Carne viva

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«O taxista pagou por tudo duma vez só. Parei entre prantos maternos e um ataque epiléptico do pai.»

Por: Luís Filipe Borges

     Estou a pensar nas coisas que dizes quando me encontro entre as tuas pernas ou atrás de ti. Mil infernos de conforto a dois, fantasia isolada das rotinas de trintões divorciados e sem ilusões já. Estou absorto nesses pensamentos com o sabor gourmet dos melhores pecados e nem dou por dois acontecimentos. A semi-erecção que já me atrapalha o acto de conduzir e a conversa dos meus velhos sobre exames médicos, seguros de saúde e o último escândalo nas revistas da fofoca. Uma algaraviada decerto benfazeja mas prefiro o meu auxiliar para passagens de tempo. Uma travagem mais brusca forçada pelo instinto faz-me notar a presença deles mas súbito regresso às imagens impressas no cérebro: o fio dental que abandonaste propositadamente numa cadeira da sala, o tom da pele do teu rosto bem acompanhado pela mancha rosa que acende e apaga no teu peito quando te vens, as botas pretas altas com que me surpreendeste da última vez.

     O carro conduz-se, por si, piloto automático mental e involuntário, força do hábito, mesmíssimas estradas de sempre e apenas passageiros novos. Sorrio e isso interrompe o diálogo dos progenitores. Querem saber o que me diverte. Digo-lhes Nada, algo de que me lembrei, sem importância. E arreganho ainda mais a tacha, prova-mo o retrovisor, só de imaginar o que sucederia se – ao invés da mentira branca – optasse por dizer-lhes a verdade.

     Volto a nós e ao depois de. Menos vontade de rir, nenhuma até. Lembro o anel que me ofereceste embora “sem nenhuma obrigação de o usares”. Daquele par de vezes nestes meses todos em que ficaste totalmente séria, sisuda como a única coruja acordada numa imensidão florestal – e perguntaste, sem contexto nem aviso prévio, “para onde vamos?”. Fico nesta reflexão segundos a mais do que deveria e reformulo: na verdade ficaste melancólica bem mais do que um par de vezes somente e as minhas vagas tentativas de resposta só te fizeram dobrar sobre ti mesma como um bicho-de-conta assustado. Queria pedir-te desculpa, mas para quê.

     De modo a afastar esta nuvem sombria esforço-me por lembrar todos os pormenores daquele fim-de-semana em que nos trancámos num hotel de luxo ao sul, acompanhados de vinho bom e cocaína melhor, e fodemos com todos os sentidos mais despertos do que os dum suicida arrependido, a grunhir como os animais que verdadeiramente somos, num comportamento de barbárie pura que só a química resultante de fodas épicas consegue assegurar. Essas são as alturas, sabes bem, em que estamos no nosso melhor. Corpos suados defronte de espelhos, arranhões na pele e cabelos repuxados, gritadas todas as palavras que há muito-tanto-distante tempo nos fizeram corar. A marca dos teus dentes nos teus ombros e braços, às vezes no meu peito, o orgulho sôfrego do silicone das tuas mamas, os saltos altos tão anacrónicos para uso horizontal em camas avulsas – mas como tu sabes o quanto me excitam esses símbolos singulares de feminilidade, a perna mais torneada, o corpo elevado, a atitude poderosa, possuir uma mulher de saltos altos apenas é dormir com todo o vosso sexo duma só vez.

     Portanto não estou efectivamente cá quando numa zona de 30 kms/hora um táxi acelera de propósito para se atravessar à minha frente e, interrompidos de forma abrupta os bólides e estacionados de esguelha a um par de centímetros um do outro, quais rinocerontes enfrentando-se pelo privilégio de acasalar com a fêmea prestes a testemunhar a refrega, só retorno ao momento presente quando vejo o condutor barafustar por palavras e gestos, ambos (in)dignos uns dos outros, coerência arruaceira. Vidros abrem-se, ofensas trocam-se e em menos de 5 segundos estou a sair intempestivo do carro na direcção do homem de meia-idade momentâneo adversário, apesar da mãe me chamar e invocar o Criador e implorar que permaneça na viatura.

     É de noite e estamos frente a frente. A zona é tranquila, não há mais rinocerontes por perto. Medimo-nos um ao outro e há uma escalada de insultos. Certo que, durante um nano-segundo, escutei um grilo falante garantir-me que não valia a pena, irracional tudo isto, mas que diabo, o tipo tem muito bom corpo para levar e aguentar – vocifera um imaginário demónio sobre um dos ombros; e não sei se foi do enésimo “filho-da-puta”, da agravante de ter os meus pais ali mesmo atrás, dos meus 39-quase-40-anos-copo-de-água-prestes-a-transbordar, mas aconteceu.

     Enfiei-lhe o primeiro de baixo para cima e provavelmente parti-lhe de imediato a cana do nariz. Nunca me saíra um murro assim nem prevejo um bis – ainda que longínquo no futuro. Mas sabes como é. Lembras-te daquela noite no Norte, em tua casa, quando o tema da conversa entre quecas era a quantidade enciclopédica que acumulamos de conhecimentos inúteis? Pois talvez um dos meus neurónios tenha como única função guardar a info segundo a qual uma pancada no septo nasal provoca a maior dor que pode ser infligida ao ser humano. Curioso, não é um pontapé nos testículos, embora seja provável que este venha num renhido 2º lugar. E quiçá a utilidade exclusiva de outro neurónio fugidio se caracterize pela posse razoável da noção de upper cut, e que os pugilistas os procuram como avançados perseguem golos. Não sei. Sucedeu apenas.

     Acredito que o segundo gesto, um biqueiro nas costelas do lado esquerdo, bem preparado pelo facto do fulano se ter agarrado instintivamente ao nariz enfiado crânio dentro e de pronto se debruçado sobre o próprio corpo de joelhos, foi para puni-lo enquanto símbolo duma classe de racistas, xenófobos, machistas, comentadores de vão-de-escada. Óbvio, não faço ideia se este indivíduo em particular se angustia pelos dois Salazares de que Portugal precisa nem quantas vezes proclamou a passageiros incautos a indómita necessidade do regresso “dos pretos a África”, mas naquele instante vi tudo isso reflectido nele. E assim foi.

     Não parei. Apesar da memória fugidia dum taxista que me ofereceu um livro de poemas de sua autoria e uma das conversas mais agradáveis entre todos os diálogos que alguma vez mantive com desconhecidos. Não parei, pese embora outro nano-segundo de clareza me ter garantido que o homem tinha prioridade.

     Já deitado de lado acocorei-me sobre ele, as minhas pernas manietando as suas, passe a expressão, e fui desferindo braços retesados com cadência de ritmo tribal. Levou pelo chefe que me quis foder, levou pela última puta que amei, levou por aquele cão atropelado mesmo à minha frente quando tinha 11 anos, o ganido lancinante que lançou para jamais abandonar os meus tímpanos, as lágrimas de impotência e raiva que o assassino em fuga me provocou.

     Sangue a espirrar por aquele bully do liceu que morreu gordo e bêbado ao desequilibrar-se numa falésia madeirense; dentes no chão por raiva da cobardia do meu pai, sempre timorato, não se brinca com a tropa, o respeitinho é muito bonito, paga e nem tussas; o som seco de ossos a quebrarem-se pela maldita mãe da minha mãe – que lhe arruinou sonhos e cantos. O taxista pagou por tudo duma vez só. Parei entre prantos maternos e um ataque epiléptico do pai.

     Agora tenho os nós dos dedos em carne viva, Mara, e vejo como muito incerta a hipótese de estar, de novo, dentro de ti.

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©Luís Filipe Borges

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12 Comentários

  1. Lara Filipa Seixas
    | Responder

    Adorei!
    Uma crónica que retrata toda a perversidade humana. Acabei a sentir a dor acumulada do narrador e, mais impressionante, quando se lê a história na pele de alguém é impossível julgar as suas atitudes. Muito bem escrito. Uma boa faina e que me fez distrair da realidade durante uns bons minutos. É por isto que leio: pela paz.

    Obrigada Luís e obrigada a esta incrível página por partilhar com os leitores bons pedaços de palavras.

  2. Gostei de ler esta crónica. Também tenho muitas do mesmo género que, publico habitualmente, em «A Voz de Paço de Arcos» revista/jornal bimestral de que sou editor. Uma sugestão: que tal publicarem aqui, trabalhos literários de quem tem trabalhos na gaveta?

  3. Rosa Margarida
    | Responder

    Gostei muito.
    Uma crónica acutilante, retrato de uma sociedade em “carne viva”.
    Excelente estreia!

  4. Paula Martins dos Santos
    | Responder

    Gostei muito da sua crónica. É das Taís situações que se encontram dentro de nós. Obrigada pelo momento bem passado.

  5. Lucinda Torrao
    | Responder

    É um texto muito bom…
    Todos os seres humanos podem conter em si o melhor mas também o pior…
    O nosso maior desafio é realmente conter o pior que há em nós….

  6. Bem escrito,
    Escorreito na forma e na denuncia.
    Sabemos como são dolorosos os caminhos. E sim… andamos em carne viva, pelo que nos acontece, pelo que guardamos no baú, pelo que nos falta viver.
    Parabéns.

  7. Isabel
    | Responder

    Escrita boa….mas muito formatada de verdades criadas…e nao sentidas…
    Quando se escreve o que se vive …a escrita é uma imagem…uma foto escrita que o leitor vê e sente ao ler cada linha…..

  8. Luís
    | Responder

    A verdade escondida no meio da ficção. A descrição do ato sexual não me tocou nem com a ajuda da coca. Finalmente sou anti-violência. Por tudo isto não comento…

  9. Maria Lopes
    Gostei de ler esta crónica que vai à raiz do que existe de mais animal em cada um, ainda que só escreva assim quem viveu intensamente essa – direi eu – realidade indomável tanto na intimidade como na relação social… Estar preparado para enfrentar e superar momentos destes pressupõe o conhecimento de como eles podem surgir a qualquer momento.

  10. RuiFerra
    | Responder

    Adorei, obrigado.

  11. Alice
    | Responder

    Boa cadência , o texto respira, mesmo, mas cai numa certa banalização da violência “de cama” dos murros , da cocaina, e de uns pais quase velhotes, inocência grisalha, metida à pressa, para contrabalançar a outra violência e , finalmente , chegar a zeros .
    O texto acabou no princípio dele mesmo !
    Sair do zero – casa de partida- é a questão , Luís , mergulhar, diria eu

  12. Andreia AM
    | Responder

    Gostei muito, “Stôr”!

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