‘Um bom livro nunca adormece no pó do esquecimento’

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Entrevistas > Luís Filipe Sarmento

Luís, quando é que surgiu a sua vontade de escrever ficção e de publicar?

Apesar de ter começado por publicar poesia, em 1975, com A Idade do Fogo, aos 18 anos, a verdade é que a ficção estava já nessa época muito mais presente do que o labor poético. Foram tentativas persistentes com histórias a partir de fragmentos autobiográficos como exercício de linguagem, mas também como registo de memórias elevadas à condição mirabolante que os passos na cidade e as leituras de então inspiravam. Quanto mais tempo passava mais me assustava com o exercício de escrever ficção. Sem abandonar a escrita de histórias, numa prática diária quase clandestina, foi a poesia que se foi impondo como necessidade primeira. Contudo, o objectivo era a ficção e o pensamento. Até que chegou o momento de não retorno e arrisquei na aventura do primeiro romance, Crónica da Vida Social dos Ocultistas, uma sátira às sociedades secretas, com a obstinação de levar o projecto até ao fim. O livro foi publicado no ano 2000 e conta já com cinco edições.

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

Curiosamente, desde sempre, as ideias surgem-me com o título e a partir deste a estrutura do livro desenha-se naturalmente. Depois, inicio a pesquisa com leituras, ouvindo pessoas, colocando questões, levando a curiosidade à exaustão.

Normalmente, as ideias surgem-me em viagem, sejam elas curtas ou longas. Foi sempre assim. Não sou um bom companheiro para viajar. Entendo-me comigo, embalado pelo movimento e dou por mim em universos paralelos como se buscasse nos recantos da escuridão um ponto luminoso como um convite, por vezes perverso, à abertura de uma porta que me revele em néon um título, uma ideia. E deixo-me ficar nesse lugar, fixando o brilho intermitente de um título como se fosse o anúncio de um novo filme que irei descobrir.

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?

Desde logo, a relação do homem com o mistério da existência, a ficção divina como um imperativo de verdade e a partir da qual o lugar que é dado à corrupção dos espíritos, à maldade, à vingança, ao ódio. A exposição ao perigo, nas suas diversas vertentes e formas, também é um tema transversal em todos os meus livros. O exercício da linguagem para além do próprio argumento. A observação minuciosa dos detalhes e os humores que despertam. Interessa-me muito o ridículo como matéria literária porque nele se encontra a essência do preconceito.

Que aspetos destacaria relativamente à sua mais recente obra; “Gabinete de Curiosidades”?

É um híbrido. Trata-se de um livro em três partes onde se reconhecem vários géneros. A primeira parte, «Generalidades» tem 24 poemas; a segunda, «Hipermodernidades», com 24 textos, com pequenos ensaios, manifestos e panfletos; a terceira, «Raridades», uma ficção com 24 micro capítulos. E estão ligadas pelos mesmos temas. Creio que é a primeira vez que se faz isto em Portugal, mas não tenho a certeza. É um livro aparentemente provocador, belicoso, agressivo e que acaba numa história de amor sem história como recusa de uma sociedade castradora e violadora da condição humana. É um gabinete onde se recolhem fenómenos extravagantes que constituem o quotidiano da nossa existência.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritor?

Desde logo, o dia em que vi, acabadinho de sair da tipografia, o meu primeiro livrinho. Foi um momento soberbo. O estabelecimento de amizades com grandes mestres da escrita. A viagem como ponte para outros mundos, outras experiências, novas matérias. A escrita deu-me a possibilidade de viajar. Os momentos mais marcantes enquanto escritor são sempre aqueles em que descobrimos no outro a possibilidade de ir mais além.

O que é, para si, um bom livro?

Um bom livro é aquele que me emociona, que me descobre, que me alimenta a necessidade que tenho como leitor, que diz tudo o que já se disse e aquilo que ainda não se disse. Um bom livro é aquele a que se regressa como se fosse a primeira vez. Aquele que nos entra em casa e que dela nunca mais sai. Um bom livro nunca adormece no pó do esquecimento.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

A observação minuciosa dos trânsitos, dos seus humores, a manipulação da linguagem sem ofender a língua, a coragem de se expor ao inesperado como receptor do novo, a transparência do divertimento, a provocação do acidente.

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

Blaise Cendrars, Moravagine

James Joyce, Ulisses

Virgínia Woolf, Mrs Dalloway

Federico García Lorca, Romancero Gitano

Jack Kerouac, Os Vagabundos do Dharma

Henry Miller, O Sorriso aos Pés da Escada

Ezra Pound, Os Cantos

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