‘Escrevo para deixar alguma coisa no coração de quem me lê’

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Entrevistas > Filipa Fonseca Silva

Filipa, quando é que surgiu a sua vontade de escrever ficção e de publicar?

Na verdade a vontade de escrever vem de criança. Escrevo desde que aprendi a escrever, desde crónicas a contos e até livros infantis, e sempre aspirei a um dia publicar um livro. Mas só quando o meu primeiro livro, «Os Trinta»,  começou a desenhar-se na minha cabeça, por volta de 2009, é que comecei a pensar que não só o queria escrever, mas que iria fazer tudo para que fosse publicado.

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

Nas pessoas. Como diz o narrador deste meu último romance, «são o meu passatempo preferido». Às vezes, é um episódio que aconteceu com alguém que conheço, mas também pode ser uma cena de um filme, uma notícia de jornal ou um desconhecido com quem me cruzei na rua e que me despertou a curiosidade, fazendo-me imediatamente começar a inventar a sua história.

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?

As relações entre as pessoas. E o que essas relações provocam no mundo interior de cada um.

Num plano secundário, gosto de explorar temáticas contemporâneas, o que talvez tenha que ver com a minha formação jornalística e com a vontade de traduzir numa obra de ficção o zeitgeist do início do século XXI.

Que aspetos destacaria relativamente à sua mais recente obra; “Amanhece na Cidade”?

Penso que um dos aspectos que mais se destaca nesta obra é o narrador ser um objecto, e não uma pessoa. Depois, acho que tem uma enorme riqueza de personagens, que passam por um típico taxista lisboeta, uma stripper que só quer juntar dinheiro, um miúdo que de repente se vê a viver como um sem-abrigo, uma vizinha metediça e um recém-licenciado que larga tudo para ir ajudar refugiados. Esta diversidade permite que o livro tenha episódios trágicos e dramáticos, mas também cómicos e românticos.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritora?

O mais marcante até à data foi sem dúvida chegar ao Top100 da Amazon, provando que os autores portugueses são vendáveis lá fora, ao contrário do que se diz. Mas o que verdadeiramente me enche de orgulho é receber mensagens de leitores a falar do livro, a dizer o quanto gostaram ou se identificaram por esta ou aquela razão. Cada mensagem dessas é um momento marcante. E é para isso que escrevo. Para deixar alguma coisa no coração de quem me lê.

O que é, para si, um bom livro? 

Um bom livro é precisamente aquele que oferece ao leitor mais do que umas horas de entretenimento. Aquele que, para além de uma história, consegue passar uma mensagem, uma lição ou uma emoção que perdura para lá da palavra fim.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

Prática, humildade e algum talento.

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

Só sete? Que injustiça… José Saramago, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Jorge Amado, Gabriel Garcia Marquez, Isabel Allende, Valter Hugo Mãe.

Quantos aos livros, entre muitos, muitos outros, recomendaria: Ensaio sobre a Cegueira (José Saramago), Crime e castigo (Fiodor Dostoievski), Salto Mortal (Marion Zimler Bradley), As Aventuras de Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll), Jubiabá (Jorge Amado), A Senhora Oráculo (Margaret Atwood), A Incrível Viagem do Faquir que ficou fechado num armário do IKEA (Romain Puertolas).

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3 Comentários

  1. Só sete?

    redutor… claro que sim. Mas assim tem que ser… Balizar é um exercício de excelentes resultados.

    Parabéns. gostei

  2. Só sete?

    redutor… claro que sim. Mas assim tem que ser… Balizar é um exercício de excelentes resultados.

    Parabéns. gostei

  3. Paula Araújo
    | Responder

    Apercebo-me, com esta entrevista, que tenho uma alma gémea, que tenho uma escritora espelho, e que me revejo nela, porque, tal como Filipa quero, nos meus humildes livros, deixar muita coisa no coração das pessoas, dar às palavras a magia de sentir o que se escreve. Ainda não tive a oportunidade de ouro, mas estou certa que um dia terei.
    Parabéns, Filipa, por me fazer sentir, também a mim, que estou a escrever para fazer sentir.

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