Coreia, a Sul

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«Só ao sétimo dia conheci um escritor coreano capaz de dizer três palavras em inglês. O escritor, um jovem poeta, desenhava e pretendia reunir os seus poemas, enquanto eu alinhavava dois romances»

Por: João Reis

       O ar tinha uma consistência pesada que se adequava ao caos das ruas daquele bairro, o ar era espesso e amarelo-acinzentado e eu acabara de chegar. No primeiro dia, vi o porteiro e o cão. No segundo dia, vi o porteiro e o cão. Fora do recinto ajardinado da residência, cruzava-me com milhões de pessoas, os seus carros, os seus sacos de plástico. Só ao sétimo dia conheci um escritor coreano capaz de dizer três palavras em inglês. O escritor, um jovem poeta, desenhava e pretendia reunir os seus poemas, enquanto eu alinhavava dois romances e os outros residentes se escondiam nos quartos e, entre sons misteriosos, evitavam as áreas comuns. Outros hábitos!

       Com a maior parte do tempo passada em Seul, não ficaram por visitar Sokcho, o parque nacional de Seoraksan, Gyeongju, a ilha de Jeju e a área em redor de Gwangju. Cinco semanas sem tempo para calmarias no país do pali-pali, porque, ao contrário dos seus vizinhos japoneses, os sul-coreanos não são tranquilos, oh, não, são apressados na comida, na estrada, ao entrar nos transportes públicos, não há filas de espera, quem tiver duas pernas para correr é rei ao entrar nos autocarros, o motorista arranca assim que o último passageiro ponha um pé no veículo, cuidado ao atravessar, as motorizadas não param nos sinais vermelhos e sobem aos passeios, um rapaz das pizzas quase me arrancava um pé. São outros hábitos os da megalópole com mais do dobro da população portuguesa, a gigantesca cidade com aldeias no seu interior, ora nos confrontamos com arranha-céus, ora com casinhas de madeira, práticas características das suas cidades médias e pequenas povoações, costumes de um povo que sobreviveu ao colonialismo japonês, a uma guerra civil desastrosa e sob uma ditadura até aos anos oitenta, que pelo trabalho alcançou um chamado milagre económico, no qual a tecnologia avança mais rapidamente do que a mentalidade, um país que viu a sua Presidente da República recentemente deposta por corrupção, nepotismo e ligações a seitas, no qual se pintam as caudas dos cães com tinta roxa, cães-bonecos-de-peluche em malas de senhora, uma sociedade hegemónica que se reúne em livrarias enormes, uma nação segura, quase sem crime nem grande interesse por assuntos estrangeiros que não o basebol, sem misturas raciais, onde todos se vestem de igual, se penteiam das mesma forma, os jovens são muitos e enchem as ruas, veios de betão e luz azul envoltos por montanhas verdes, um país que não estava quente em maio, segundo a responsável sul-coreana pela minha estadia na residência. Não está calor, disse ela. De acordo com ela, não estava calor. O ar porventura nem estará poluído.

       O jovem poeta ofereceu-me uvas, cereais e uma sobremesa de toranja, poderia oferecer-me também castanhas ou batata-doce assada, conquanto sejam mais típicas da época fria. No entanto, o tempo não estava quente. Para onde fora o calor de maio que a minha supervisora sul-coreana não sentia? Não sabia, pouco ponderei o problema. No fundo, o que me inquietava eram aquelas motorizadas que não paravam nos sinais vermelhos, isso e aquele cartaz da rapariga desaparecida, e refletia enquanto escrevia na secretária da residência, defronte a uma árvore enorme, em Yeonhui, Seul.

©João Reis

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4 Comentários

  1. Encontros e desencontros tecidos no conhecimento e crescimento de nós.
    Uma bela Crónica na mostragem das inquietações dos mundos quando nos questionam.
    As diferenças, que afinal, são pontuais. Havia o poeta. Bastava,

    Obrigada

  2. Encontros e desencontros tecidos no conhecimento e crescimento de nós.
    Uma bela Crónica na mostragem das inquietações dos mundos quando nos questionam.
    As diferenças, que afinal, são pontuais. Havia o poeta. Bastava,

    Obrigada

  3. Liliana Josué
    | Responder

    É sempre bom usufruirmos o conhecimento de outras civilizações através da escrita de quem lá esteve.

    Gostei muito da sua crónica.

    • João Reis
      | Responder

      Muito obrigado pela leitura, Liliana Josué e Maria José Areal!

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