‘O que me inspira a escrever é o sonho de tudo o que eu poderia ter sido e não fui’

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Entrevistas > Pedro Maciel

Pedro, quando é que surgiu a sua vontade de escrever ficção e de publicar?

A minha vontade de escrever surgiu quando descobri que através da literatura eu poderia ser todo mundo e, ao mesmo tempo, ninguém. Confesso-lhe que, quando eu era muito jovem, pensei em ser astrónomo ou arqueólogo, ou seja, pensei em viver reparando os astros e estrelas ou viver estudando a cultura dos nossos antepassados. Admiro os povos que fracassaram porque acreditavam que o seu destino era guiado pelas estrelas. Aliás, olho para o céu e me espanto com a minha insignificância. Somente os homens insensíveis e os porcos não olham para o céu.

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

O que me inspira a escrever é o sonho de tudo o que eu poderia ter sido e não fui. “A vida é um sonho”, afirma Calderon. A vida não é sonho, mas pode vir a ser um sonho. Há dias em que me desperto, mas continuo sonhando. O que mais me inspira e provoca a escrever é o caos social em que vivemos, a beleza quase insuportável do cosmo e o templo inabitável da música. Escrevo e rescrevo a exaustão em busca do som e do sentido das palavras. Leio em voz alta para detectar a música e o silêncio da minha sintaxe. Concordo com Walter Pater que diz que “toda a arte aspira à condição da música”. Aliás, os meus romances são tão sonoros que podem ser lidos de olhos fechados.

Que aspetos destacaria relativamente à sua mais recente obra; “A noite de um iluminado”?

Em “A noite de um iluminado” inspirei-me nos princípios astronómicos de Galileu, na metodologia de Leonardo da Vinci, na estrutura psicológica de alguns dos personagens de Shakespeare e no linguajar sertanejo de Juca Bananeira, amigo de minha mãe e personagem de Guimarães Rosa.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritor?

O momento mais marcante ocorreu no dia em que descobri que escrevia para os leitores do meu tempo. Meus livros são muito contemporâneos e, por isso, às vezes a crítica pensa que o meu romance  é um livro de filosofia ou de poesia ou ainda de astronomia.  Eu sempre digo que o meu romance é o que o leitor quiser que ele seja. O leitor é mais importante do que o autor, apesar de muitos escritores discordarem de mim. Afinal, não há literatura sem leitores.

O que é, para si, um bom livro?

Um bom livro é aquele que comove o leitor e o leva para outros tempos sem que ele tenha necessariamente de se movimentar no espaço. Só a literatura, a arte, o amor, que quase ninguém conhece, e o sonho, são capazes de nos comover. O resto é discussão literária ou falação filosófica.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

Creio que é muita arrogância do escritor divulgar regras de como se tornar um bom escritor ou mesmo explicar o que é o romance, o conto ou o poema. Acho um absurdo escritores ministrarem cursos para ensinar a escrever romances ou poemas. Não se pode ensinar a ser poeta. Cursos de “escrita criativa” é uma redundância linguística. Toda escrita é naturalmente criativa. Por causa destes cursos de final de semana, vivemos num tempo de jovens escritores antigos, diluidores sem nenhuma personalidade ou originalidade.

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

Odisseia, Homero

Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust

Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa

Os ensaios, Michel de Montaigne

Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis

Ulisses, James Joyce

Divina Comédia, Dante Alighieri

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Pedro Maciel, escritor e artista visual,  é autor dos romances “A noite de um iluminado”, ed. Iluminuras, “Previsões de um cego”, ed. LeYa, “Retornar com os pássaros”, ed. LeYa, “Como deixei de ser Deus”, ed. Topbooks e “A hora dos Náufragos”, ed. Bertrand Brasil

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6 Comentários

  1. Belíssima entrevista, Pedro!

    • Pedro Maciel
      | Responder

      Obrigado, querida poeta Maria João Cantinho.

  2. Marina Bueno Cardoso
    | Responder

    Ótima entrevista Pedro querido e sumido. Sdds bjuss
    Marina Bueno Cardoso

  3. Pedro Maciel
    | Responder

    Obrigado, querida Marina Bueno.

  4. Suzana Coelho Maciel
    | Responder

    Pedro meu mano querido Parabéns . Entrevista maravilhosa e emocionante. 👏👏👏🎶 A arte é o combustível para quem a vive. Show.

  5. Pedro Maciel
    | Responder

    Obrigado, querida Suzana. Abraço

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