‘O milagre da infância é o da fértil ambivalência de realidade e imaginação’

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Entrevistas > Álvaro Magalhães

Álvaro, quando é que surgiu a sua vontade de escrever ficção?

Acho que desde que aprendi a ler e escrever. Para mim, escrever, saber escrever, era também a possibilidade de contar e inventar. Como se houvesse algo em mim que apenas esperava pelas palavras para poder existir.

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

Acho que é ao contrário: ela é que me encontra. Chega a assustar-me, quando surge de repente. Só isto é certo: quando chega, encontra-me quase sempre a trabalhar. Chego a pensar que é ele, o trabalho, que a atrai. Como sei isto, costumo escrever as minhas dúvidas e perguntas num caderno para que também ela as veja e me ajude a encontrar as respostas. Posso dizer que funciona.

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?

Além da reivindicação da poesia e da infância enquanto formas de modelação do ser, a tensão entre realidade e imaginação. As minhas narrações, e também alguns poemas, estão saturadas de situações em que a miséria do real, que é quase sempre o lugar da insuportável evidência e do desencanto, é redimida pela acção transfiguradora da fantasia. Aliás, é da fusão das duas categorias que nascem lendas, mitos e histórias. E não é esse também o milagre da infância, o da fértil ambivalência de realidade e imaginação?

Já publicou mais de 80 obras. Há alguma que ocupe um lugar especial no assíduo contacto com os seus leitores?

Os “Contos da Mata dos Medos”, os livros de poesia como “O Limpa-palavras” ou “O Brincador”. Actualmente, a série “O Estranhão”.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritor?

Em 1982, o meu primeiro manuscrito para os mais novos, escrito para a minha filha, foi premiado pela A.P.E/S.E.C e, logo a seguir, editado por Livros Horizonte. Já tinha publicado poesia e pensava que seria esse o meu caminho. Nessa altura, porém, descobri que a literatura infantil, tal como a concebia, não era diferente da poesia. Tinha a mesma natureza, só que encontrava modos de expressão diferentes. Foi o momento em que descobri um outro caminho fértil, que tenho percorrido até hoje.

O que é, para si, um bom livro? 

Aquele que se lê sempre como se fosse a primeira vez e nunca cessa de dizer o que tem a dizer. É isso que faz dele um filho da eternidade, apto para leitores de todos os tempos. A certa altura, passam a chamar-lhe clássico.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

Antes de mais, o seu grau de intimidade com as palavras, a matéria-prima da literatura. Depois…

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

Os sete escritores: Camões, Kafka, Rilke, Jorge Luis Borges, A.A. Milne, R.L. Stevenson, Lewis Carrol.

Os sete livros: “A Odisseia”, de Homero; “Tao Te King”, Lao Tse; “As aventuras de Joanica-Puff”, A.A. Milne; “Alice no país das maravilhas”, de Lewis Carrol; “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo;  “A metamorfose”, de F. Kafka; “As elegias de Duíno”, de R.M. Rilke.

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Um comentário

  1. Obrigada pela divulgação.
    gostei da entrevistas.
    bem-haja

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