‘Normalmente, as coisas mais fascinantes da vida são aquelas que não planeamos’

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Entrevistas > Maria Inês Almeida

Maria Inês, quando é que surgiu a sua vontade de escrever ficção e de publicar? 

Nas crianças; sempre fui muito atenta às suas perguntas, respostas, diálogos – e fascinam-me por tudo aquilo que conseguem dizer e pensar. As crianças não se esquecem de sonhar, e isso é encantador. Mas nunca tinha pensado escrever para crianças, sempre quis ser jornalista quando era adolescente, mas desde que o meu filho nasceu, há nove anos, tudo mudou e as coisas foram-se proporcionando. Quando dei por mim já estava a escrever e a entrar no mundo dos livros para crianças de uma forma não planeada. Normalmente, as coisas mais fascinantes da vida são aquelas que não planeamos.

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

Às vezes há projectos que quero muito fazer, outras vezes também projectos que me propõem, mas o desafio é mesmo esse, essa diversidade de coisas. Até porque quando se fala de escrever para crianças, elas também vão desde os dois ou três anos em que começam a despertar para os livros, até às idades de 13, 14 anos. Depois, aí, já são outros livros, não os chamados livros para crianças. A escolha de temas também é muito interessante. Por vezes nasce de uma forma muito espontânea, outras vezes da realidade, outras vezes de ideias do meu filho ou de uma viagem. Mas é, quase sempre, o José, meu filho, que me dá as ideias.

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?

Comecei a escrever biografias para crianças e a primeira foi sobre a Amália Rodrigues. Eu já tinha muito material sobre a Amália e por saberem disso é que me convidaram para escrever uma biografia dela.

Agora, quando se gosta de escrever, acho que acabamos por nos adaptar a tudo. Acabou por acontecer comigo de uma forma muito natural, descobri esse prazer de escrever para crianças, essa técnica. O facto de começar por biografias fez com que ainda estivesse relacionada de certa maneira com o jornalismo, porque um dos motivos pelo qual eu sempre quis ser jornalista foram as histórias que as outras pessoas tinham para contar. Essa curiosidade boa que um jornalista tem de ter é algo que tento passar ao meu filho: curiosidade pelo mundo, pelas pessoas.

Almeida Garrett, Almada Negreiros, Amélia Rei Colaço e Michael Jackson. Depois comecei a fazer um livro com um tema que há muito tinha na cabeça. Chama- se ‘Sabes onde é que os teus pais se conheceram?” e pretendia ser um veículo de diálogo entre pais e filhos, porque, por vezes, é um bocadinho tabu os pais contarem a história de como tudo começou, e as crianças acham que começou tudo da mesma maneira, que os pais se encontraram na escola, porque acaba por ser essa a realidade delas. Foi muito giro fazer esse livro, porque constatei que não eram só as crianças que não sabiam onde os pais se tinham conhecido, mas também os adultos de outra geração. Antigamente não se falava sobre isso.

As biografias mais recentes foram sobre Malala e Nelson Mandela.  Mas surgiram muitos livros entretanto. A saber: “As Nuvens”, “A Minha professora”, a colecção “Simão o Pequeno Leão”, a colecção “Duarte e Marta” (que escrevo em co-autoria com o Joaquim Vieira), etc.

O ano passado, de uma forma simbólica, tentei falar sobre a crise dos refugiados no livro “Diário de um Migrante”. É a história de um pássaro que também deixa a família por causa da guerra e que está no barco, a partir ainda não sabe muito bem para onde.

Mas nos meus livros deixo sempre uma mensagem de esperança, é um dos cuidados que tenho quando escrevo para crianças. Uma mensagem de esperança e uma mensagem de que os heróis não estão só nos desenhos animados, que há pessoas de carne e osso que são heróis. Tento que as crianças olhem para os outros de uma forma mais especial e bonita, e que percebam que também elas podem mudar coisas e ser inspiradas pela vida dos outros. Contudo, também gosto de  pensar em  livros que estimulem a imaginação das crianças, o sonho, uma forma poética de ver o Mundo.

Que aspetos destacaria relativamente à obra “Quando Eu For… Grande”, que acaba de ser eleita LIVRO DO MÊS escritores.online/Camões, I.P.?

Quero agradecer a todos os leitores que votaram e o meu muito obrigada também à Coordenação de Ensino de Português no Estrangeiro, EUA, em Boston, ao escritores.online e ao Instituto Camões pela escolha do livro “Quando eu for… Grande” para votação.

“Quando eu for… Grande” é um livro muito especial, um dos meus primeiros. Foi o meu filho que me deu a ideia. Ele tinha três anos, uma vez chegámos à praia e ele disse-me ‘Mãe, onde é que está a porta da praia? Quando eu for grande vou descobrir onde está a porta da praia?’. Porque tudo para ele tinha uma porta – a casa, o supermercado, a igreja, o carro, a escola. Foi uma pergunta tão bonita, tão ingénua, que eu pensei que tinha de fazer um livro sobre isto de ‘quando eu for grande’, mas não o ‘quando eu for grande’ das profissões; o ‘quando eu for grande’ dele era porque ele desejava muito ser grande, para que acontecessem coisas. Este livro é sobre esses desejos tão simples de quando se é miúdo. Como ‘quando eu for grande vou comer todas as pastilhas elásticas’, porque a mãe provavelmente não deixa comer todas as pastilhas elásticas. Isso é muito engraçado porque, se pensarmos um pouco e recuarmos, nós desejamos sempre ser grandes – para ter a carta de condução, para entrar numa discoteca, para um dia trabalhar e ter dinheiro. Vamos tendo sempre imenso desejo de crescer. Este livro termina de uma forma importante: quando eu for grande não me quero esquecer que um dia fui criança. Isso é muito pertinente: continuarmos a crescer, mas nunca nos esquecermos que fomos crianças e não termos vergonha de certas coisas, de continuarmos a ser crianças nessa ingenuidade e nessa leveza.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritora? 

Felizmente têm sido vários os momentos marcantes. Nestes 9 anos cada vez que nasceu um livro (e já nasceram mais de 30) foi um momento marcante. E o facto de ter publicado na China, Colômbia e no México. E todas as idas às comunidades portuguesas no âmbito do incentivo à leitura do Instituto Camões, através do qual já tive oportunidade de estar em países como os EUA, Canadá, Austrália e Timor.

Mas também todas as idas a escolas são momentos marcantes, porque os jovens partilham muitas coisas e fazem muitas perguntas. Isso faz-nos perceber aquilo de que gostam e que os motiva. Acho que é muito importante percebermos que, tal como nós não gostamos de ler tudo, também eles são assim. Para uma criança que não tem a rotina da leitura – porque a leitura acaba por ser uma rotina que tem de ser criada – os temas são muito importantes. É importante o pais darem às crianças livros sobre os temas de que elas gostam, mas também darem o exemplo, serem também eles leitores. As crianças absorvem muita coisa através do exemplo, não só a leitura. Podemos dizer a uma criança: ‘Tens de ser generoso’. Mas se a criança não vê a família ajudar os outros, acções em que ela percebe o que é a generosidade, não vai entender tão bem.

O que é, para si, um bom livro? 

É um livro que se torna indispensável.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

É uma pergunta eterna. Mas um bom escritor é alguém que consegue produzir obras que marcam.

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

“Animal moribundo” de Philippe Roth; “Aquele Amor” de Yann Andréa; “O Museu da Inocência” de Orhan Pamuk; “Frei Bento Domingues e o Incómodo da Coerência” (Coordenação Maria Julieta Mendes Dias e Paulo Mendes Pinto); “O amante de Lady Chatterley” de D.H.Lawrence; “O Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa; “A cartuxa de Parma” de Stendhal; Sophia (Obra Poética); “Diário” de Etty Hillesum; “O Monte dos vendavais” de Emily Brontë.

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