FOLHAS ACABADAS DE MORRER

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«Lembrei-me desta situação porque estou aqui a olhar para esta folha. Apercebo-me que as folhas escritas também estão mortas, assassinadas várias vezes.»

Por: Cláudia Lucas Chéu

Debaixo da árvore secular no jardim do Hospital Psiquiátrico Karl Jaspers, fora posta uma mesa coberta por uma toalha branca plastificada, com cinco cadeiras de ferro em volta. Em cima da mesa alguns pratos e talheres de plástico, um pacote de guardanapos de papel ainda por abrir e uma folha de plátano morta – caída acidentalmente no centro da mesa; uma coisa natural, acabada de morrer. A natureza morta dá-nos a sensação de ainda ser – uma coisa viva. Não a tratamos como um objeto comum de uso utilitário ou decorativo, mas foi nisso em que se tornou na realidade: num objeto. E isto serve para a folha acabada de cair da árvore, mas também para o homem ou animal que perdeu a vida. O cadáver destes torna-se num objeto com o qual não conseguimos lidar; temos dificuldade em aceitá-lo. Um corpo inanimado cumpre a sua essência estando apenas ali, prestes a entrar em decomposição, sem qualquer utilidade em potência. Uma massa inanimada, uma coisa, e queremos a qualquer custo fazê-la desaparecer.

Ao sairmos do Pavilhão 26, fôramos encarregadas de transportar as peças de cozinha que faltavam para compor a mesa e trazer o que viria a ser a sobremesa, um bolo de aniversário. Encontrava-me a meio da fila, trazia na mão direita o conjunto de copos de plástico, encaixados uns nos outros, empilhados, formando um tubo. Magdalena, à frente na fila, transportava o bolo – como se de um tabuleiro se tratasse – com uma segurança típica de um servente de hotelaria. Na fila, seguia-se Mieze, trazendo uma capa de desenho A4 debaixo do braço. A Dra. Heinrich caminhava de braços pendentes, trazia apenas um isqueiro no bolso – objecto fundamental, de fogo, para a concretização do clímax da festa: acender as velas do bolo. E, por fim, encerrando a fila, Adgam. Vinha abraçada a duas garrafas de vidro com água, transportando-as com desenvoltura, uma em cada braço.

Juntaram-se então em redor da mesa, começando a pousar os materiais. Mieze estendeu-me a capa de desenho.

Abre. Fiz para ti  – arqueando as sobrancelhas, esbugalhou os olhos.

Calma, Mieze, ainda nem acabámos de pôr a mesa – disse a Dra. Heinrich, torcendo os lábios em sinal de desaprovação, enquanto puxava uma cadeira para se sentar. Pousei o tubo de copos de plástico na mesa e aceitei a capa de desenho.

Abre, vá lá, abre – repetiu, inquieta, Mieze. Enquanto os restantes participantes preparavam a mesa, desfazendo a torre de copos, abrindo a embalagem de guardanapos, etc., espreitei para dentro da capa que me dera Mieze e deparei-me com um bloco de desenho A4. Folheei-o e vi que estava totalmente preenchido com desenhos de raparigas com óculos.

Sou eu?

És, mas não só. Também desenhei outras mulheres como tu. Fiz uma coleção chamada: objetofilia – disse, e retirou-me o bloco desenho das mãos, começando a mostrar-mo.

Desenhei mulheres que amam monumentos célebres, repara, comecei com a Torre Eiffel. Por exemplo, olha esta gaja gorda – apontando para o desenho –  está a casar com a torre. Vês a grinalda dela? Depois, tens aqui esta outra mulher nipónica, olha como desenhei os olhos dela; está a beijar o Muro de Berlim. E assim por diante. Desenhei mulheres apaixonadas por monumentos – prosseguiu –, são tudo histórias reais, vi no Google™.

Não soube o que dizer. Fiquei em silêncio.

O caderno de desenhos termina contigo, claro.  Tu e o teu livro – abrindo-o na última folha. Tive de imaginá-lo, a partir da tua descrição. Não é um objeto célebre como os outros, mas espero ter conseguido apanhar a essência da coisa, a forma como vias esse objeto. É verdade que fazias amor com o teu livro?

Permaneci imóvel. Depois, segundo me contaram à posteriori, atirei-me para cima dela, derrubando-a, e dei-lhe vários murros na cara até a eliminar.

Lembrei-me desta situação porque estou aqui a olhar para esta folha. Apercebo-me que as folhas escritas também estão mortas, assassinadas várias vezes. Na génese em papel – pela passagem do homem extraindo a madeira das árvores, fazendo-as tombar. Depois, pelo autor, ao preenche-las, material ou digitalmente, corrompendo a sua brancura. Creio estar de novo perante uma natureza morta que, tal como a folha caída da árvore e o cadáver de animal ou pessoa, nos dá a ilusão de que ainda vive. Um equívoco que rapidamente tentamos resolver, no caso de um cadáver, perante o horror do confronto, mas que, na realidade, não entendemos. Afastamo-lo do olhar.

Esta folha digital morrerá nas minhas mãos – sem antes ter tido uma existência viva. O potencial de vida que depositamos num objeto também se extingue e aniquila.

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©Cláudia Lucas Chéu

Crónica fictícia reescrita a 15 de Junho 2017

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12 Comentários

  1. Helena Ferreira
    | Responder

    Adorei o texto!!!

    • Cláudia Lucas Chéu
      | Responder

      Obrigada.

  2. MF Soares
    | Responder

    Gostei deste texto. Mas, por favor , fôramos encarregues não, mas sim fôramos encarregados ou encarregadas.
    E se é certo que o autor, ao preencher a folha, corrompe a sua brancura, também me atrevo a dizer que a mesma folha se sentirá revigorada cada vez que alguém desfruta do seu conteúdo. Será?

    • Cláudia Lucas Chéu
      | Responder

      Sinceramente grata pelo reparo e atenção. A correção já foi feita.
      E sim, talvez seja possível revigorar a página através do leitor.

    • Cláudia Lucas Chéu
      | Responder

      Sinceramente grata pela atenção e cuidado. A correção já foi efectuada.
      E sim, talvez seja possível revigorar a folha através do leitor.

  3. Rosa Margarida
    | Responder

    Muito bom!

    • Cláudia Lucas Chéu
      | Responder

      Grata.

  4. João Felgueiras
    | Responder

    Tem razão o MF Soares o verbo encarregar seja com que auxiliar for só tem o particípio encarregado .

  5. Ana Fernandes
    | Responder

    Sou sincera… Li a título de curiosidade…
    E Muito bom!! Adorei!! Parabéns!!
    Continue o excelente trabalho.
    Beijinho
    Ana

    • Cláudia Lucas Chéu
      | Responder

      Obrigada.

  6. Teresa Cheu
    | Responder

    Muito bom.
    Parabéns, Beijinhos.

  7. Quito Arantes
    | Responder

    Gostei do texto, muito expressivo, Era evitável os murros na amiga, mas tudo bem.
    A natureza morta tem destas coisas é o húmus para Ela se renovar.
    Abraço , parabéns

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