PALAVRAS

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«Está comprovado que o vocabulário médio de um falante do português diminuiu drasticamente ao longo das últimas décadas. Temos cerca de 110 000 palavras dicionarizadas, sem falar nas locuções, e o português básico está reduzido a menos de 1000 vocábulos.»

Por: Isabel Rio Novo

Quando converso com os alunos ou com os leitores sobre instrumentos fundamentais para o escritor, menciono sempre os dicionários de língua. Sei que alguns dos meus colegas de ofício dificilmente admitirão que os consultam, e nós podemos acreditar neles. Pela minha parte, acho-os indispensáveis e sou viciada em todos, desde os recursos disponíveis online até aos pesados volumes do Houaiss ou do dicionário da Academia das Ciências. Porém, quando escrevo em casa, no meu pequeno mundo, a experiência de procurar palavras atinge outro grau de sofisticação, porque tenho à minha disposição dois dicionários de sinónimos antigos e deliciosos, o «Dicionário de Sinónimos da Língua Portuguesa» (1940) de Manuel José Pereira, herança do Paulo e que eu praticamente anexei à minha mesa de trabalho, e o «Diccionario de Synonymos» (1899) de Henrique Brunswick, que pertenceu a uma prima do meu avô, depois ao meu avô e agora é meu.

Está comprovado que o vocabulário médio de um falante do português diminuiu drasticamente ao longo das últimas décadas. Temos cerca de 110 000 palavras dicionarizadas, sem falar nas locuções, e o português básico está reduzido a menos de 1000 vocábulos. E quase todos reconhecemos que isso é mau, embora nem sempre saibamos explicar porquê (provavelmente, faltam-nos as palavras). Pela minha parte, gosto de me expressar com palavras certas e variadas, nas aulas, na escrita, no quotidiano. Não se trata de carregar o discurso com termos difíceis, trata-se de (re)descobrir e tentar semear ao meu redor o prazer de encontrar a palavra certa, a palavra que ressoa e vibra o mais possível os sentidos que desejo exprimir. É suposto os escritores gostarem muito destas coisas.

Dos dois dicionários antigos que indiquei, prefiro o «Diccionario de Synonymos», talvez porque o autor, em vez de simplesmente apresentar os vários termos integrados num contexto frásico, como sucede neste tipo de dicionários, tece saborosíssimas considerações acerca das (por vezes ínfimas) nuances de sentido que os separam. Por exemplo. Explica que «temer» e «recear» são sinónimos, mas «temer» é crer na probabilidade de um mal qualquer, ao passo que «recear» é acreditar na possibilidade de um mal, sem que tenhamos grandes fundamentos para o nosso receio. Que o «impalpável» é absolutamente ténue, mas o «intangível» é absolutamente imaterial. Que o «bonito» é sempre alegre, ao passo que o «lindo» pode ser severo. Que um homem «elegante», imagine-se, é bem diferente de um homem «garboso», pois «A elegancia está no aspecto exterior, no modelado da figura, no bem feito do talhe e no gosto no vestir. O garbo consiste mais na virilidade aparente do porte e nas qualidades varonis e pundonorosas do individuo.» Enfim, já estão a imaginar. Sei que gostariam que continuasse e que vos explicasse, por exemplo, as diferenças entre «alcouce», «lupanar», «prostíbulo» e «bordel», mas vou ser maligna (não «malvada», nem «perversa», note-se) e vou ficar por aqui.

Um último exemplo. Brunswick distingue «grosseria» de «descortesia», explicando que a primeira provém da falta de educação e que a segunda é a falta deliberada de consideração em relação a alguém. E abalança-se a comentar: «A grosseria pode ser desculpável; a descortesia não.» Confesso que achei a distinção magnífica, e assim a ponho à vossa disposição, para quando quiserem rotular convenientemente certas atitudes à vossa volta.

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©Isabel Rio Novo

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6 Comentários

  1. JOAO PEREIRA DA SILVA
    | Responder

    Tenho lutado mesmo em circuitos fechados pela interioridade das palavras, mas não as reduzindo a encriptação elas próprias a admitir-se sejam as próprias cifras e chaves da compreensão.
    Cada vez mais se usa seja o que for em falar em “cenas” de um acontecimento, de um sentimento, para chamar a atenção do que se pretende, portanto em informação encriptada que somente certos indivíduos do grupo, do circulo mais íntimo, conseguem apreender (de imediato), levando aos que não se incluem a pausas para entendimento, portanto a desencriptar.
    Teremos talvez assim uma comunicação de futuro, ou chegaremos à mudez que de outra forma a comunicação
    fique puramente desnecessária para além da simbologia que a “cena” poderá e não poderá passar em compreensão?.

  2. Alice Rios
    | Responder

    Meu Deus, as palavras.! Como gosto delas. E de dicionários…

    Belíssima crónica, esta!
    Faz falta, sobretudo aos trabalhadores da palavra, quem lembre a importância do rigor, bem como desses instrumentos que são os dicionários. Contra o empobrecimento vocabular.

    Bem haja, por tão saboroso texto.

  3. Jose Mendes
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    Gostei do que li. Afinal já não estou só. Tenho sido acusado, por quem lê os meus parcos escritos, de que por vezes utilizo termos muito rebuscados para transmitir uma ideia. Fico triste com a crítica, não pela crítica em si mas por constatar que não consegui passar a mensagem de que se devem utilizar termos, com a maior mais exactidão possível, para transmitir uma ideia ou um “estado de alma”. Talvez o defeito seja meu ou quem me lê possa ter uma capacidade ténue ou mesmo intangível de ultrapassar o limite dos 1000 vocábulos. Não sei se esse comportamento se enquadra na grosseria ou na descortesia. Mesmo assim não desculpo a ignorância de quem quer dar “recados”.

  4. Clara Marcos
    | Responder

    Adorei. Também eu amo consultar dicionários, são indispensáveis para mim.

  5. Liliana Josué
    | Responder

    Este texto fez renascer em mim a necessidade de procurar a palavra certa para momento exacto, tanto na escrita como oralmente, e não me deixar levar pelo facilitismo actual.
    Para mim a sua crónica foi muitíssimo útil . Obrigada.

  6. Helena Alves
    | Responder

    Parabéns Isabel por esta crónica tão informativa. Gostei do que li, é verdade que o nosso vocabulário português vai diminuindo pois o estrangeirismo vai ganhando terreno a uma velocidade quase incontrolável. Entristece-me ouvir pessoas formadas em comunicação e usar uma linguagem «estrangeirada» nos meios de comunicação pública. Já dizia o Saramago que o nosso português estava a ficar americanizado e com razão.

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