‘Meus pais não me compravam muitos brinquedos mas sempre me ofereceram livros’

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Entrevistas > João Morgado

João, quando é que surgiu a sua vontade de escrever ficção e de publicar?

Nasci numa casa sem televisão. Cresci a ouvir os folhetins e os teatros radiofónicos da Emissora Nacional – foi o meu primeiro contacto com os clássicos. Isso desenvolveu em mim a magia da recriação mental dos personagens, como uma espécie de estágio para a criação literária. Esse campo da ficção foi depois alimentado com os livros que eu retirava das carrinhas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Devo sublinhar que meus pais não me compravam muitos brinquedos mas sempre me ofereceram livros. Sempre. Com todo este fascínio, comecei a escrever muito cedo, mas por aqueles tempos, a edição não era fácil, sobretudo no interior onde vivia – Covilhã. Comecei a trabalhar cedo, pelo que a escrita acabou por ser uma paixão adiada. Mais tarde, com o jornalismo, voltei a adoptar a palavra como matéria-prima, o que despertou de novo o gosto pela ficção. Publiquei o primeiro romance só aos 45 anos. Mas como defende Torga, é importante vir da vida para a literatura e não ao contrário…

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

Sou um escritor plural. Divido-me por muitos géneros – poesia, crónica, conto, novela, romance. Mesmo no romance, tenho uma linha mais intimista com o “Diário dos Infiéis” e “Diário dos Imperfeitos”, e uma outra linha mais épica com os romances biográficos de Cabral (“Vera Cruz”) e de Gama (“Índias”). Perante esta diversidade criativa, a fonte de inspiração/trabalho tem de ser a multiplicidade da própria vida. Entendo que a literatura é reciclagem. O autor é um caótico acumulador de informação dispersa, à qual recorre no acto de criação. Por vezes descobre dentro de si coisas surpreendentes, coisas de que nem teria consciência, se não fosse o imperativo da escrita a vasculhar dentro de si próprio…

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?

Nos “Diários” sou um escritor intimista, mas que, apesar dos laivos de erotismo, toca em temas menos agradáveis, em feridas profundas dos relacionamentos humanos. A descoberta das “infidelidades” e das “imperfeições” de cada um, nem sempre resulta numa leitura confortável. São livros que surpreendem quem os lê e que, por certo, surpreenderiam quem os critica sem nunca os ter lido. Por outro lado, nos romances históricos tento reconstruir a personalidade de grandes figuras. Escrevo muitas vezes contra a memória instituída pela nossa historiografia oficial. O que há em comum nesta escrita tão distinta entre si? É que, mais que a acção diferenciada dos personagens, procuro auscultar os seus sentimentos mais profundos. Todos nós já tivemos sentimentos iguais em situações diferentes da vida. Os sentimentos são um património comum que une os personagens e os leitores… são por isso a minha temática essencial no meio da diversidade.

Que aspetos destacaria relativamente à sua mais recente obra; “Diário dos Imperfeitos”?

Como já referi, vem no seguimento de um outro romance, o “Diário dos Infiéis”. É também uma viagem à intimidade das pessoas que estão a aprender e a educar os “sentimentos” e os “sentidos”. Um livro que nos pergunta: O que é mais importante na vida? O Amor ou o Desejo? A Moral ou o Prazer? A capital libertária em contraste com a província moralista, oferece um jogo de personagens que ao longo do romance acabam por revelar todas as suas “imperfeições”, o seu lado mais sombrio. Revelando que ninguém é “perfeito”, nem o amante, nem a mãe, nem Deus… Pelo meio, a filosofia simples de duas personagens inusitadas – a mulher que lê pensamentos e um pintor de sóis na parede. São eles que nos ajudam a reflectir sobre temas tão controversos como o aborto, o incesto, o sentimento de culpa ou o próprio nojo.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritor?

O primeiro romance nas livrarias [Diário dos Infiéis, 2010]; O primeiro prémio literário [Vergílio Ferreira, 2012]; A primeira adaptação de um romance para teatro [Diário dos Infiéis, ASTA, 2013]; O primeiro poema publicado em inglês numa colectânea internacional [World of Poetry Yearbook 2015]; A sinfonia de coro e orquestra baseada num livro meu [Vera Cruz, 2016]; O lançamento do último livro no Padrão dos Descobrimentos com o Ministro da Cultura [Índias, 2016]… o contacto com os leitores, sempre!

O que é, para si, um bom livro? 

Um livro é um buraco de fechadura por onde espreitamos para o desconhecido. Um bom livro tem a magia de nos transportar e nos deixar presos do outro lado da porta, tal é a surpresa e o encantamento do que nos oferece. Sobretudo se esse encantamento for revoltoso, nos remoer, nos modificar…

E o que faz de um escritor um bom escritor?

Primeiro, ser um bom leitor – os livros que lemos, são os antepassados dos livros que escrevemos. Depois ter visão de raio x para ver mais além do visível e criatividade para servir as suas descobertas ao leitor, com aprumo na linguagem, capacidade estética e um murro no estomago…

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

Não serão os melhores livros do mundo – talvez tenha lido melhor -, mas são livros que não esqueci, o que deve ser uma chancela da sua qualidade. Influenciaram-me na altura em que os li. “A Grande Casa de Romarigães” – Aquilino Ribeiro; “As Cidades e as Serras” – Eça de Queirós; “Peregrinação Interior” – António Alçada Baptista; “Poesia em Verso e Prosa” – Eugénio de Andrade. “A Insustentável Leveza do Ser” – Milan Kundera; “Lillias Fraser” – Hélia Correia; “A Lenda de Martin Regos” – Pedro Canais…

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