Editora Abysmo: O livro pensado como um todo

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reportagem escritores.online©

Dizer que se desce ao abismo não será de todo mentira…

Para se entrar na galeria da Editora Abysmo, no rés-do-chão do nº 40 da Rua da Horta Seca, em Lisboa, desce-se efectivamente alguns degraus até se chegar ao espaço amplo que a editora usa como uma espécie de montra para expor alguns trabalhos relacionados com os livros que publica. É também aqui que se situa a sede da editora que utiliza o espaço para lançamentos de livros e onde dispõe de uma pequena loja.

Actualmente encontra-se ali a exposição de trabalhos do livro Desenhar em Cima da Conserva, lançado no passado mês de Abril pela Arranha-Céus, chancela da Abysmo, e que surgiu da reunião das ilustrações que, numa primeira fase, foram decorando ao longo de um ano, ao ritmo de uma por mês, a Conserveira de Lisboa no Mercado da Ribeira.

A Arranha-Céus é uma espécie de irmã mais nova da Abysmo e é uma editora “mais bem comportada e mais clássica”, como a classifica o seu editor João Paulo Cotrim.

A Abysmo, a “irmã mais velha”, não se pode dizer que seja mal comportada, porque não é descuidada em nenhum aspecto, mas funciona de uma forma um pouco diferente, pois é uma espécie de laboratório, onde se experimentam novas abordagens no plano editorial.

Caracterizando a Abysmo, João Paulo Cotrim compara-a ao cruzamento entre a robótica e a sapataria: “Há a tentativa de pensar o livro como um todo. É um misto do cruzamento entre a robótica e a sapataria, ou seja, é, por um lado, bastante artesanal e, por outro, procura ser especializada. Convocamos aqui um conjunto de saberes: o saber do designer, o de quem escreve, ou o de quem desenha e o do editor e no conjunto concebemos um produto especial em que todos eles diferem. E depois, há um outro aspecto que é a questão orgânica… Agora, ao fim de seis anos, eu já sou capaz de a definir, há seis anos se calhar não saberia, daqui a seis anos a resposta pode ser completamente diferente, porque o crescimento da editora tem sido orgânico”.

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A “boca” da Abysmo

Se do cimo de um arranha-céus se pode ter a sensação de abismo e experimentar um certo desequilíbrio, a editora Abysmo não terá tanto desse buraco para onde as pessoas se atiram por vertigem, mas mais da ideia de João Paulo Cotrim, seu criador, do que é uma editora, “um espaço desconhecido, movediço, através do qual se avança” e que vai ao encontro do tipo de labor de um editor literário, tal como o entende, que “tem muito de abissal, de escuridão e de imprevisto”.

A Abysmo foi criada em 2011, quando se discutia o Acordo Ortográfico de 1990, e fez sentido para o seu criador manter o y em Abysmo que havia desaparecido com o anterior Acordo Ortográfico, pela ideia de que as palavras contêm sempre qualquer coisa de imagem, à qual a frase de Teixeira de Pascoaes, no contexto do AO de 1911, lhe assentou na perfeição:

“Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério…

Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformá-la numa superfície banal.”

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Da embalagem ao conteúdo ou… vice-versa

Não é só a presença do y que torna a Abysmo uma editora peculiar, são também os temas que aborda nos livros que edita, a ausência de uma imagem fixa no logotipo, os autores que publica…

Por João Paulo Cotrim acreditar que o e-book está longe de vir a matar o livro, além de que o objecto livro está longe de estar esgotado, apostou, há cerca de seis anos, na criação de uma editora que prima pela forma original como constrói os seus livros.

O editor explica que os meios de impressão, os meios técnicos de grafismo e os vários tipos de papéis disponíveis permitem inovar e variar na apresentação de cada livro.

E, no fundo, é isso que a Abysmo faz.

Para cada livro, a editora “procura perceber qual é a boa embalagem para aquele conteúdo”, o que torna cada livro um objecto diferente de todos os outros.

Logo no primeiro que editou, O Branco das Sombras Chinesas, que partiu de um folhetim do Diário de Notícias escrito por João Paulo Cotrim e António Cabrita, num esquema de ping-pong, em que cada um escrevia um capítulo, num jogo cadáver esquisito, o livro aparece em papel próximo do de jornal, sem lombada e cosido.

Como o primeiro, há outros livros que se assemelham na forma original como se apresentam. Um bom exemplo é o Autismo, de Valério Romão, que não tem o título, o nome do autor, ou da editora, na capa, mas apenas na lombada. Ou a Beleza Tocada, de José Emílio-Nelson, que tem o aspecto de uma bíblia em tons de roxo e que pode ser vista quase como uma espécie de “bíblia do mal” por se afirmar “como um caleidoscópio que desvela e veementemente destrói a ideia de Beleza em imagens contagiantes de sexualidade extrema, em combinações que ‘tocam’ a invenção linguística, instintivamente elíptica, cínica, condensada, em figurações de beleza indecorosa, em decomposição, beleza escatológica, que conjuga a aura de transcendência e os chispes excrementais.”

Se a embalagem dos livros da Abysmo é uma característica que a torna invulgar, também o conteúdo explora lugares pouco comuns da literatura e da ilustração.

Como exemplo, além da Beleza Tocada, o livro A Minha Casa Não Tem Dentro, de António Jorge Gonçalves, que é uma novela (autobio) gráfica, leva o leitor pelos meandros de uma experiência de quase morte do autor.

É na diferença pelo tema que aborda, pela linguagem ou pela nova estrutura que um livro apresente que poderá ser editado pela Abysmo, pois é privilegiada a capacidade do livro em surpreender e interpelar, saindo da mediania, e o facto de não ser igual a todos os outros.

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Long Sellers

João Paulo Cotrim é o editor da Abysmo e da Arranha-Céus

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Um dos objectivos da Abysmo é disponibilizar livros que se vendam sempre, ou seja, os chamados long sellers.

O editor conta que o livro Autismo de Valério Romão, que demorou dois anos a esgotar a primeira edição em Portugal, esgotou em apenas dois meses, em França. E explica que “isso também é a diferença de um país que gosta de livros de um país que não gosta. Por muito que me custe dizê-lo, a verdade é que nós (portugueses) não gostamos de livros”.

Quanto aos long sellers da Abysmo, João Paulo Cotrim admite que ainda não consegue avaliar se vão manter a continuidade nas vendas, mas esclarece: “Dos nossos livros, embora vendam pouco, não há nenhum que esteja completamente morto”. E adianta: “Neste momento, todos os trabalhos a longo prazo, lentos, são sacrificados, porque não estamos a viver uma altura em que a lentidão seja interessante, pelo contrário, não é… Sobretudo os livros são muito sacrificados, porque o sistema de distribuição faz com que eles tenham uma vida de dois meses nas livrarias e depois desapareçam”, confessando ainda: “Eu quero crer que a minha intuição está certa e que estes autores são de facto muito bons e que vão perdurar…”

Quanto à literatura, que pode ser considerada mais difícil por alguns leitores, o editor reconhece que os livros que publica “não são livros tranquilos, onde as pessoas possam repousar. Enfim, há-de haver um ou outro… É sobretudo uma literatura desafiante, que dá trabalho…”, informa.

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Imagem “mutante”

A particularidade de o logotipo ir variando de livro para livro também distingue a editora das restantes. A imagem não se mantém estática nem hermética e vai mudando de livro para livro. Se a imagem da marca Abysmo não é representada por um desenho fixo, acaba por ser quase uma imagem de marca haver um desenho “mutante” a identificá-la. O logotipo “mutante” até já se tornou um divertido desafio para os designers e ilustradores quando estão prestes a criar o do próximo livro, que fazem vários à procura da imagem certa para o livro a publicar.

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Da relação com os autores…

Na opinião do editor editar está muito para além de imprimir livros: “A edição é bastante mais do que isso. Há uma série de coisas que têm de acontecer antes de imprimir os livros e há uma série de outras coisas que têm que acontecer depois e nenhuma dessas coisas cabe em gavetas dizendo que depois é uma questão de marketing ou de distribuição ou de venda”.

Por acreditar que a relação e o trabalho com os autores são fundamentais, João Paulo Cotrim aponta como realmente diferenciador entre a Abysmo e as outras editoras o modo como se relaciona com os seus autores: “Entendemos os autores como parceiros, onde tudo é bastante discutido até o livro estar pronto”, afirma.

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… À relação com os leitores

Na Abysmo, quando o livro está pronto, o importante é fazê-lo chegar aos leitores para que saibam que existe, pois, na opinião do editor há pouca divulgação e atenção por parte da imprensa daquilo que se vai fazendo em Portugal.

Como forma de informar os leitores de que saiu um novo livro, a estratégia passa por aproximar o escritor do leitor.

A Abysmo, por vezes, organiza sessões de conversas como modo de aproximação ao leitor, percorrendo o país de norte a sul. Outras vezes, promove sessões em formatos diferentes, mas onde tenta sempre incluir algum sentido de humor.

Nas sessões “Abysmo Speed Date” juntam-se quatro ou cinco autores e o leitor tem a possibilidade de contactar directamente com cada um deles durante cinco ou dez minutos e pode pedir-lhes para fazerem o que quiser. “Claro que sexo ao vivo não é aconselhável, por razões óbvias, mas pode pedir-lhe para cantar, para autografar os livros, etc… Para cantar, porque muitos dos autores são multi-talentosos e têm uma série de outros projectos laterais”, explica João Paulo Cotrim.

Exposição Desenhar em cima da conserva

Site: www.abysmo.pt

Página de Facebook Abysmo

Página de Facebook Galeria Abysmo

Página de Facebook Arranha-Céus

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Um comentário

  1. José Gonçalves Calixto
    | Responder

    Boa noite, estive a ver os vossos livros e a ler a apresentação da vossa empresa.
    Gostei do que vi, aliás estou nos livros há muitos anos e confesso que não estou de acordo com as opiniões sobre o mercado.
    Faço parte de um grupo de resistentes, que vou fazendo a minha parte na luta diária. Estou reformado e vou trabalhando com pequenas Editoras e a minha perspectiva do mercado é bem diferente.Felizmente que vivo num país que gosta de Livros ao contrário de uma opinião manifestada na vossa apresentação.
    Enfim, não vou deitar mais achas para a fogueira. Vou continuar na minha luta.

    “O poeta é um fingidor e o livreiro também.
    Gosto sempre de estar a par das novidades literárias portuguesas, de saber como escrevem e o que escrevem os nossos escritores, descobrir uma nova geração de autores que surpreendem. E quanto mais os leio mais certa fico de que a literatura portuguesa avança para um determinado nível. Uma forte esperança a vingar.”
    Carla Pais.

    Até um dia destes
    Abraço rijo
    José Gonçalves Calixto

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