BdMania: Uma mania em quadradinhos

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Reportagem escritores.online©

Há filmes americanos que retratam bem esta “mania” da banda-desenhada. Uma namorada que oferece ao namorado aquele número especial de uma revista de BD do seu super-herói preferido que o deixa felicíssimo; as enchentes nas livrarias no dia de lançamento de um novo comic; colecções de revistas intermináveis que decoram estantes e se empilham em caixotes nos quartos de alguns norte-americanos são algumas das imagens que chegam a Portugal da “bdmania”, neste caso, norte-americana.

Em Portugal, também há um local onde se pode viver esta espécie de loucura pela Bd. Chama-se BdMania, é em Lisboa e é uma livraria especializada em banda desenhada.

Foi fundada em 1994, pelas mãos de Paulo Costa e Pedro Silva, quando se deram conta que, em Portugal, havia uma falha no mercado da banda desenhada.

Paulo Costa, um dos proprietários da BdMania

A BdMania surge para “dar resposta à falta de livrarias especializadas em banda desenhada de origem norte-americana”, explica Paulo Costa, co-proprietário deste espaço. A livraria, primeiro, situada na rua Gomes Freire, perto do Campo Mártires da Pátria, passou, dois anos depois, para a localização actual na Rua da Flores, junto à Praça Luís de Camões, em Lisboa.

No início a BdMania não era a actividade principal de nenhum dos dois sócios, no entanto, mais tarde, o crescimento da livraria assim o exigiu. Hoje, o espaço já é pequeno para tantos comics, mas na medida certa para receber e fornecer os leitores deste género literário.

A loja aceita encomendas e faz por atender todos os pedidos dos leitores que seguem as histórias de quadradinhos. Estes podem inclusivamente encomendar as novidades dos comics com antecedência, as famosas standing orders que são uma espécie de assinatura, mas em que o cliente vai levantar as colecções à loja e, assim, pode seguir as novas histórias que se saem mensalmente.

Comics

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A banda desenhada, ou Bd, em português; bande dessinée em francês; comics na expressão norte-americana; historieta na argentina; história em quadrinhos, ou somente quadrinhos no português do Brasil; ou fumetti em italiano é considerada uma arte, a 9ª arte na escala de Ricciotto Canudo. Esta forma de expressão artística conjuga o desenho e a narrativa e permite uma leitura das histórias sequencial, juntando duas artes, desenho e literatura, numa só.

Aparentemente de leitura fácil, a banda desenhada nem sempre é valorizada, sendo por vezes associada a uma forma de literatura imatura ou, por outro lado, associada a um nicho de leitores mais maduro.

Paulo Costa conta como exemplo o que lhe acontecia quando tinham banca na Feira do Livro de Lisboa ao lado da Editora Kalandraka e havia crianças que se dirigiam à da BdMania encantadas pelos super-heróis de algumas capas de comics, enquanto os pais lhes tentavam mostrar os livros da outra editora: “Isto acontecia todos os anos com miúdos de todas as idades… Quando um miúdo vinha para a nossa banca, os pais franziam muito o sobrolho, puxavam-no e diziam “Isso ainda não é para a tua idade!” ou “Isso já não é para a tua idade!”. Portanto, o miúdo nunca tinha hipótese… Acho que isto é revelador de como as pessoas vêem a banda desenhada… É assim uma coisa abastardada que, como tem bonecos, deve ser para miúdos, mas ao mesmo tempo será que é para miúdos? Porque, de vez quando, tem muita violência e coisas um bocado negras e também há umas fulanas despidas…”

Publicações anglo-saxónicas e franco-belgas

Paulo Costa divide as publicações em duas origens principais: franco-belga e norte-americana. Explica que quando abriram a loja optaram “por ter uma livraria que vendesse as publicações originais, porque era o que não se encontrava em Portugal em meados da década 90. Era comum encontrarem-se as edições franco-belgas como o Tintin, o Asterix, o Corto Maltese, Blake & Mortimer… Mas já na altura havia muitos leitores despertos para a banda desenhada anglo-saxónica… Esta, quando chegava a Portugal, chegava em pouca quantidade relativamente à produção e vinha em traduções brasileiras. As edições brasileiras eram essencialmente do género super-heróis, ou seja, havia toda uma produção de banda desenhada norte-americana muito mais vasta que não chegava cá. O que nós procurámos foi ter essas publicações que iam desde os clássicos norte-americanos (como por exemplo, o Príncipe Valente, o Tarzan, o Buck Rogers e mesmo o Batman e o Super-Homem mais antigos) até às novidades dos anos 80 e 90 no formato comic book, que é aquela revista periódica de lombada agrafada e de trinta e duas páginas.”

Em determinada altura, a livraria chegou a estar dividida em Bd franco-belga e anglo-saxónica, tendo também secções dedicadas a autores espanhóis e japoneses, editadas nas línguas originais.

Hoje, a BdMania tem principalmente edições anglo-saxónicas, pois além de o inglês ser a língua que os portugueses melhor dominam, os leitores de um género de Bd dificilmente lêem outro género diferente do deles. Agora, a divisão da loja é por formatos: os comics (formato revista) e os livros (de capa dura ou cartonada).

Quanto às traduções em português das edições franco-belgas, Paulo Costa justifica não as ter presentes na livraria: “Para isso, há as Fnacs, as Bertrands e as Bulhosas… A nossa intenção, quando fundámos a BdMania, era ter a banda desenhada que não se encontra nas outras livrarias. Não fazia sentido para nós passarmos a ter também aquilo que há nos outros lados, até por uma questão de logística… A solução passou por deixarmos de ter as edições franco-belgas e dedicarmo-nos, praticamente a 100%, às edições norte-americanas”.

Com a abertura do mercado norte-americano à banda desenhada franco-belga, dos últimos anos, a BdMania passou a ter também estas em edições americanas e em inglês.

A banda desenhada nos Estados Unidos tem uma forma de produção muito diferente da europeia, já que naquele país há um maior ritmo de produção, havendo uma indústria quase semelhante à do cinema. Todos os meses saem novas edições que funcionam em série, em que cada fascículo de determinada colecção é a continuação do anterior. Deste modo, os leitores vão seguindo a história mensalmente, como por episódios, até a completarem. Ao fim de cinco ou seis fascículos, a colecção é compilada em livro, o que dá duas opções ao leitor: a de ir fazendo aquela colecção mensalmente, em formato comics e ir lendo todos os meses uma nova história ou a de a comprar inteira quando completada e em formato livro. “Há clientes que só compram em comics, clientes que só compram em livro e há ainda aqueles que compram as duas coisas”, esclarece Paulo Costa.

Pelo contrário, as edições franco-belgas geralmente apresentam histórias fechadas. Cada livro contém a história completa e o ritmo de produção é muito menor do que as das edições norte-americanas, o que faz haver uma menor quantidade de novidades.

Autores Portugueses

Estante de autores portugueses

 

Apesar de a grande especialidade da BdMania ser a banda desenhada norte-americana, aqui também se podem encontrar publicações de autores portugueses, editadas em língua portuguesa, como por exemplo as edições de autor de Diniz Conefrey ou Victor Mesquita, bem como livros das Edições Polvo, El Pep, Chili com Carne, Abysmo, Turbina ou Revista Gerador. Obras de autores portugueses que não estão publicadas em português, mas que estão em inglês por editoras norte-americanas, são mais algumas das que se encontram na BdMania, como é o caso das de Jorge Coelho, Filipe Andrade, Miguel Montenegro, Ricardo Venâncio, entre outros.

Paulo Costa compara a banda desenhada portuguesa com a música, classificando-a como alternativa, por não haver mainstream. “A banda desenhada portuguesa era muito pessoal, autobiográfica, aquilo que compararíamos com a banda desenhada independente norte-americana… Aquilo que nós estamos habituados a ver como “infanto-juvenil”, do estilo do Asterix ou dos Estrumpfes, em português não existe. Ou seja, é tudo alternativo. Imagine que todos os autores de bandas desenhadas portuguesas eram bandas de garagens… Obviamente que o panorama tende a alterar-se. No caso destes autores que estão a trabalhar nos Estados Unidos, muito do que eles estão a fazer é mais mainstream, porque são histórias de super-heróis”.

Nesta livraria especializada em banda desenhada também se podem encontrar outros artigos relacionados com as personagens das histórias. Estátuas, bonecos, figuras articuladas, porta-chaves ou posters são alguns deles. E aqui não se vende só banda desenhada do género “super-heróis”, apesar de este ser o produto que tem maior rotatividade, vende-se muita banda desenhada e de vários géneros, ou não fosse a Bd um mundo e considerada a 9ª arte.

 

Morada:

Rua das Flores, 71 – Loja

1200-194 Lisboa

Tel: 213 46 208

Site: www.bdmania.pt

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