‘A prosa exige muita oficina, muito suor, perseverança e trabalho’

com 1 comentário

Entrevistas > Pedro Guilherme-Moreira

Pedro, quando é que surgiu a tua vontade de escrever ficção e de publicar?

A resposta a esta vai logo na badana do primeiro livro, “A manhã do mundo”. A professora da 2ª classe pediu-nos para escrever uma fábula e eu transformei-a numa formiga. Era o que me apetecia fazer, mas pensava que estava a ter um atrevimento que seria severamente punido. Eu era bem comportado. Tinha tido dificuldades na primeira classe por excesso de medo. A professora Laura tirou-me o medo todo quando me ensinou a fazer contas de dividir, no primeiro dia, e me deu a nota máxima e elogios por ter feito a loucura de a transformar em formiga. A partir desse dia, achei que tudo era possível. A literatura faz isso. Transforma-nos em gajos perigosos. Mais valia ser medricas.

Onde é que, por norma, encontras a inspiração para escrever as tuas obras?

Temos de distinguir a poesia da prosa e do teatro, para falar só em três géneros. A poesia já lá está, é nossa responsabilidade reduzirmo-nos à mesma formiga da fábula para transportar a poesia e a mostrar ao mundo. Nem sempre o fazemos bem. Quando nos apagamos completamente, mesmo que sejamos o objecto do poema, um ou dois de nós chega lá, de vez em quando – a poesia é talvez o processo biológico mais próximo da inspiração. A prosa exige muita oficina, muito suor, perseverança, trabalho – eu quase só vejo inspiração no primeiro acto, aquele que nos obriga a parar tudo para registarmos a possibilidade de um novo livro. Finalmente, o teatro: nunca tive tanto prazer como quando escrevi para teatro. Estava lá, no palco, e tudo aconteceu ao mesmo tempo nas teclas e no papel. Uma sensação maravilhosa e terrível, ao mesmo tempo. Mas neste gajo perigoso há um denominador comum, seja na literatura, seja num jogo de voleibol: vísceras.

Quais as temáticas mais presentes na tua escrita?

Estava preparado para ser evasivo, como nos ensinou Bukowski, mas na verdade tenho-as: levar-nos para as margens da natureza e da condição humana. Tenho quase um desespero de nos observar lá, onde nenhuma minudência pode importar, de perceber o que realmente importa. Como fiz nas torres gémeas. Descrevi os suicidas e depois tirei-lhes a carne e vesti-me neles, para que sentíssemos o mesmo que todos os três mil mortos. Eu e todos os leitores. No Livro sem ninguém tirei-nos do mundo e li-nos lá. Um livro sem personagens grita gente por todos os lados. Noutros, inéditos, reverti as metamorfoses. No novo, “Saramaguíada (a invenção de Pilar)”, obriguei a ideia de Saramago a fazer as vezes de Quixote e levei-o de barca aos limites da literatura e do próprio amor, que são coisas diferentes, embora aquela contenha este e este não contenha aquela.

Que aspetos destacarias relativamente ao livro que publicas este ano, o terceiro, “Saramaguíada”?

A Pilar chega a Lisboa para conhecer fisicamente o Saramago a 14 de Junho de 1986, estávamos nós a aturar Saltillo e o México 86. É o Diassaramago, que se celebrou ontem. Nesse dia, levámos no corpo de Marrocos, 3-1, um golo do Diamantino. E nós, eu e vocês, não vamos dar descanso à ideia de Saramago, que renasce para isto, como renasce a cada leitura dos seus próprios livros. Mostro a Pilar pré-1986. Achei que devia. A Pilar faz parte da nossa literatura, é uma realidade, não podemos fingir que não, não devemos fingir que não. Não mostro a vida comum deles. Mostro-os depois da morte dele. Cruzo o mundo ideal com o mundo real de uma forma muito prosaica e simples, desde que ninguém se agarre ao tempo. O tempo, sendo tudo, importa pouco para as ideias, que, como sabemos, vão, voltam, são recicladas desde as cavernas – às vezes são relativamente novas, mas nunca são novas, ao contrário dos livros – claro que ainda não se escreveu tudo e os livros são mesmo novos, quando são. As ideias sobrevivem no tempo, mas também apesar do tempo. Assim, levo o Saramago a conhecer o Eça e a Maria Amália Vaz de Carvalho por motivos frívolos, que é o que tantas vezes fazemos no “meio”. Dou-lhe uma missão banal. Obrigo-o a aturar o jovem Pessoa e o seu cão Shadow e a levá-los nessa missão. O jovem Pessoa apaixona-se pela Annabel, do Lolita, do Nabokov, o que se torna um problema, porque Nabokov determinou que Annabel morresse de Tifo em Corfu. O jovem Pessoa sabe disso e quer evitá-lo a todo o custo. Em Corfu, ou numa espécie de Corfu, chamada Ilha dos Jornalistas sem Cabeça (onde reflicto sobre jornalismo e sigo os últimos passos do jornalista mártir brasileiro Vladmir Herzog) Saramago é julgado em público e defendido pelo Padre António Vieira. Encontra-se com O’Neill em Lisboa e com Virginia e Leonard Woolf numa ilha parecida com Amalfi, assim como com muitos outros escritores brasileiros, portugueses, espanhóis. Levo-o à Tormes de Eça comer o célebre arroz de favas. Encontra-se com Voltaire em Paris e com a mãe de Pessoa em Davos, numa volta de Montanha Mágica. E com vários vultos nas barcaças que o levam para aqui e para ali. Enfim, o livro nem é grande (cerca de 320 páginas), mas para mim tem um certo infinito, como aquelas pistas de aeroporto infinitas que querem agora construir, porque são circulares. Ah, e temos uma personagem arrepiante (temos várias, mas esta é principal): a própria Leni Riefenstahl, a cineasta do Hitler.

Quais os momentos mais marcantes no teu percurso enquanto escritor?

Encontrar os editores e os leitores de todas as idades. A emoção de ver um editor de grande qualidade mostrar-nos que a grande merda que fizemos, quando pensávamos (não pensamos todos) em obras maestras, como dizem os espanhóis. A Pedreira, que me deu a mão para lá deste muro alto da edição, apesar de termos feitios e ideias muito diferentes (creio que nos estimamos e respeitamos muitíssimo). A Virgínia do Carmo, pela humildade e pela coragem. E tantos leitores, dos 11 aos 97. As visitas às escolas são um profundo privilégio, apesar de precisarem de uma afinação de egos e métodos pedagógicos. Todo o ensino do português precisa. Não se ensina a ler nem a escrever, que é o fundamental. Exagera-se em grelhas numa “ciência” de máxima subjectividade. Só os grandes professores de português nos salvam.

O que é, para ti, um bom livro? 

Não me meto na definição universal do bom livro, que não existe. Para mim é fácil ver um mau livro, mas aprendi que quem os escreve, se tiver a humildade de os destruir e avançar, pode vir a escrever bem. Quase sempre, os livros mal escritos são escritos por maus leitores. Mas há bons leitores que não conseguem encontrar a voz e a técnica. A pressa em publicar não serve de nada. Mais vale ser injustamente recusado do que auto-publicar sem crivo e a ciência do editor. Isto era um mau livro. Um bom livro, para mim, só para mim, é um livro que me pendura pelos cueiros, que me faz praguejar do quão bom é, que me faz desesperar por não conseguir “resolver” aquela voz, que quero sempre desesperadamente plagiar para aprender a fazer parecido. É, cada vez mais, o livro que me mostra oficina. Ouvi dizer, um destes dias, já não sei quem nem sobre quem, que o bom livro e o bom escritor deixam as costuras à vista. Nem que tenham de as esconder no processo.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

Ser simples, não emitir opiniões como sentenças erga omnes e deixar-se de merdas. Lutar pelos livros todos, não só pelos seus. Ser humilde perante o leitor e o editor. Colocar o leitor no topo da pirâmide. Saber parar e questionar. Não atacar publicamente os pares, mas criticá-los e pensá-los muito em privado e olhos nos olhos ou até nas costas, se ele não estiver por ali, desde que tenha a decência de, na primeira oportunidade, dizer na frente o que pensa. Não ser subserviente ao statu quo vazio, mas respeitar os decanos, a sabedoria e a erudição, lutando por uma nova. E, se, no final de tudo, for uma reles pessoa, que se meta em casa ou no escritório e se dedique obcecadamente à literatura, para não magoar mais ninguém e fazer o bem aos vindouros, poupando os contemporâneos. Se for uma reles pessoa, por favor não escreva no facebook.

Para terminar, gostaríamos que nos indicasses os teus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

Gosto muito de muitos portugueses, mas vou optar por não indicar nenhum. Porque os clássicos não precisam e porque não é por mim que os novos terão mais leitores. Tenho, no entanto, de dizer duas coisas: o Pessoa é omnívoro e deve ser consumido com tento. Contra mim falo, porque o tenho em todo o (novo) livro, embora jovem, criança. E deixem de opinar sobre o feitio da Ana Teresa Pereira como se fosse um ser humano, porque ela também já é um mito. O maior mito britânico português. Portanto, quanto ao restante, Proust – Recherche, tem de ser. Bukowski também, qualquer um. Bachelard e Platão (e este inclui Sócrates, como sabemos, porque Sócrates não escreveu uma linha), idem. Colette, que não é só para gajas (essa era um das parvoíces), Chéri. Qualquer poetisa que não chame a si própria poeta vale a pena, só por isso, embora não deva ser excluída das escolhas só porque usa um adjectivo de género masculino sobre si própria. Os sábios de rua de todas as aldeias do mundo, e que cada vez escutamos menos, com a excepção do Fernando Alves. Insisto na Bíblia, no Dom Quixote, na Karen (os meus são íntimos, digo depois). La arte de quedarse solo, de García Martín. Se isto é um homem, Primo Levi. Já chega. Obrigado!

.

Um comentário

  1. Clara Amorim
    | Responder

    Excelente entrevista…!
    O Pedro escreve como poucos escreveram no passado (como nenhum no presente) e sente e pensa como um ser humano inteligente, lúcido e visceral (palavra que ele tanto gosta e que se aplica na perfeição em tudo o que é e transmite através da sua escrita, seja ela prosa, teatro ou poesia).

Comentar