‘Gosto de ouvir os outros, cada pessoa tem em si milhões de histórias’

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Entrevistas > Raquel Serejo Martins

Raquel, quando é que surgiu a sua vontade de escrever ficção e de publicar?

Sempre escrevi. Na escola primária comecei a encher cadernos de coisas a que não sei nem me interessa dar nome, coisas que já não existem, que sem a mão da Inquisição sucessivamente foram parar à fogueira, à lareira da casa, que os Invernos transmontanos não se encolhem ou melindram por ver queimar má literatura, depois, na universidade, a trabalhar na RUC (Rádio Universidade de Coimbra) escrevi as primeiras crónicas.

E comecei a escrever o que viria a ser o meu primeiro romance pouco depois de começar a trabalhar, um livro que me fez companhia durante as atribulações dos três primeiros empregos, três casas, três cidades, e ao escrever isto percebo que “A Solidão dos Inconstantes” foi o meu balão de oxigénio.

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

A palavra inspiração provoca-me urticária, por ser coisa que não existe, ou eu incompetente a procurar.

Se substituir a palavra inspiração por atenção, posso dizer que sou uma pessoa atenta, principalmente às pequenas coisas, às coisas pequenas, há histórias até nas lesmas.

E gosto de ouvir os outros, cada pessoa tem em si milhões de histórias, umas comezinhas outras extraordinárias, as minhas preferidas são as comezinhas porque me obrigam a descobrir, a inventar o lado extraordinário, o que nos permite sobreviver a isto.

Em rigor, prefiro substituir a palavra inspiração por trabalho.

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?

Temas na escrita é outro rótulo pelo qual nutro antipatia, gosto ou preciso, mais preciso do que gosto, de escrever sobre o que me incomoda, a rotina, a solidão, a velhice, a morte, o meu pai, as relações, os vícios, as fraquezas, as pessoas, as pessoas, as pessoas.

As pessoas, o miolo, o indizível, o incontável, são a minha uma obsessão.

E sobre tudo isto um paradoxo, porque escrevo sobre pessoas que em rigor não existem.

Que aspetos destacaria relativamente à sua mais recente obra; “Aves de Incêndio”?

Não pelo livro, mas por mim, foi um livro onde arrumei a infância, a adolescência, a juventude e onde, timidamente, comecei a arrumar os dias da idade adulta.

Assim, é essencialmente um livro de Verão e adolescência, com toda a liberdade e sonho e solidão que isso tem dentro.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritor?

As pessoas, agora tenho amigos escritores, pessoas estranhas como eu, pessoas que percebem a minha estranheza e, como diz a canção, coisa mais preciosa no mundo não há.

O que é, para si, um bom livro? 

Em termos de história, os que me mostram o tamanho incomensurável da minha ignorância.

Em termos de forma, os que me fazem dizer para mim, eu não sabia que se podia escrever isto assim, virar as palavras do avesso e escrever assim.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

Não sei, apenas percebo que um bom escritor é um bom leitor assim como um bicho curioso quanto ao funcionamento do mundo, das pessoas, das coisas e etc.!

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

Sob a condição de portugueses e a respirar felizes escolho João de Melo, António Lobo Antunes, Paulo José Miranda, Valério Romão, Bruno Vieira do Amaral, Afonso Cruz, faltam-me mulheres, este também é um mundo excessivamente masculino, Ana Teresa Pereira, Dulce Maria Cardoso, Maria Velho da Costa, Cláudia R. Sampaio, Patrícia Reis, Julieta Monginho… e aposto e não perco que me estou a esquecer de tantos que gosto.

Quanto a livros, sob a mesma condição, das últimas leituras gostei muito de “Alcatrão” de Luis Brito, “Estufa” da Catarina Santiago Costa, “Pai Nosso” da Clara Ferreira Alves, “A Gorda” de Isabela Figueiredo, “Ana de Amsterdam” da Ana Cássia Rebelo, “Última Paragem Massamá” de Pedro Vieira, “Senhor Roubado” de Raquel Nobre Guerra, “Vem à Quinta-Feira” de Filipa Leal e etc. etc. etc. até parece que não sou boa a fazer contas.

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