‘São necessários muitos ingredientes para um escritor conseguir fazer magia’

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Entrevistas > Raquel Ochoa

Raquel, quando é que surgiu a sua vontade de escrever?

Aos treze anos mantinha diários que sempre me exaltaram. A experiência exaltava-me.

Mas só aos 25 anos, depois de uma viagem de seis meses a percorrer a América latina, e ao tentar relatar a experiência em “O Vento dos Outros” comecei a escrever com o intuito de publicar.

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

É um mundo errático. Sou seduzida por histórias escondidas pelo passado e vertidas em romances históricos, por percursos que considero fascinantes nas biografias, ou por viagens que me transformaram a percepção das coisas – por isso também me aventuro na escrita de relatos de viagem.

Ou pelo menos foi o que aconteceu até agora. Não me admirava que me sentisse inspirada um dia pelos penteados das alpacas e pusesse mãos à obra.

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?

Uma vez que muitas das tramas se passam fora de Portugal, há sempre uma certa tropicalidade, e nesse ambiente há o amor, o dar luta às derrotas da vida, inventar caminhos, a vontade de compreender o que não faz parte da nossa cultura, a liberdade – individual e colectiva, normalmente tentando enraizar estes temas em quadros históricos.

Que aspetos destacaria relativamente ao seu mais recente livro; As Noivas do Sultão ?

É uma história inacreditável e mesmo assim aconteceu de verdade. Descobri-a em Marrocos. O barco onde viajava o harém do sultão, em 1793, apanha uma tempestade e é arrastado para os Açores onde é salvo in extremis. São essas concubinas que chegam a Lisboa e vão gerar um incidente diplomático à corte portuguesa e sobretudo a Frei João de Sousa, o tradutor. Por mais que preferisse os recantos da sua biblioteca, ele vai ter a vida daquelas mulheres nas suas mãos e terá de agir de forma pouco diplomática.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso literário?

Começar. Decidir e, independente das consequências, escrever os livros com que tudo começou.

“O Vento dos Outros” a biografia do cantor Bana e ” A Casa-Comboio” fazem parte dessa primeira parte em que não sabia para onde ia e ao mesmo tempo nada me podia parar.

Depois, o prémio Agustina Bessa-Luís.

E agora, por escrever se ter transformado na vida em si.

O que é, para si, um bom livro? 

São necessários muitos ingredientes para um escritor conseguir fazer magia.

Mas se o livro tem a habilidade de me fazer sair deste umbigo que é o meu, já cumpriu a função de fazer o mundo um lugar mais comunicante.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

A honestidade com que escreve. A mestria da linguagem e a paixão com que conta histórias. O tempo que dedica a observar mundo e/ou o génio com que cria mundos só por ele apercebidos.

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

Prosas Bárbaras – Eça de Queirós; Shantaram – Gregory David Roberts; O Lobo das Estepes – Herman Hesse; Memórias de Adriano – Margueritte Yourcenar; Os Filhos da Meia Noite – Salman Rushdie; A Escada de Istambul – Tiago Salazar; Patagónia – Bruce Chatwin.

 

2 Comentários

  1. Fernando Farah
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    Vejo com bons olhos e ouço com carinho novas vozes (e femininas!) como esta Renata Ochoa, ou Martha Medeiros (Jóquei), a contribuir para o imaginário lusófono e mundial. Parabéns!

  2. Naquib Hassamo
    | Responder

    Raquel Ochoa .
    Verdades vertes e enriqueces a língua.
    A nossa língua.

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