“Aprendemos com os bons livros, mas apenas atingimos a plenitude com os livros extraordinários”

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Entrevistas > Joel Neto

Joel, quando é que surgiu a sua vontade de escrever e de publicar?

Na adolescência creio. Não nasci numa casa de livros, mas comecei a fazer jornais em máquinas de escrever aos onze/doze anos. Depois, no liceu, era o louco que os professores mandavam frequentemente para a rua, “mas” escrevia bem. Aquela adversativa ficou-me. Provavelmente, não me restava outra coisa: ou a escrita, ou uma vida no crime. De certo modo, sou escritor por exclusão de partes. Mas às vezes pergunto-me se não teria sido maravilhoso optar pelo crime.

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

Na memória. Vem tudo de lá. O resto – a intriga, as personagens, os dilemas – são veículos. Do modo como acumulamos emoções e a certa altura tropeçamos nelas, na sua preclaridade ou no seu labirinto – é daí que vêm os meus livros.

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?

Os assuntos seriam provavelmente mais fáceis de enumerar. Os temas, não sei bem. Eu podia dizer “a condição humana”, até porque é bem capaz de não haver mais nenhum. Mas acho que esgotei a quota de frases de efeito com a tentação do crime da primeira resposta.

Que aspetos destacaria relativamente ao seu mais recente livro, “A Vida no Campo”?

Foi o meu maior desafio lírico, e que se veio juntar ao meu maior desafio estrutural que fora Arquipélago, o livro anterior. Posso envergonhar-me de todos os meus restantes livros, mas creio que destes dois não chegarei a envergonhar-me.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritor?

O primeiro livro, O Terceiro Servo, em 2000 – enviado às editoras sem conhecer ninguém, no mais belo e antigo romantismo destas coisas. Os encontros – por esta ordem cronológica – com o Paulo Ferreira, meu agente; o Nuno Quintas, meu editor (à inglesa); e João Gonçalves, meu editor (à portuguesa). E o díptico Arquipélago/A Vida No Campo, que veio mudar tudo (e espero que para ficar).

O que é, para si, um bom livro? 

Um extraordinário livro é um livro que me comove. Um bom livro há-de-ser muito mais coisas: um livro tecnicamente bom, ou com uma boa personagem, ou fundador de uma corrente, etc, etc. Aprendemos com os bons livros, mas apenas atingimos a plenitude com os livros extraordinários.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

A humildade no momento do trabalho, apesar da vaidade depois dele. Não sei se alguma vez atingirei tal coisa, nem aliás se é isso o que distingue o escritor do não escritor. Mas sei que todos os grandes escritores foram feitos dessa matéria, ainda que o fossem de outras também.

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

Muito difícil. Deixo sete livros (e respectivos autores) que me marcaram em momentos-chave, mas dificilmente poderia resumir uma lista justa a tão poucos. “A Bíblia Sagrada”, de vários. “Moby Dick”, de Melville. “As Vinhas da Ira”, de Steinbeck. “Cem Anos de Solidão”, de García Márquez. “A Insustentável Leveza do Ser”, de Kundera. “Gente Feliz Com Lágrimas”, de João de Melo. “Correcções”, de Jonathan Franzen. Faltam centenas de romances e todos os poetas.

2 Comentários

  1. Orlando Oliveira
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    Um escritor que descobri por desfastio e de quem me tornei acérrimo fã e leitor

  2. Clementina Matos
    | Responder

    Gostei de ter lido isto. A minha simpatia para este autor. Parabéns. 🙂

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