‘Os escritores andam sempre a ver inícios de histórias em tudo’

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Entrevistas > Margarida Fonseca Santos

Margarida, quando é que surgiu a sua vontade de escrever ficção e de publicar?

A verdadeira resposta é um pouco fraca. No fundo, nunca me passou pela cabeça escrever, mas fui sempre uma leitora compulsiva, ainda sou, e vivia rodeada de histórias. A certa altura, coincidiram no tempo dois acontecimentos: inventava, enquanto brincávamos com carros e comboios (o meu sonho de infância por realizar), histórias a partir de frases ou personagens. Começou a ser um hábito, e foi apenas quando uma grande amiga as ouviu e começou a insistir para que as escrevesse que comecei a pensar nisso. Ao mesmo tempo, passei por um dos momentos mais duros da minha vida, com duas pessoas (mãe e irmã) com graves problemas de saúde. A minha irmã salvou-se, a mãe não. E foi no dia em que fazia anos (juntamente com um dos meus filhos e a minha mãe, que na altura já não estava connosco) que agarrei num papel e chorei todas as dores dos últimos meses. Deitei tudo fora, mas entendi como a escrita era significativa para mim. Redigi então as histórias que inventava para os meus filhos (muitas foram para o lixo, precisava de apurar a escrita!) e contos de adultos. Dois anos depois, saiu o primeiro livro, no ano seguinte ganhei o Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca ― ganhei alento. Daí a largar a profissão que tinha (fui anos e anos professora de formação musical) passou muito tempo. Por fim, decidi-me. E não estou arrependida.

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

Penso ser do António Mota a frase em que diz que somos ladrões de histórias. Acredito nisso. Às vezes são frases ouvidas, situações inesperadas, palavras mal ouvidas (oiço mal, o que dá azo a muitas coisas insólitas), atitudes de animais, objectos que ganham vida. Os escritores andam sempre a ver inícios de histórias em tudo, ou seja, «roubamos» ideias em todo o lado. Outras vezes, são os temas que me empurram para escrever.

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?

Escrevo muitas histórias pelo simples prazer de contar uma história que nos divirta, ou comova, ou nos ponha a pensar. Mas tenho a sensação de que a minha escrita tem a missão (perdoem-me o termo) de ajudar a superar fases difíceis da vida. Por isso, temas como o bullying, a loucura, o alcoolismo, as doenças crónicas e a dor, a morte e como sobreviver à perda, enfim, são para mim uma forma de trazer à luz o desespero (ou luto), a zanga, a infelicidade, mas também os caminhos alternativos que podem surgir. É difícil, mas tento sempre deixar vários caminhos abertos, sem impor o meu, para que o leitor possa concordar ou discordar, mas que se empenhe em procurar o que é verdadeiro para si.

Que aspetos destacaria relativamente à sua mais recente obra; “Está nas tuas mãos”?

Este romance foca a vida de um rapaz a quem é diagnosticada uma artrite idiopática juvenil. As doenças reumáticas estão (nas nossas cabeças despreocupadas) associadas a pessoas mais velhas, mas podem atacar crianças de seis meses. No romance passamos pelas fases típicas de negação, revolta, vergonha perante os outros adolescentes, resistência aos medicamentos diários, mas também pela responsabilização face ao futuro, sobre formas de controlar melhor os dias piores, sobre a amizade dos que nos rodeiam e como ela pode ser um grande apoio. Já tinha escrito antes sobre este tema («De zero a dez», para adultos), e foi uma das muitas pessoas que entrevistei para o construir que conheci a Dra. Filipa Ramos, reumatologista que segue muitos jovens com estas doenças e que prefaciou o «Está nas tuas mãos». Pediu-me para criar um livro para jovens, e foi-me impossível resistir a este pedido ao ouvir as histórias que tinha para partilhar comigo. No lançamento, momento muito emotivo, apareceram famílias com quem falara, médicos e enfermeiros, e foi reconfortante saber o quanto o livro pôde fazer por eles. É um livro com esperança e muita solidariedade, e espero que possa igualmente esclarecer professores e familiares, que não entendem como a doença se comporta.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritora?

Receber o Prémio Manuel da Fonseca, em conto, o meu género preferido e que, infelizmente, quase não se publica em Portugal, foi um deles. Outro foi um comentário, numa escola onde a professora que me convidou é uma promotora da leitura, mesmo no fim da sessão, de um rapaz do 6.º ano: «Eu gostava de dizer à senhora que foi muito bom conhecê-la, queria agradecer-lhe os seus livros, e também dizer-lhe que hoje aprendemos a ter esperança.» Eu choro com as coisas boas com muita facilidade, por isso… escuso de contar o resto. Outro momento marcante foi quando a psicóloga Margarida Cordo, a propósito do romance «De nome, Esperança» (cujo tema era a loucura), me propôs que fizéssemos uma conversa sobre o livro. Ali estávamos nós, exactamente um ano depois do lançamento, com quem, depois de o ler, queria falar sobre o que representara para si. Uma sala cheia, não só de pessoas, mas de relatos, de desabafos, de reconstruções. Para mim, como escritora, este foi um momento que me marcou profundamente. É raríssimo falar com os adultos que lêem o que escrevo para esta faixa etária, foi um dia incrível.

O que é, para si, um bom livro? 

Um bom livro, para mim, é o que conta uma história ou faz uma reflexão sobre a vida dos nossos dias, e que, se calhar até mais por isso, o faz de uma tal forma que me perco a reler frases, a reler capítulos inteiros para voltar a apreciar como foi descrito o que aconteceu, como foi escondido o que o leitor terá de intuir, onde a beleza da escrita se sobrepõe à história em si.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

Penso que a resposta já está dada na anterior. Um bom escritor não é necessariamente um escritor de bestsellers, é sim um escritor que provoca, emociona, delicia e entontece os seus leitores, alguém que põe em cada frase muito mais do que aquilo que conta, e que é sincero. Quem consegue isso, é um excelente escritor.

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

António Lobo Antunes, «Manual dos Inquisidores», ou «A explicação dos pássaros»

Valter Hugo Mãe, «Homens imprudentemente poéticos», ou «Contos de cães e maus lobos»

João Aguiar, «A encomendação das almas»

Afonso Cruz, «Para onde vão os guarda-chuvas»

Simone de Beauvoir, «O sangue dos outros»

William Faulkner, «O som e a fúria»

Paul Auster, «Homem na escuridão»

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