A cobra que há em nós

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«Os outros, eis a grande surpresa também. Os outros estão sempre diferentes. Pessoas que naquele sítio foram fundamentais para aquele sítio ser o que era e agora nem ali estão. Ou estão, embora ocupados com outras tarefas que não a de nos colocar no centro do universo.»

Por: Raquel Ochoa

Os sítios são os sítios. O que muda é a maneira como os digerimos.

Nunca voltes onde foste feliz. Há verdade nesta mentira?

Existe um efeito surpreendente quando voltamos aos locais onde andámos com outras idades. Estamos diferentes.

É essa surpresa que nos transforma, diria, não a transformação em si.

De regresso ao Sri Lanka, assim que ali ponho um pé, sou abalroada pelas aventuras humanamente mirambolantes do passado.

Voltar aos locais onde estivemos revela o quanto nos modificámos.

Claro, esses sítios também mudaram. Nenhum sítio permanece igual nos dias que correm. O turismo e a construção, as alterações climáticas e avanço dos oceanos, a sangria de gente jovem nos locais mais remotos e uma explosão da natalidade noutros,  a passagem do tempo e a erosão dos anos.

Há bastante tempo percorri a costa da ilha, e num outro ano, além da costa, também andei pelo interior montanhoso. Em épocas diferentes, sempre, aterrei com esta rara condição de me apetecer ser tragada.

Isso trouxe desilusões, emoções fortes e muitas histórias. Aqui gera-se forte intimidade facilmente. Sem darmos por isso, em certas ocasiões, reconhece-se o outro como um espelho fiel da história pessoal que cada um passeia pelo mundo.

A vida nua e crua, passageira, inusitada, a um ritmo alucinante, por vezes. Escolhas a cada instante.

Tudo acontece concentrado em poucos dias, noites de brisas sem direcção definida, luares que parecem dias num embrulho de paz de espírito emoldurado pelos coqueiros, temperaturas tórridas do Janeiro providencial e Budas com fartura, rua sim, rua não.

Voltar ali uma terceira vez, tendo largado a pele dos vinte há uns bons anos, é de facto uma experiência.

Reconhecer em êxtase a maturidade que se aninha depois do aturdimento, sem balelas nem exageros, apenas o viver e a honestidade de reconhecer que a maior parte dos sabores perdem piada se repetidos.

Às vezes penso nisso, de como deve ser monótono ter setenta anos tendo já percorrido o mundo (uma parte), dezenas de relações com e sem histórias amargas como páginas viradas, de já ter sentido os cheiros de todos os continentes e nada de novo restar para provar.

Mas depois lembro-me desta mesma reflexão. A surpresa de termos crescido. A surpresa de querermos outra coisa que não a mesma, de sermos outro sendo o mesmo, de querermos passar mais tempo a caminhar/surfar/dar carinho ao corpo e menos a jogar à cabra cega (in and out). De perdermos menos tempo a procurar e mais a contemplar, de cairmos em menos ratoeiras porque nos tornamos mais gatos na nossa natureza humana. De sentir melhor cada caminho escolhido (mesmo sem nenhuma informação), cada conversa alimentada por gestos encorajadores e ideias que não cessam de entrar em diálogo. De valorizarmos o que aconteceu na inocência, sem estarmos à espera de a voltar a ver, velha amiga, só perdida se entende como se trocam as voltas ao destino, e de qual era a dose concretizável do sonho.

Os outros, eis a grande surpresa também. Os outros estão sempre diferentes. Pessoas que naquele sítio foram fundamentais para aquele sítio ser o que era e agora nem ali estão. Ou estão, embora ocupados com outras tarefas que não a de nos colocar no centro do universo.

Chego então à conclusão – deve ser magnífico saber envelhecer e continuar a viajar. Os sítios são os sítios. O que muda é a maneira como os digerimos (a cobra que há em nós), a maneira como os deixamos entrar.

Voltar a mim, a certos lugares como a Índia, o Sri Lanka Cabo Verde ou o Chile, será sempre a melhor opção.

Porque é um pacto subtil, sem assinatura lacrada, com aquilo que nunca se pode esquecer: quem eras e de onde vieste. E de como isso te ajudou a teres tão grandes planos para quem te queres transformar.

Nenhum sítio é, nem nós como sítio de nós mesmos, sem a distância e o caminho para o conseguir conhecer.

©Raquel Ochoa

 

* Raquel Ochoa está a ultimar o seu próximo livro, um ensaio sobre os últimos dez anos de viagens.

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11 Comentários

  1. Bela crónica.
    Um tema que sabemos de cor, mas nem sempre está presente bem por dentro de nós.
    Os lugares, os outros e nós, tudo roda. muda e ficamos quedos e às vezes ledos, pela espanto que cresce em nós.
    O nosso olhar vira-se para fora, esquecendo que… quanto mudamos, quanto crescemos, quanto nos fizemos gente diferente.
    Parabéns Raquel por este viajar…

    • Raquel Ochoa
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      Bem- haja Maria José Areal! É bom este sentimento de compreensão mútua.

  2. Ludgero
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    É… E nunca podemos evitar levar-nos a nós na bagagem… E nós somos quase tudo…. Lá tambem…

    Ludgero

  3. É verdade, querida Raquel, a idade faz-nos amadurecer o olhar sobre os trilhos já feitos, e o mais de tudo é não perder a curiosidade de nos encontrarmos sempre com o novo no que já nos parecia conhecer. Saudades de viajar consigo!

  4. Raquel Ochoa
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    Nem mais…

  5. Raul Bivar Azevedo
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    Boa reflexão Raquel , realmente viajar é reparar ,não basta só ver ,tudo muda ,nós e os destinos das viagens . Tudo deve ser recomeço para que o deslumbre aconteça ,partir por partir , para alimentar a cobra que há em nós .

    Parabens Raquel

    Raul Bivar Azevedo

    • Raquel Ochoa
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      Obrigada Raúl, como bem disse ou “proibida a entrada a quem não andar espantado por existir” por José Gomes Ferreira. Dos lemas mais bonitos que conheço e dos mais difíceis de praticar.

  6. Raquel
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    Com 9 anos fui pela primeira vez à Serra do Gerês e regressei lá aos 16. Entre esses sete anos, cresci e adquiri um sentido crítico mais apurado sobre o que me rodeava. Na minha segunda ida, reparei que tinham decorrido algumas transformações ao nível da arquitectura, mas que a Serra mantinha a sua essência intacta. E percebi que eu também, apenas aprendi a reparar mais atentamente e a absorver os detalhes com mais intensidade. Acho que viajar é mesmo isso. É sentir as emoções à flor da pele. Quando visitamos pela primeira vez um lugar, tudo é novo e, aguça a nossa curiosidade. Quando revisitamos, redescobrimos essa curiosidade nos pormenores que antes nos passaram despercebidos. E é aí que a magia acontece.
    Um grande beijinho

    • Raquel Ochoa
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      “É aí que a magia acontece”. Também acho Raquel. Abraço!

  7. Carlos Gomes da Costa
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    Raquel você salvou o meu passeio à Índia portuguesa em novembro de 2016. Bem haja.

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