‘Um bom livro é aquele que supera a sua época, particularidade e contingência’

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Entrevistas > Manuel Jorge Marmelo

Manuel, quando é que surgiu a sua vontade de escrever ficção e de publicar?

A vontade apareceu com a adolescência, como sucede com todos os primeiros devaneios e todas as grandes ilusões. Mas só me ocorreu que podia tentar publicar o que escrevia alguns anos mais tarde, o que, dito assim, pode dar a impressão (errada) de que fui capaz de aguardar o tempo necessário para amadurecer tudo aquilo que carecia de ser maturado. Não aconteceu e, por isso, acabei por publicar o primeiro livro com 24 anos. Demasiado cedo, portanto.

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

Não sei dizer ao certo. Há uma parte de cada livro que se impõe a partir da realidade e do quotidiano, e outra parte que há-de mergulhar em regiões mais obscuras, fundas e povoadas de matérias, memórias e musgos provavelmente subconscientes. Depois o cérebro organiza a informação, baralha-a, espanta-se, confunde-se, inventa coincidências e delira o suficiente para criar algo que vagamente se foi assemelhando a um percurso e a uma certa ideia de literatura.

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?

Os temas da literatura são praticamente os mesmos desde que o mundo é mundo. Não pretendo, por isso, enganar ninguém com a ideia de que tenho feito coisas bestialmente originais a partir de temas jamais imaginados. Mesmo quando não se nota, os meus temas têm sido o amor e a morte, o medo e a perplexidade diante da maravilha paradoxal que é a vida e a espécie humana, as suas grandezas, misérias e contradições. Também me dedico a questionar e a executar malabarismos com o próprio processo de escrita e ainda me tem sobrado tempo para discutir essa ninharia que é o mundo progressivamente dominado por todas as intolerâncias, pela hipocrisia, pela injustiça e pela mentira.

Que aspetos destacaria relativamente à sua mais recente obra; “Macaco Infinito”?

Tratou-se de mais uma tentativa para me aproximar do livro que persigo há vinte e tal anos e para tentar tratar os temas que atrás enumerei. É sobre o mal, a mentira e a submissão, mas é sobretudo sobre uma civilização que maltrata, persegue e humilha uma parte considerável dos seus cidadãos, obrigando-os à insegurança absoluta, à indigência e a uma nova forma de escravatura e submissão. Como de costume, hei-de ter falhado – e não me orgulho especialmente disso. Tentarei não reincidir no erro.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritor?

O primeiro livro, há 21 anos atrás, e o lançamento numa Livraria Lello cheia de gente. A ilusão, que veio depois, de que talvez não fosse completamente estulta a ideia de que podia ser um escritor que as pessoas prezassem ler. O Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, em 2005. O Prémio das Correntes d’Escritas, em 2014. A certeza, que entretanto se fez óbvia, de que, ao fim de 21 anos, o número dos meus leitores continua a ser demasiado pequeno e que, por isso, o tempo que invisto a escrever um livro tem um retorno tão escasso que, com o tempo, se foi tornando decepcionante e, de algum modo, insuportável. Não sendo plausível que os leitores estejam todos errados, resta-me procurar resolver o problema pelo lado a que tenho acesso.

O que é, para si, um bom livro? 

Um bom livro é aquele que supera a sua época, particularidade e contingência, dialogando com as grandes pulsões e angústias da espécie, com a grande história de que todos somos parte, e que seja capaz de saciar a necessidade de escutar histórias que o Homem tem provavelmente desde as cavernas, da primeira fogueira e do primeiro impulso gregário.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

Não sou a pessoas mais indicada para responder a esta pergunta. Se soubesse a resposta, talvez tivesse podido transformar-me num.

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

Sete escritores: Gabriel García Márquez, José Saramago, Rubem Fonseca, Hélia Correia, Manuel António Pina, Roberto Bolaño, Enrique Vila-Matas.

Sete livros: “D. Quixote”, “Cem anos de Solidão”, “Gente Independente”, “Ensaio Sobre a Cegueira”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Pedro Páramo”, “Amor de Perdição”.

Mas estou a esquecer-me de muitos livros e a deixar de fora gente muitíssimo boa e que prezo bastante.

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