‘Um bom livro é o que, para além de me entreter e ensinar, me emociona e sobressalta’

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Entrevistas > Alberto S. Santos

Alberto, quando é que surgiu a sua vontade de escrever ficção e de publicar?

A ideia vinha germinando ao longo da minha vida adulta, mas a primeira pulsão ocorreu por volta de 2006, quando comecei a escrever “A Escrava de Córdova”.

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

O primeiro clique pode ocorrer a partir da leitura de um pequeno fragmento de algo que me inquieta e surpreende. Normalmente, é sempre algo que não sabia ou que não conhecia antes. Mas pode acontecer igualmente a partir da reflexão e investigação sobre um determinado objeto, ou visita a um lugar que me marque especialmente. É sempre bom conseguir perscrutar o espírito do lugar, para se escrever sobre ele.

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?

Os temas que abordam os meus livros têm, normalmente, um enquadramento histórico, na busca da compreensão de aspetos menos conhecidos do passado, mas fortemente condicionadores do tempo atual. Por isso, existe sempre uma constante presença das temáticas religiosas, quer das três religiões abraâmicas, quer das práticas mais ancestrais pré-cristãs ou pré-islâmicas, quer ainda dos mitos e experiências mágico-religiosas, que sempre conviveram a par das grandes religiões, como é o caso deste último livro “A Arte de Caçar Destinos”.

Que aspetos destacaria relativamente à sua mais recente obra; “A Arte de Caçar Destinos”?

“A Arte de Caçar Destinos”, como referi, é uma viagem a um certo imaginário mítico-religioso português que se preservou nas crenças, nas práticas mágico-religiosas, nas tradições orais, nas festas relacionadas com os ciclos agrários, onde a narrativa se mistura vertiginosamente entre o real e o sobrenatural. Assim, o que o leitor poderá encontrar será um conjunto de histórias passadas entre o mundo rural e a cidade, marcadas pelas crenças que se fundem na noite dos tempos e que se vão mutando até aos nossos dias, por via do sincretismo religioso e da evolução do conhecimento. No fundo, o Homem sempre procurou influenciar o seu próprio destino, temendo ou exorcizando a Natureza e os poderes invisíveis que escapam à sua compreensão ou racionalidade.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritor?

Foram muitos. Desde a consciência de que tinha o primeiro livro editado, até à verificação de que outro se lhe seguiu, e que havia cada vez mais ideias à procura de serem exploradas. Umas tornaram-se livros, e outras não, ou ainda não. Tal como me comove a reação anónima de um leitor, ou a notícia de que um dos meus livros vai ser publicado fora do país.

O que é, para si, um bom livro?

Um bom livro é o que, para além de me entreter e ensinar, me emociona e sobressalta. Aquele que me torna familiar das personagens, sobretudo depois de ter concluído a sua leitura. Para além disso, é aquele que me chama e impele a voltar ou a continuar a escrever.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

Um bom escritor poderá ser aquele que lê muito, que analisa e reflete criticamente sobre a condição humana e engendra histórias que sobressaltem os leitores na retratação dessa mesma condição humana.

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

Escritores: Amin Maalouf, Gabriel García Marquez, Jesus Sanchez Adalid, Machado de Assis, Eça de Queirós, Gonçalo M. Tavares e Lídia Jorge.

Livros: Cem Anos de Solidão (G. G. Marquez), Samarcanda (Amin Malouf), Jerusalém (G. M. Tavares), O Ano da Morte de Ricardo Reis (J. Saramago), O Dia dos Prodígios (Lídia Jorge), El Último Soldurio (Javier Lorenzo) e El Mozárabe (J. S. Adalid) – os dois últimos porque me provocaram e convocaram para escrever ficção histórica.

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