‘Para mim, a escrita partilha a mesma natureza das sementes prestes a eclodir ou das águas de um rio’

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Entrevistas > Samuel F. Pimenta

Samuel, quando é que surgiu a sua vontade de escrever ficção e de publicar?

Sempre fui uma criança muito imaginativa, brincava a contar histórias a mim mesmo, a representar personagens. O facto de ter crescido no meio rural, muito próximo da natureza, talvez tenha contribuído para que, desde muito cedo, a minha forma de lidar com o real fosse criativa. Uma árvore não era apenas uma planta, era uma árvore falante, uma entidade mágica, uma nave espacial ou um castelo. Ainda hoje, para mim, as coisas não são apenas o que são na realidade, são sempre mais do que isso. Há uma brecha, um espaço criativo que me permite entendê-las além do visível e do material. Comecei a escrever porque senti necessidade de expressar todos esses mundos interiores, todas as vozes que ouvia a contar-me histórias. Foi o modo que encontrei de dar vida a todos os rostos que me observavam. E não aconteceu de forma muito pensada ou estruturada. Já havia uma apetência para a escrita detectada pelas professoras, nas redacções das fichas de avaliação da escola, e até confesso que era essa a minha parte preferida dos testes. Daí até começar a escrever em casa, por iniciativa própria, foi natural. E ainda é natural. Para mim, a escrita partilha a mesma natureza das sementes prestes a eclodir ou das águas de um rio. Tem uma condição selvagem, orgânica. Escrever é só uma forma de expressar a natureza que eu sou. E lembro-me de, ao terminar de escrever o primeiro conto, com 10 anos, pensei de imediato em publicar – com a ingenuidade da infância. Foi nesse momento que soube que queria ser escritor.

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

Mais do que a inspiração, são as ideias, e essas vêm da vida que vivo. Dos filmes que vejo, dos livros que leio, das pessoas que conheço, das notícias que aparecem nos jornais, das vivências que tenho, do que penso sobre o mundo. Penso que a inspiração para um livro – se é que posso chamar-lhe de inspiração – é um resultado de tudo isso. E aparece. E é insuportável não lhe dar ouvidos, não escrever sobre o que quer ser escrito.

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?

Começo a perceber – e não foi algo planeado nesse sentido – que a liberdade tem sido a coluna vertebral dos meus últimos livros.

Que aspetos destacaria relativamente à sua mais recente obra; “Iluminações de uma Mulher Livre”?

É um livro sobre a sociedade patriarcal em que ainda vivemos, sobre os movimentos de controlo e de formatação a que estamos sujeitos, grande parte deles violentos, mas também sobre o sonho – diria mesmo a utopia – de um mundo organizado horizontalmente, sem fronteiras, sem tentativas de domínio e de predação sobre as diversas formas de vida, em que comunidades circulares abertas comunicam para evoluir conjuntamente de forma a viver na Terra em harmonia.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritor?

Cada vez que inicio a escrita de um livro. E a primeira vez em que o apresento ao público. Depois, entre todos os eventos, viagens e prémios, destacaria o momento em que fui convidado para estar na Feira do Livro de Frankfurt; o mês de Agosto de 2014, que passei no Brasil, para receber um prémio e participar na Bienal do Livro de S. Paulo, a convite da Literarte – Associação Internacional de Escritores e Artistas; e o dia em que soube que o meu livro “Ágora” acabava de receber o Prémio Literário Glória de Sant’Anna. São episódios que ainda estão muito vivos na minha memória e que me fizeram (ainda fazem) muito feliz.

O que é, para si, um bom livro? 

Um livro cujo texto, independentemente do género literário, tenha como fim a sublimação da linguagem. A poesia.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

Um escritor com uma proposta de ideias para o mundo, alguém que tenha uma visão própria. Um escritor livre.

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

Posso destacar Padre António Vieira, Sophia de Mello Breyner Andresen, José Saramago, Marguerite Duras, Clarice Lispector, Rumi e Luísa Demétrio Raposo. Quanto aos livros, recomendo:

– “Mensagem”, de Fernando Pessoa;

– “Mulheres que Correm com os Lobos”, de Clarissa Pinkola Estés;

– “Xerazade – A Última Noite”, de Manuela Gonzaga;

– “A Conferência dos Pássaros”, de Farid Ud-Din Attar;

– “Antígona”, de Sófocles;

– “Medeia – Vozes”, de Christa Wolf;

– “Viagem ao País da Manhã”, de Hermann Hesse.

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