Quarto debate escritores.online discute o que mudou na literatura portuguesa depois do 25 de Abril

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Realizou-se ontem, na livraria Ferin, em Lisboa, o quarto debate organizado pela plataforma escritores.online, cujo tema foi “O que mudou na literatura portuguesa depois do 25 de Abril?”.

O debate, que contou com a participação dos oradores Maria do Rosário Pedreira e Manuel Alberto Valente e do moderador Tiago Salazar, foi marcado pela questão da evolução da literatura ao longo dos tempos, não se centrando unicamente no pós 25 de Abril.

Tiago Salazar introduziu a conversa, dando como mote a palavra “liberdade”. Manuel Alberto Valente pegou no mote e defendeu que “a liberdade concedeu aos criadores literários um ambiente para a criação das suas obras que antes não existia, embora se deva dizer, mesmo sendo um bocadinho ortodoxo, que o célebre mito dos numerosos romances que estariam na gaveta por causa da censura não passou disso mesmo, de um mito, pois não apareceram, depois do 25 de Abril, os tais romances que estariam na gaveta por não poderem ser publicados”, acrescentando que “o que o 25 de Abril e a liberdade deram foi a emergência para outra literatura e para outra maneira de estar na literatura”.

Concordando com Manuel Alberto Valente, Maria do Rosário Pedreira adiantou que houve uma grande mudança na escola e na educação em Portugal depois do 25 de Abril que permitiu abrir os horizontes dos portugueses. “Houve a oportunidade de mudar tudo. A literatura mudou não por causa dela própria, mas por todas as condições que mudaram”, esclareceu a escritora e editora.

Das grandes alterações que a literatura sofreu foi referida a importância do Movimento Poesia 61 que, segundo a editora foi uma rotura maior na tradição poética do que a que se deu na poesia após o 25 de Abril, justificando que as mudanças neste período se deram essencialmente porque as pessoas puderam ter contacto com outras realidades, adquirir mais conhecimentos e crescer intelectualmente. Maria do Rosário Pedreira referiu ainda que, mais recentemente, o fenómeno da globalização foi outro marco importante que produziu alterações na literatura.

Nomes como os de Manuel da Fonseca, Alves Redol, Carlos de Oliveira ou Virgílio Ferreira, Agustina Bessa Luís, Herberto Hélder e António Ramos Rosa também foram relacionados com as alterações na prosa e poesia portuguesas num período anterior ao do 25 de Abril. Obras de António Lobo Antunes, Lídia Jorge, Mário de Carvalho ou José Saramago, que surgiram depois da Revolução dos Cravos, não foram esquecidas na relação que poderão ter com o fim da censura e a transição para um período de maior liberdade.

Foram ainda focados outros pontos importantes que tiveram maior expressão no final dos anos 90, como a qualidade da literatura publicada ou a banalização da edição que, segundo os intervenientes, apareceram com a chamada “industrialização do livro” que acentuou a ideia do livro como produto e que transferiu o foco editorial do autor para o leitor, bem como diminuiu o tempo em que os livros estão disponíveis nas livrarias pela necessidade de “rodar o produto”.

No final do debate, houve ainda o espaço dedicado às perguntas do público que participou activamente acrescentando informação ao tema discutido e colocando questões aos oradores.

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