Biblioteca da Escola Secundária de Miraflores e a junção de saberes

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Reportagem escritores.online©

Quando se entra numa biblioteca escolar não se está à espera de encontrar sofás coloridos e de aspecto confortável num espaço aberto e convidativo. Espera-se um local talvez um pouco soturno, apertado e demasiado carregado de livros.

Quando se entra na Biblioteca da Escola Secundária de Miraflores a sensação é precisamente oposta. Há os tais sofás coloridos num espaço amplo e iluminado, com estantes e livros bem arrumados, computadores e várias mesas de trabalho dispostas pelas salas. Não há aperto, nem vestígio de soturnidade.

A professora bibliotecária Zelinda Baião, coordenadora das três bibliotecas do Agrupamento de Escolas de Miraflores, defende que uma biblioteca escolar deve ser essencialmente “um local de bem-estar”. Adianta: “E o que é que é bem-estar? Bem-estar não é um espaço lúdico, porque isso é mais lá fora, o aluno tem que vir para aqui e sentir-se bem, mas tem que ter consciência das regras. Portanto, ele não pode estar aqui como está lá fora ou na sala dos alunos. É um espaço em que o aluno vem descobrir. Os livros são essenciais, como é óbvio, as tecnologias não são de colocar de lado e é um espaço em que os alunos têm um acompanhamento extra daquele que têm na sala de aula, porque aqui eles complementam aquilo que estudam”.

Espaços agradáveis e de bem-estar promovem descobertas e atraem os alunos que se vão vendo entrar e sair da biblioteca. Há também aqueles que por ali vão permanecendo e transitando entre os computadores, os sofás e as mesas de trabalho. Nota-se que há uma relação de intimidade com o espaço e que estabelecem um certo à vontade com as ferramentas de trabalho disponíveis.

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As actividades da biblioteca

Segundo a professora bibliotecária, as actividades promovidas pela biblioteca são outros dos atractivos que entusiasmam os alunos que preferem as em que têm um papel mais activo. A Troca de Livros, Dar Voz aos Alunos (em que os alunos do ensino secundário fazem sessões para os mais novos sobre “Dicas para vencer nos estudos”), Poemário (colocação de poemas em locais estratégicos da escola, como casas-de-banho, bar dos alunos e professores, biblioteca, etc.), Leitura Expressiva ou as sessões com convidados são actividades às quais os alunos aderem com agrado e se envolvem.

As sessões com convidados já levaram à escola escritores, investigadores, jornalistas e artistas plásticos. Ao longo dos oito anos em que Zelinda Baião está à frente da biblioteca já por ali passaram cerca de setenta pessoas.

A professora de Português e Francês esclarece: “As actividades estão sempre ligadas à promoção das três literacias: da leitura, dos média e da informação. Procuro fazer actividades relacionadas com os currículos. Portanto, o que fazemos é trabalhar determinado tema com as turmas e depois trago convidados que vêm falar sobre esse tema”. Já foram tratados temas como o bullying, a homossexualidade, a segurança na Internet ou a literatura de viagens, entre outros.

Miguel Real, Ricardo Araújo Pereira, Cristina Carvalho, João Tordo, Gonçalo Cadilhe, Teolinda Gersão, Richard Zimler, Joana Latino, Tiago Salazar, Daniel Sampaio e o neto Gonçalo Sampaio, José Pedro Soares foram algumas das personalidades que falaram com os alunos, bem como professores da escola que se destacam nas áreas da fotografia, literatura e artes e alguns ex-alunos que foram contar as suas experiências, entre muitos outros convidados.

As efemérides também são comemoradas com actividades especiais: o 25 de Abril e o Mês Internacional das Bibliotecas Escolares são duas que nunca são esquecidas. Por exemplo, em duas comemorações distintas do 25 de Abril, a escola convidou os ex-presos políticos José Pedro Soares e Aurora Rodrigues que contaram as suas experiências e proporcionaram o enquadramento dos seus testemunhos nas matérias escolares, o que fez com que os alunos tivessem uma visão mais próxima dos acontecimentos que são estudados nas aulas.

Os alunos do ensino especial, nomeadamente do Núcleo de Espectro de Autismo do agrupamento, são integrados em algumas destas actividades, como por exemplo, na Festa da Poesia, na comemoração do Dia Internacional da Diversidade Cultural ou no Sarau Cultural e irão participar no próximo encontro de educação promovido pela Nova Acrópole, organização internacional com a qual a biblioteca mantém uma parceria.

Além da Nova Acrópole, a biblioteca da Escola Secundária de Miraflores também tem como parceiros a Biblioteca Municipal de Oeiras (da qual é leitora e portadora de uma cartão de leitor especial que lhe permite requisitar os livros de que os alunos precisem com um prazo mais alargado para a entrega); a Associação de Professores para a Educação Intercultural (APEDI); a Nova Atena – Associação para a Inclusão e Bem-Estar da Pessoa Sénior pela Cultura e Arte e as associações de pais.

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Concursos

A biblioteca da escola, que existe há cerca de trinta anos, conta presentemente com uma equipa de doze pessoas, tendo sido integrada na Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) quase desde o seu início, há vinte anos. Os alunos da escola participam em concursos promovidos pelo Plano Nacional de Leitura com regularidade e até já ganharam alguns prémios.

Em 2010, o aluno Ricardo Batista ficou em primeiro lugar no concurso “Faça lá um Poema”, com o poema O Homem das tuas tardes.

João Porfírio ficou em segundo lugar no mesmo concurso, em 2014, com o poema Geração Online e Inês Mascarenhas venceu a 4ª edição do Concurso Nacional de Leitura.

Este ano, no concurso da SIC Esperança em parceria com a RBE sobre a violência no namoro, a escola conquistou o 2º lugar com o trabalho ”Escolhe … ser feliz”, desenvolvido na disciplina de Oficina Multimédia.

Os alunos participaram também no concurso Literacia 3D e no Oeiras Internet Challenge, este último promovido pela Câmara Municipal de Oeiras, bem como em vários concursos internos.

Como nem só de actividades e concursos se faz uma biblioteca, os livros e as novas tecnologias têm um lugar de destaque no funcionamento da biblioteca.

E os alunos gostam: “Este ano estamos no final do ciclo avaliativo da biblioteca pela RBE e vamos fazer um relatório de avaliação e temos estatísticas da opinião dos alunos que dizem que eles gostam da biblioteca. Claro que o que gostam mais são dos computadores. Eles pedem mais computadores, apesar de até termos bastantes. Temos dezoito computadores. Temos portáteis, temos tablets, que eles utilizam quando todos os computadores estão ocupados. Desde que remodelámos a biblioteca com os sofás, o espaço é também um bocadinho mais atractivo. Na hora de almoço, como almoçam rapidamente, por vezes vêm para a biblioteca, e podem vir ver um filme ou ouvir música. De uma maneira geral, eles manifestam um gosto por vir para aqui”.

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aLeR+

A promoção do prazer da leitura é uma das vertentes importantes da biblioteca, por isso esta integra o Projecto aLeR+, há cerca de dez anos, que tem como finalidade “colocar o prazer de ler no centro dos esforços da escola para elevar os níveis de aprendizagem e o sucesso dos alunos”.

Num olhar sobre o prazer da leitura, Zelinda Baião relata: “Os mais novos lêem bastante… Ainda agora tive aqui alunas, por acaso eram duas alunas do 10º ano, que vieram buscar cada uma três livros para ler nas férias. Sim, de uma maneira geral, eles ainda vão tendo prazer em ler, lêem é aquilo de que gostam e eu tenho que ir ao encontro dos gostos deles. O que é que a aluna veio requisitar? Não veio requisitar um Eça de Queiroz, ou um João Tordo, ou um Zimler, não. Isso será talvez um pouco mais tarde, se calhar já na faculdade. Veio requisitar uns livros de Paula Pimenta, uma escritora brasileira, por acaso já cá esteve, que tem livros para adolescentes. Depois temos os Cherub do Robert Muchamore que os alunos de 3º ciclo lêem muito. Tenho a colecção toda do Cherub. Mas, pronto, temos que ir ao encontro dos gostos deles. Mais vale isso do que não lerem. Se calhar, não é educação literária, mas temos que começar por algum lado. E depois sugerimos-lhes outros livros”.

Quando os alunos têm que ler um livro para os chamados “contratos de leitura”, no ensino secundário, a biblioteca, em conjunto com os professores de Português, selecciona uma série de livros que, tendo em conta os gostos dos alunos, passa pela literatura de viagens, pelos romances históricos e pelos livros que sejam de leitura mais simples de forma a incentivar e dar a conhecer aos alunos uma maior variedade literária, conforme explicou a professora bibliotecária.

Alunos na sala multimédia e aluna do ensino especial apoiada por professora

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Os pais e a escola

A biblioteca também tenta envolver os pais nas suas iniciativas, tendo já dinamizado algumas em que estes são o público-alvo, tal como actividades sobre segurança na Internet ou sobre a adolescência, em que convidou especialistas nestas áreas para virem falar aos pais.

Zelinda Baião pensa que a entreajuda entre pais e professores é fundamental para que se faça um bom trabalho com os alunos. “A escola é o reflexo das vivências e das famílias dos alunos…. O que noto é que, nestes últimos anos, as coisas têm vindo a piorar, os miúdos estão mais hiperactivos, mais irrequietos, mais indisciplinados. E a escola tem que fazer tudo. (…) As coisas estão a mudar muito rapidamente. Por um lado, as tecnologias ocuparam as casas e separaram as pessoas e por outro as complicações da vida das pessoas levaram-nas a muitas separações e situações de instabilidade para os alunos”.

Na relação pais / escola chama a atenção que será preferível os pais e os professores não trocarem acusações, mas manterem um diálogo aberto para ultrapassarem em conjunto os problemas dos alunos. “A escola tem que ser um parceiro e não devem estar uns num lado e outros noutro. Os pais pedem um bocadinho responsabilidade aos professores pelo insucesso dos filhos e depois os professores também pedem responsabilidade aos pais pela educação. Andamos todos aqui um bocadinho no que parece ser uma luta, mas não devia ser assim. Devíamos era caminhar lado a lado e entreajudarmo-nos”.

“Eu acho que os professores fazem muito pelos alunos, porque além de lhes darem os conteúdos programáticos exigidos pelo ministério, tentam dar-lhes o outro saber, que não é o saber enciclopédico, é proporcionar-lhes outras actividades, é fazê-los sentir bem, é terem um espaço agradável para estarem, o que também é um bocadinho o papel da biblioteca… Isso também é importante, não é?”, questiona.

Sobre o papel da biblioteca, Zelinda Baião resume: “O meu grande objectivo aqui na biblioteca é promover as literacias, fazer com que o sucesso aumente, fazer com que os alunos tenham melhores saberes, mas também que sejam melhores pessoas, porque isso também é importante. Por exemplo, quando falamos da adopção por casais do mesmo sexo, é importante que os alunos desenvolvam um espírito tolerante, que não tenham preconceitos. Aliás, nós começamos no pré-escolar a fazer isso com o projecto de Filosofia com crianças que serve precisamente para desconstruir estereótipos e preconceitos”.

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“Ler é ver através das palavras”

Quanto ao reflexo da leitura nas capacidades dos alunos, a professora bibliotecária observa: “Quem lê muito, escreve melhor. Os alunos que lêem muito escrevem bem e depois são aqueles alunos que querem participar nos nossos concursos e têm bons resultados. Agora fomentar a leitura não é uma tarefa fácil”. A professora adianta que também a leitura lhes dá ferramentas para o sucesso escolar como “a aquisição de vocabulário, a construção frásica… A leitura é um mundo, é descoberta. Os alunos podem aplicar aquilo que lêem nos mais variadíssimos contextos. Um aluno que lê bastante vai ter ferramentas, não só para a disciplina de Português, mas para poder interpretar um texto, interpretar uma pergunta, escrever um texto numa outra disciplina qualquer. O problema dos alunos, muitas vezes, é que não conseguem entender o que lá está, porque não têm hábitos de leitura. Os hábitos de leitura não se adquirem quando vêm para aqui no sétimo ano. Fomentamos, mas já deviam vir de um bocadinho antes”.

No entanto, nota que apesar de haver alunos que não têm hábitos de leitura, os que os têm são em maioria os do 3º ciclo e que os vão perdendo gradualmente no secundário, mas que os retomam no ensino superior, talvez porque a adolescência seja uma idade em que há demasiados estímulos, por isso pensa que são tão importantes as actividades em que os alunos podem estabelecer contacto com escritores, pois esse contacto pode influenciá-los positivamente para que não se afastem da leitura neste período do seu crescimento.

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Site do Agrupamento de Escolas de Miraflores: http://www.aemiraflores.edu.pt/

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Um comentário

  1. Maria Alice Lopes do Nascimento
    | Responder

    Muito, muito interessante, aqui há vontade de romper com a ignorância, não sejam humildes, divulguem, para que este projecto dê muitos frutos.

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