os meus livros. Lembro-me, por exemplo, quando publiquei a Dama Negra da Ilha dos Escravos de ter encontrado na biblioteca um livro que descrevia a vegetação de S. Tomé no século XVI. Depois houve quem pensasse que eu tinha estado na ilha. Agora, por exemplo, ando a fazer pesquisa sobre o Estado Novo e a maior parte dos livros que tenho consultado são da biblioteca.”

Isabel Santos, funcionária da biblioteca há vinte e três anos, refere que a transição para este novo espaço exigiu uma adaptação por parte dos funcionários, pois como costuma dizer em tom de brincadeira: “Passámos de uma casa de duas assoalhadas para uma vivenda. Estávamos ali apertados e confinados e, de repente, temos todo este espaço”.

Uma imponência acolhedora

Exposição “Barbara says…”, patente até 14 de Maio

A Biblioteca Municipal de Vila Franca de Xira não é só edifício bonito, é também um espaço que acolhe os visitantes com serviços que vêm já das instalações anteriores, mas que aqui têm a possibilidade de se expandirem por não terem limitações de espaço como “o trabalho de promoção do livro e da leitura, a formação na área das Tecnologias e Informação e Comunicação (TIC), a formação dos mediadores de leitura”, esclarece Isabel Santos. O facto de não haver essas limitações de espaço, também permite a introdução e novas actividades.

Das primeiras instalações da biblioteca, ainda situadas no Largo da Câmara, Isabel Santos lembra o tempo em que os livros estavam fechados à chave nos armários e em que eram arrumados por alturas, assim como tinham de ser os funcionários a apoiarem e encaminharem os utentes até eles, pois não havia a possibilidade da autonomia que há hoje, em que o leitor se pode dirigir às estantes, consultar e folhear os livros.

Lembra também que foi nos anos setenta, quando a Fundação Calouste Gulbenkian doou cerca de 700 livros à então Biblioteca Museu que se formou um fundo infantil, o que tornou possível que mais jovens se tornassem leitores.

Hoje, esta “fábrica de palavras” oferece uma série de actividades dirigidas a estas faixas etárias. Com as sessões de cinema, os ateliers, a animação da leitura, as visitas guiadas à biblioteca para alunos do 1º ciclo, entre outras actividades, a biblioteca traz o público mais jovem até ela e com ele vêm muitas vezes os pais. Isabel Santos é da opinião que é importante apostar na promoção da leitura trazendo as famílias à biblioteca e, desta forma, ajudar a formar novos mediadores da leitura.

Conta ainda que foi há muitos anos, em 1987, que a biblioteca aderiu ao Programa da Rede Nacional de Bibliotecas Municipais, presente Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (RNBP) e que em 1995, quando passou para as instalações na Rua do Curral, estas depressa se tornam limitadas, devido ao crescimento da importância das TIC que exigiram mais espaço para abarcar este serviço. Hoje, essa limitação de espaço já não é um problema.

A Fábrica a “fabricar” leitores

Fernando Paulo Ferreira, vice-presidente da CM de Vila Franca de Xira

O vice-presidente da Câmara, Fernando Paulo Ferreira, sente que a Fábrica das Palavras tem servido para uma maior aculturação da população, assim como “tem gerado novos públicos por ter uma oferta cultural diversificada”.

Programas regulares como o Jam às sextas, Clássica na Fábrica, Artes de Cá ou os workshops e cursos de escrita criativa que já se realizaram na biblioteca, dirigidos por escritores conceituados como António Mega Ferreira ou João Tordo, são algumas das importantes ofertas culturais para os utentes da biblioteca.

Isabel Santos destaca os estudantes e os reformados como os utilizadores mais assíduos deste espaço, apesar de notar que com a crise houve muitos

leitores que voltaram a frequentar as bibliotecas públicas e a requisitar mais livros. Os estudantes são em maior número na leitura presencial e os reformados na leitura de periódicos que muitas vezes também usam a biblioteca como ponto de encontro e local de convívio.

No entanto, nota que o audiovisual está em declínio, apontado a causa para o tendencial desuso do CD por parte dos jovens.

A funcionária cita António Mega Ferreira para descrever a imagem da biblioteca actual, quando um dia disse que “a biblioteca deixa de ser um lugar onde se guardam livros para ser um lugar onde se encontram pessoas”.

Na Biblioteca Municipal Fábrica das Palavras, podem encontrar-se pessoas, ler livros, ouvir música, assistir a espectáculos e ainda se pode admirar o rio, a Lezíria e a cidade, juntando em si, cultura e lazer.

Apresentação do livro No murmúrio da água com a autora Olga Fonseca
Jam às sextas

Próximos eventos e actividades na Fábrica das Palavras, podem ser consultados no website da Biblioteca, em http://bmvfx.cm-vfxira.pt/ ou na página de Facebook, em https://www.facebook.com/fabricadaspalavras.bmvfx/

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